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É possível dizer que o racismo é estrutural quando ele penetra de tal maneira no nosso tecido social que parece até invisível. Ou seja, quando deixamos de problematizar processos violentos do passado e do presente, e, ao contrário, os “naturalizamos” como se fossem parte da paisagem.
Parece, porém, que finalmente esse debate chegou à nossa mídia e comoveu a sociedade brasileira, mesmo que motivado por um tema que, para muitos, parece lateral na nossa agenda (mas não é): o lugar dos monumentos públicos. Esculturas públicas não são elementos ingênuos nas cidades. Elas fazem parte, em primeiro lugar, de um processo de seleção, que é poucas vezes explicitado, sobre o que se pretende “comemorar” e o que se julga melhor “esconder”. Em segundo lugar, elas perpetuam, na base do concreto, pedra e bronze, personagens da nossa história, em geral europeus e masculinos, e impõem assim sua “obrigatoriedade”. Em terceiro lugar, elas têm a capacidade de efetivar, no cotidiano, certos modelos históricos por demais coloniais. Já repararam que nossos heróis são todos coloniais e homens? Já repararam que chamamos de “história universal” (no singular) narrativas muito ocidentais e que só mencionam eventos europeus? Por que será que nos livros didáticos as posições sociais dos diferentes agentes são sempre tão estereotipadas, com brancos dirigindo a nação, e negros, negras e indígenas quase nunca aparecendo em posições destacadas como intelectuais, pensadores e, sobretudo, protagonistas?
O certo é que essas convenções criam formas de ser e estar no mundo, que buscam tornar invisíveis certos privilégios sociais que, em geral, não são sequer questionados, apenas existem. É passada a hora de “descolonizar” nossa história e nossa imaginação também, o que significa politizá-las. Pois bem, no dia 7 de junho, manifestantes do Reino Unido que protestavam contra o racismo jogaram a estátua de Edward Colston no Rio Avon, sob aplausos e muita festa. Inaugurada em 1895, ela homenageia um membro do parlamento inglês, que viveu em Bristol de 1636 a 1721, mas que ganhava a vida como traficante de escravizados. Calcula-se que tenha traficado 80 mil pessoas entre a África e as Américas, das quais 20 mil morreram no caminho. Mais ainda, no monumento público, ele aparece representado como um lorde inglês, e não desempenhando aquele que era o seu ganha pão: o apresamento e venda de cativos africanos e africanas.
O ato gerou verdadeira comoção dentro e fora do Reino Unido. Enquanto o governo do primeiro-ministro Boris Johnson disse que a remoção foi um “ato criminoso”, o prefeito de Bristol, Marvin Rees, afirmou que prefere deixar a estátua em um museu do que reinstalá-la ao espaço público. E o barulho não ficou restrito ao país em que Colston viveu e muito menos ao seu continente. Tal qual um barril de pólvora o tema explodiu pelo mundo afora. O movimento de revisão dos monumentos públicos também ganhou, dentre outros, as ruas da Escócia, da França e dos Estados Unidos. Por lá, inclusive, antes desse barulho todo, o grupo “decolonize this place” (descolonize esse lugar), já passava os museus por sério escrutínio, questionando as instituições que ainda guardam divisões que passam para o mundo das artes certezas de uma história europeia. Dividir as coleções a partir de temporalidades fixas e evolutivas que reservam aos nativos e africanos o lugar dos primitivos e aos ocidentais o da civilização é deixar escorregar para o mundo das imagens o que se acredita conhecer nos manuais históricos. Diante de tanta agitação, os curadores do Museu de História Natural de Nova York, por exemplo, acharam por bem remover a escultura equestre de Theodore Roosevelt, que ficava bem na sua entrada: dos dois lados do presidente, que aparece grandioso e em cima de um cavalo, estão um indígena e um africano, os quais, além de estarem num plano mais inferior e adjacente em relação à centralidade do presidente norte-americano, olham para baixo enquanto que Roosevelt e seu cavalo desafiam, com o olhar direto, o próprio futuro da nação. Isso tudo no lugar principal dessa instituição, que é visitada diariamente por milhares de turistas e sobretudo por crianças.
A questão, de fundo talvez seja: quem ou o quê a história lembra, e quem ou o quê prefere esquecer? O tráfico de almas bem como o próprio sistema escravocrata correspondem a capítulos muito perversos e violentos da, assim chamada, “história universal”, que tratou de destacar o comércio, mas calou sobre os traumas e sofrimentos dessas populações. É certo que o tráfico não era considerado ilegal até meados do 19, mas fazer homenagem a um personagem como esse significa investir numa espécie de “apagamento da história”, e de revisão dos papéis desempenhados por seus personagens. Como os portugueses, os britânicos foram protagonistas desse comércio de pessoas entre os séculos 16 e 19. Em 1807, o Império Britânico proibiu a atividade entre suas colônias, mas a escravidão só foi abolida em 1833. Já os brasileiros mantiveram a atividade intocada até 1850, quando finalmente foi abolido o tráfico, mas não a escravidão. Impressiona, ainda, como por lá e por aqui esses negociantes de almas humanas foram acomodados e reconhecidos enquanto políticos destacados, muitos deles transformados em barões e viscondes. “Lustramos” a biografia e só ficamos sabendo de menos da metade das suas histórias e destinos.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
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