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Platão costumava afirmar que a relação entre o “bem viver e o bem morrer” era muito estreita. O historiador Philippe Ariès, pautado nos ensinamentos do filósofo grego, afirmou que, no fundo, a filosofia é sempre uma meditação sobre a morte — sobre a correlação existente entre a vida e a morte. No entanto, psicólogos, sociólogos, historiadores e antropólogos têm notado um fenômeno tão paradoxal como recente: o “desaparecimento da morte”.
Na opinião de Ariès, foi no começo do século 20, mais particularmente após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que se deu “a morte da morte”. Essa espécie de interdito da morte — essa recusa a lidar com ela — ficou mais patente nos Estados Unidos e na Europa industrial, que passaram a louvar exclusivamente a vida na forma da longevidade e do não envelhecimento. Ao mesmo tempo, com a epidemia da gripe espanhola de 1918, criou-se toda uma engenharia médica e sanitária, visando contornar “acidentes cotidianos” da morte. Uma tecnologia adaptada e capaz de proteger as pessoas foi então implementada com o objetivo de preservar vidas, visando liberar os corpos para que seguissem em suas tarefas diárias, livres da morte que costumava espreitar as pessoas nas esquinas mais inesperadas.
O silenciamento da morte é assim coerente com a chegada da modernidade, que veio acompanhada da urbanização, da industrialização e de uma certa racionalidade científica disposta a driblar o perecimento humano. Três diferentes fenômenos sociais e médicos fizeram parte dessa rota. O primeiro deles foi quando se deu uma ocultação generalizada da morte, e a espetacularização de apenas algumas poucas perdas, aquelas de celebridades. Nesse processo, ocorre uma espécie de superexposição de certos falecimentos, por parte dos meios de comunicação e da população que compactua da dor, e o silenciamento diante do grosso da população: a morte das pessoas comuns de uma forma geral, o perecimento dos mais idosos, a morte de jovens negros nas nossas periferias brasileiras que continuam a passar “em branco”.
Um segundo procedimento foi a transferência dos doentes para os hospitais, onde se combate a morte, por certo, mas ela também permanece escondida, longe da visão dos saudáveis. O terceiro passo representou uma espécie de extinção social do luto, sobretudo quando ele é coletivo: causado por guerras, acidentes geográficos, pandemias.
O filósofo Walter Benjamin narra ter visto como os soldados da Primeira Guerra Mundial voltaram para casa. Disse ele que esses retornavam calados, sem ter qualquer palavra ou experiência para contar. O falecimento de colegas e amigos os emudecera. Era como se não pudessem e não quisessem mais se referir à morte. Não parece coincidência ser esse o momento que marca uma guinada nas nossas percepções sociais sobre essa etapa da vida.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
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