Temas
Compartilhe
A história não se repete, mas tem a capacidade de oferecer uma boa lição. No dia 27 de fevereiro de 1933, em torno das 21h, o Reichstag – um vistoso e simbólico edifício que abrigava o Parlamento alemão – pegou fogo. Até hoje ninguém sabe quem ou quais foram os culpados pelo acidente que tomou de assalto e na base da surpresa a cidade de Berlim. O que sabemos é o tamanho e as consequências da imensa repercussão, que deu lugar a uma política de emergência da qual a Alemanha e o mundo não se safariam tão cedo. Adolf Hitler, na época um jovem militar, teria comentado nessa ocasião: “Este incêndio é apenas o começo. (…) De agora em diante não haverá misericórdia. Quem quiser se colocar em nosso caminho será abatido”.
Há quem diga que o incêndio teria sido provocado pelos próprios nazistas que andavam atrás de um bom (ou mau) pretexto para mudar o jogo na Alemanha e acabar com o experimento liberal da República de Weimar – quase um parênteses no meio de um mundo em guerra, marcado por radicalismos de todos os lados. Não há como apostar, mas o que se abriu naquele momento foi, com certeza, uma janela de oportunidade. Logo na manhã seguinte, todos os direitos mais básicos dos alemães foram roubados a partir da promulgação de um decreto. A ideia era jogar a culpa no colo dos opositores – chamados de “inimigos da Alemanha”— e permitir que, daquele momento em diante, todo e qualquer suspeito fosse “preventivamente detido” pela polícia.
A opinião pública virou rapidamente; a então famosa vida moderna e liberal da Alemanha, e sobretudo dos berlinenses, deu lugar a uma mentalidade revanchista e militar – deixando aflorar e elevando o ressentimento sentido por causa do duro pacto imposto ao país após o final da Primeira Guerra Mundial. Nas eleições realizadas no dia 5 de março de 1934, o Partido Nazista, que até então era levado pouco a sério, obteve uma vitória arrasadora nas eleições parlamentares. Estava pavimentado, então, o caminho para um estado autoritário, que começou vencendo eleições, mas na base do medo e da exaltação de um nacionalismo predatório. Com base na alegação de que o incêndio era obra dos “inimigos da pátria”, a polícia e as organizações paramilitares nazistas prenderam políticos de esquerda e os confinaram em campos de concentração improvisados rapidamente para a ocasião. Também se começou a construir um bode expiatório interno – que faz parte do beabá dos fascismos – acusando os judeus, a essas alturas muito integrados à sociedade local, de estarem desvirtuando “valores tradicionais” e causando a pobreza dos cidadãos alemães.
Mas a escalada só estava começando; logo no dia 23 de março, o novo Parlamento eleito deu a Adolf Hitler plenos poderes para governar por decreto. A história que o mundo conheceria logo na sequência, e por 12 longos anos, até o final da Segunda Guerra Mundial, instituiu um Estado pirata e facínora, que governou na base do medo, assassinou milhões de pessoas inocentes e chacoalhou as bases do mundo ocidental. A receita de governar na base do terror e das teorias conspiratórias, da criação de inimigos e de fake news não era (e não é) nova, mas a escalada da violência seria inigualável.
Não sei se esse tipo de situação histórica acende qualquer despertador ético e moral para você que lê esta coluna. Na minha cabeça o regime de paralelos e semelhanças é incontornável. Temos assistido a uma escalada autoritária sem igual de governos que vão usando da pandemia para abusar do regime de exceção. Também estamos presenciando uma clara reversão de valores e expectativas, com a democracia não representando mais uma chancela cidadã e civilizatória. Nos Estados Unidos, na Hungria, na Itália, na Polônia, em Israel, na Rússia, na Venezuela, no Brasil, dirigentes masculinos, que gostam de governar a partir da exposição de suas virilidades, têm atacado a imprensa, a Academia e as instituições democráticas; tratado com desdém as minorias – que são na verdade maiorias minorizadas na representação –; governado na base de mentiras por eles criadas e sem qualquer comprovação; falado mal da ciência; e inventado seus próprios remédios, apelando para o milagre.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
Destaques
Navegue por temas