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Lilia Schwarcz

Bolsonaro na terra do Uncle Sam

19 de outubro de 2020

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O destino brasileiro está em jogo nas eleições presidenciais norte-americanas, já que o projeto de país que Bolsonaro almeja criar depende do mundo que Trump desenhou

No dia 3 de novembro, ocorrem as eleições presidenciais nos Estados Unidos — e nunca o voto dos norte-americanos foi tão decisivo para o Brasil. A situação contemporânea é muito preocupante, mas não é de hoje que nosso país faz parte da área de ação do Uncle Sam.

E essa história tem data de início. Foi apenas no começo do século 20 que os EUA passaram a atuar de forma estrategicamente imperialista em relação à América Latina como um todo. Até então, essa nação era praticamente desconhecida pelos brasileiros, a ponto de o estadista Joaquim Nabuco afirmar — em “Minha formação”, livro publicado pela primeira vez em 1900 — que desconfiava de um país assim tão jovem e sem história. Além do mais, nossa imaginação era até então europeia, sobretudo francesa, e ninguém pensava em associar o futuro do país a uma nação ainda tão “imprevisível”.

O domínio dos EUA começaria a funcionar, pra valer, logo depois da Primeira Guerra Mundial, quando o país entrou como um aliado de menor importância e voltou consagrado como um agente que faria toda a diferença no tabuleiro internacional que se montava desde então.

Daí em diante, a influência só aumentou. Com o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, os EUA assumiram o papel de protagonistas na Guerra Fria, tensão que dividiu os países do planeta em dois blocos rígidos: aqueles que se encontravam sob a égide da União Soviética, que buscava implantar o socialismo; e os que faziam parte dos “simpatizantes” norte-americanos e que defendiam a expansão do capitalismo. Abriu-se, então, um período marcado por disputas estratégicas e conflitos apenas indiretos, mas que literalmente polarizaram o mundo.

A ação norte-americana durante o golpe civil-militar de 1964 faz parte, de alguma maneira, desse quebra-cabeças histórico. Para além da ação do Exército brasileiro e de parte do empresariado do país, outro ator central do golpe foi a Casa Branca, que se empenhou em “combater o comunismo” no Brasil. Com medo de que por aqui se repetisse o modelo da revolução cubana, o embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon, em conluio com agentes da CIA (Central Intelligence Agency, a agência de inteligência norte-americana) conspiraram e animaram militares brasileiros a depor o presidente eleito, João Goulart.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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