Coluna

Lilia Schwarcz

O vírus do bolsonarismo e o medo da vacina

03 de novembro de 2020

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Importa pouco se Bolsonaro age assim por vassalagem a Trump ou cálculo eleitoral. Muito pior é perceber que o descrédito que ele verbaliza contra a imunização faz parte de uma política mais consistente de ataque à informação e à ciência

Nos idos de 1721, Cotton Mather era uma reconhecida liderança religiosa em Boston, naquela época uma pequena colônia inglesa localizada na região norte da então chamada Nova Inglaterra. Esse pastor calvinista, na época com 53 anos, ganhara destaque por ter participado do julgamento das “Bruxas de Salem” na juventude. Entre 1693 e 1694, mais de 200 pessoas acusadas de bruxaria foram julgadas na Massachusetts colonial. Trinta foram consideradas culpadas. Dessas, cinco morreram na prisão e 19 foram executadas por enforcamento – catorze mulheres e cinco homens.

Mas o religioso ganharia fama e se inscreveria na posteridade por outro motivo: a aplicação de uma técnica oriental que visava acabar com a epidemia da varíola. A curiosidade do religioso não era nova, já que havia algum tempo ele vinha aplicando em doentes experimentos feitos à base de plantas. Por sinal, a pesquisa científica estava no DNA da família. O pai do reverendo tinha sido reitor em Harvard, enquanto o filho se tornaria um dos fundadores da igualmente famosa universidade de Yale.

A biografia do pastor restaria sobretudo associada ao experimento que na época ganhou o nome de “inoculação”. Diante da epidemia de varíola que castigava a colônia, o religioso, do alto de seu púlpito, passara a indicar um procedimento que causava quase tanto estranhamento como a atividade das assim chamadas “bruxas”. Recomendava que as pessoas com sintomas leves da doença fossem inoculadas com o próprio líquido das feridas que ela causava.

Essa não era uma experiência simples. Expor pacientes a uma forma controlada da doença não significava uma ação sem riscos, ainda mais diante da letalidade da epidemia. Por isso, houve muitas reações adversas e o pastor chegou a sofrer um atentado de vizinhos, que incendiaram sua casa. Mas o certo é que a proporção de inoculados mortos era bem menor daquela verificada nas ruas, que andavam totalmente fora de controle. Mather costumava contar vantagem em seus sermões: dizia que se na cidade uma em cada sete pessoas morriam, entre os inoculados falecia uma em cada 40. O risco compensava.

Mather não foi o primeiro a tentar induzir uma forma mais branda da moléstia para perseguir a sua cura. A técnica era conhecida na África e na Ásia e fora aplicada pelos jesuítas, no Brasil. No entanto, a experiência de Boston – bem como a revolta civil que ocasionou – entrou para a história da vacinação como uma das primeiras a serem documentadas.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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