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Imagens do poder são aquelas que, criadas pelos governos ou por artistas alinhados a uma postura oficial, reafirmam as certezas de um novo regime, apagando qualquer sinal de insegurança ou de irregularidade. Elas aí estão para apresentar e performar novos regimes — impostos de forma regular ou ainda irregular, por meio de golpes e ditaduras.
De toda maneira, toda nova configuração política costuma se servir de símbolos não só disponíveis como legíveis, devidamente traduzidos para o novo ambiente, de forma a infundir sentimentos comuns, transmitir serenidade, e deixar passar uma certa naturalização do que é recente — a certeza de que o estado atual sempre existiu ou já chega para ficar.
Nas palavras de Émile Durkheim, essa seria “a eficácia simbólica do poder político”, ou então, invertendo os termos da frase (e seu sentido): essa seria “a eficácia política do poder simbólico”. Não há regime que deixe de manipular símbolos políticos e pátrios para assim justificar e amplificar sua própria realidade. Também não há regime que abra mão de se elevar a partir do uso de elementos que confiram antiguidade ao inesperado, servindo-se de uma simbologia vinda do passado.
A República chegou ao Brasil por meio de um golpe urdido pelo Exército, pelo PRP (Partido Republicano Paulista) — composto por profissionais liberais e proprietários paulistas do café — e, mais em cima da hora, por ex-senhores de escravos, descontentes com a abolição da escravidão (sem indenização) em 1888, quando a monarquia perdeu seus últimos e mais fiéis aliados.
Em novembro de 1889, o governo de D. Pedro 2º encontrava-se isolado, e todos os esforços que fizera ao entregar o ato que deveria ser o mais popular do regime — a libertação dos escravos — para sua filha Isabel não resultaram no tão sonhado Terceiro Reinado. Figura muito popular até então, o soberano, que voltava de viagem naquele ano, encontrou um país dividido e tenso. Os jornais da época anunciavam o retorno da “esquife do imperador” — e um rei que parece estar cansado diante de sua população é, a cada dia, menos rei. O movimento republicano crescia, bem como a insubordinação na caserna do Exército, que não pretendia mais, desde o final da Guerra do Paraguai, em 1870, reassumir sua antiga posição submissa; eles se entendiam agora como “salvadores da nação”. O certo é que o Império brasileiro se encontrava muito fragilizado e, fazia tempo, não se comportava mais como fiel da balança.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
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