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Lilia Schwarcz

Lima Barreto e Beto Freitas: sobre o perigo que espreita os negros

30 de novembro de 2020

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Tanto o escritor do século 20 quanto o jovem gaúcho morreram, com uma diferença de quase 100 anos, de racismo. Para fazer do Brasil um país menos perigoso para a população negra, precisamos chegar antes da opressão

Na biografia de Lima Barreto , não são poucos os episódios em que o autor narra práticas de discriminação e de preconceito racial, sofridos por ele, no contexto da Primeira República (1889-1930). Mas um caso, que ocorreu na época em que o futuro escritor era ainda estudante, chama particular atenção. A essas alturas, Lima era aluno da Escola Politécnica e sofria não só para passar em certas disciplinas (em cálculo, sobretudo), como por causa de atitudes ríspidas dos professores e colegas. O certo é que vivia constrangido diante dos alunos mais abonados, estudantes ricos que usavam polainas brancas, chapéu coco, bengala com aplique de ouro e se vestiam no Raunier – uma das lojas mais chiques da cidade.

FOTO: FOTÓGRAFO NÃO IDENTIFICADO/ACERVO DA BIBLIOTECA BRASILIANA GUITA E JOSÉ MINDLIN

Antigo retrato em preto e branco de turma de homens em traje formal

Retrato da turma de Lima Barreto na Escola Politécnica

Se durante o período em que frequentara a escola e o colégio em Niterói ainda não sentira de maneira tão forte o impacto das diferenças sociais, no ensino superior, o fato de ser pobre e neto de escravizados passara a aparecer como um grande fardo. Seus colegas podiam comprar livros à vontade, frequentavam os melhores restaurantes, iam aos teatros sem ter que fazer contas. Já Lima, sofreria com o menosprezo dos colegas mais enriquecidos, que, vindos de diferentes estados do Brasil, faziam muitas vezes parte da extinta nobreza do Império e não traziam a cor negra tão evidente em seu semblante.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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