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Lilia Schwarcz

Língua e identidade como instrumentos de resistência

15 de dezembro de 2020

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Povos ameríndios e africanos fingiam concordar com os colonizadores enquanto inventavam todo tipo de artifício para mostrar sua insubmissão

O Brasil colonial era um mundo atravessado por várias línguas e costumes. Há quem diga que por aqui vivia uma Babel de idiomas que misturavam o tupi com o português, as várias línguas indígenas com as muitas europeias aqui desembarcadas, e as tantas nações africanas, que chegaram forçadamente ao território.

Por isso, padres, para atuarem nas missões e aldeamentos indígenas, precisavam aprender tupi e também as chamadas “línguas gerais”. É conhecida a atividade dos jesuítas nesse sentido, que faziam de tudo para dominar a língua dos gentios e assim melhor catequizar essas populações que não se deixavam controlar facilmente.

O jesuíta António Vieira (1608-1697), que chegou no Brasil em 1614, veio à América portuguesa num momento em que a Igreja Católica passava por sérias crises na Europa. Pretendia, portanto, expandir a fé cristã entre os indígenas do Novo Mundo e revitalizar o catolicismo em outras paragens. Com o tempo, porém, padre Vieira tornou-se um combatente da escravização dos indígenas, e passou a duvidar da obra do colonizador europeu. Ficou conhecido pelo seu “Fragmento do sermão do Espírito Santo” (1657), em que, ao invés de louvar o sucesso da colonização, o religioso reconhece o oposto: como era árdua e difícil a tarefa de “trazer a verdadeira fé” para esses dispersos Brasis.

Há uma passagem especialmente significativa desse sermão, quando o religioso se dedica a descrever as dissemelhanças existentes entre dois materiais — o mármore e a murta. A partir deles, estabelece paralelos entre o convívio e o choque entre duas culturas distintas: a dos colonos e a dos indígenas. O padre explora, então, o que reconhece serem diferenças entre a fé sólida e inquebrantável dos europeus e a pretensa pacificidade e maleabilidade dos povos nativos do Brasil.

Evangelizar os pagãos na Europa era tarefa árdua e custosa; entretanto, o resultado ficava para sempre, como o nobre mármore branco. Já catequizar os nativos, era como domar uma murta, um arbusto de porte médio e maleável, que aceitava logo a poda, tomava imediatamente a forma que se queria, mas, ao primeiro descuido, voltava ao desenho original.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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