Coluna

Marta Arretche

Qual o problema da competição política pela vacina?

17 de dezembro de 2020

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Não será a disputa entre Bolsonaro e governadores que comprometerá a imunização dos brasileiros em 2021, mas sim o fato de que, se e quando aprovadas, não teremos vacinas em doses suficientes para a população

O espetáculo é triste! João Doria, governador de São Paulo, anuncia o início do plano de vacinação no estado para o dia 25 de janeiro de 2021, antes mesmo que qualquer vacina tenha sido submetida para aprovação pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). O presidente Jair Bolsonaro constrange seu ministro da Saúde a excluir a vacina produzida em São Paulo do programa nacional de imunização. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, conclama ao confisco das vacinas paulistas. O presidente declara que não vai se vacinar, mas também recua e desdiz o que já havia afirmado.

O contraste não poderia ser mais chocante. No Reino Unido e nos EUA , governados por parceiros do negacionismo de Bolsonaro, a vacinação já começou. Nossa inferioridade não se restringe à comparação com governos de países ricos. O espetáculo contrasta com nosso próprio passado, com um período não muito distante em que éramos fortemente estimulados pelo Ministério da Saúde a nos vacinarmos, de modo a prevenir individual e coletivamente a contaminação por doenças virais.

Mas não se impressione com isso! Nenhum dos atores deste espetáculo enlouqueceu. Há uma racionalidade nisso. Estão todos reforçando as conexões com suas bases eleitorais. Bolsonaro acena para os negacionistas, que desconfiam da vacina. Doria faz da vacinação um componente crucial de sua campanha para a Presidência, a ponto de chamar os eleitores de todo o Brasil, seu eleitorado potencial, para virem se vacinar em São Paulo. Ronaldo Caiado, potencial candidato à Presidência no campo da direita, está apenas disputando os holofotes com Doria e se distinguindo do negacionismo de Bolsonaro.

Tolerado o mau gosto do espetáculo, a pergunta que fica é se a competição eleitoral em torno da vacina comprometerá a vacinação. Não são poucos os que acreditam que a disputa política é danosa à necessária convergência das ações de governo, em particular em países federativos, continentais e muito desiguais, como é o nosso caso.

A competição eleitoral nem sempre leva governos à ação. Mas, nesse caso específico, ela tem produzido incentivos para que governadores e prefeitos busquem meios de distribuir vacinas à população o mais rápido possível. As pressões políticas vêm da oposição no plano local e de eleitores mobilizados. O governador Doria deverá continuar mobilizando a questão em sua disputa com Bolsonaro, o que continuará produzindo enorme pressão sobre o Ministério da Saúde para sair do imobilismo e produzir ações de imunização.

Marta Arretcheé professora titular do Departamento de Ciência Política da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole. Foi editora da Brazilian Political Science Review (2012 a 2018) e pró-reitora adjunta de pesquisa da USP (2016 a 2017). É graduada em ciências sociais pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), fez mestrado em ciência política e doutorado em ciências sociais pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), e pós-doutorado no Departamento de Ciência Política do MIT (Massachussets Institute of Technology), nos EUA. Foi visiting fellow do Departament of Political and Social Sciences, do Instituto Universitário Europeu, em Florença. Escreve mensalmente às sextas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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