Coluna
Luciana Brito
Em 2020, ‘AmarElo – É tudo pra ontem’ foi alegria da vida adulta
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No dia 8 de dezembro, foi lançado na plataforma Netflix o documentário “AmarElo – É tudo pra ontem”, do rapper Emicida, produzido pelo Laboratório Fantasma. Depois de passarmos por todo 2020 vivas e vivos, eu decidi que este texto, último do ano, seria uma celebração à arte e à vida negra na diáspora.
O primeiro minuto do documentário já começa com um provérbio africano que fala de Exu. Entendedores entenderão que muitas vezes, escolhas e decisões tomadas no passado, caminhos escolhidos quando não pareciam ter sentido, só serão compreendidos depois, muito tempo depois. Nesse sentido, “Exu matou um pássaro ontem com a pedra que jogou hoje”, o ditado iorubá citado pelo rapper no inicio do documentário, reflete não só as escolhas feitas por Emicida, como também elucida os caminhos percorridos por lideranças negras brasileiras e, de forma mais geral, pelo povo negro na diáspora. As pedras e o alvo, que chegam em ordem aparentemente contrária, fizeram todo o sentido para que eu, você que lê este texto, o rapper Emicida e todas as pessoas negras que estão aqui, existissem. Somos a pedra em trajetória, em movimento, fruto de um acerto perfeito, feito no passado.
Do meu lugar, como historiadora e professora, tenho conversado com minhas/meus colegas que uma das maiores contribuições de Emicida é contar a história do Brasil, e de sua “quebrada”, São Paulo, de outra forma. Lembro-me que quando iniciei minha carreira como professora numa escola localizada num bairro periférico de Salvador, um menino de não mais que 13 anos me deu uma fita cassete e disse: “professora, leve essa fita pra casa e escute. A senhora pode dar aula com essas músicas?”. O ano era 2002 e o álbum era “Nada como um dia após o outro”, de Racionais MC’s. Ali, depois de muito escutar “Negro Drama”, eu entendi que a escola falava uma língua, e a juventude negra, outra.
Nos livros de história, no nosso imaginário, na novela, no discurso político e até mesmo na historiografia recente, São Paulo, a locomotiva da nação, chamada por Emicida de “terra da oportunidade”, é retratada como o lugar que “deu certo”, mas não pela exploração da mão de obra negra escravizada, quando o cativeiro já agonizava no resto do país. Aprendemos que a mão de obra imigrante, vinda da Europa, seria a razão do progresso da região, que tinha como objetivo ser o exemplo do sucesso do projeto de embranquecimento do país. Em “AmarElo – É tudo pra ontem”, essa narrativa desaparece e dá ênfase à comunidade negra. De forma secundária, a massa de nordestinos e nordestinas, que chegaram à cidade em busca de oportunidades, também aparece como construtores da cidade que seria a locomotiva da nação.
A história do projeto de formação da cultura brasileira é contada sob a perspectiva de essa produção ter sido resultado de um empreendimento negro. Portanto, a história do Brasil, contada de forma brilhante na versão de Emicida, não se explica somente com a exploração das pessoas negras escravizadas nas plantações de café e nos canaviais e nem com o acúmulo de capitais que os anos de cativeiro produziu. A população negra também imprimiu sua marca na nação brasileira produzindo uma cultura rica e própria, singular e, ao mesmo tempo, diásporica, já que também foi fruto de contatos diversos que se refletem em sua própria cosmovisão e esperanças para o futuro.
Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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