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Finais de ano costumam gerar muita expectativa; dentre elas, a de que é chegada a hora de passar a vida em balanço. Nesses momentos rituais procuramos pensar no que fizemos e no que não fizemos. Nos desafios que conquistamos e naqueles que vamos empurrar para o ano seguinte. Nas amizades que cultivamos e até ampliamos e naquelas que deixamos para trás. Nos nossos acertos e erros, nas alegrias e nas tristezas, nas conquistas e nas decepções.
Se costuma ser sempre assim, monotonamente assim, tenho certeza de que, este, será um ano diferente. Nos idos de 1977, Raul Seixas lançou o álbum chamado “No dia em que a Terra parou”. Não sei se foi premonição ou sorte do mago. Entretanto, de uma coisa eu tenho certeza: o tema nunca foi tão atual.
2020 será lembrado como o ano da pandemia de covid-19, assim como 1918 ficou conhecido, na memória dos mais velhos, como uma espécie de marcador temporal: “No tempo da espanhola”, diziam eles. Da gripe espanhola.
Nós que costumávamos achar que o mundo era um só; que podíamos viajar pelo país e pelo mundo; que a tecnologia de ponta nos redimiria das travas e impedimentos, vimos tudo parar, tal qual trem descarrilhado. Fecharam as escolas, as igrejas, o comércio, os teatros, os restaurantes. De repente, um vírus parou a nossa vida social. Como estamos acostumados a viver na lógica do passageiro, quando começou o isolamento social, logo achamos que tudo seria breve, rápido como correm os meses do ano. Mas o rápido foi ficando longo, as medidas profiláticas, permanentes, e vamos terminar 2020 em clima de covid-19, e sem muitas certezas em relação ao que 2021 nos trará.
Incluímos também novos hábitos no nosso cotidiano. Lembro que a primeira vez que vi uma amiga postando a imagem de máscaras de proteção fashion, me revoltei, e escrevi a ela dizendo que não se podia brincar com o sofrimento alheio. Não tinha noção de que o “alheio” era “meu” também, e que, sim, esse seria um acessório que vinha para ficar.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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