Coluna

Marta Arretche

As eleições de 2020 refundaram uma nova ordem política?

19 de novembro de 2020

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A derrota eleitoral de Bolsonaro neste pleito já estava dada. Mas o fracasso dos poucos candidatos apoiados pelo presidente não pode ser tomado como evidência de mudanças substantivas nas preferências do eleitorado

Eleições costumam ser lidas como um momento de mensuração dos humores do eleitorado. A razão é simples. Sua escala costuma ser mais próxima do universo de eleitores e o voto na urna revela mais sobre escolhas reais do que respostas a pesquisas de opinião. Por isso, resultados eleitorais são observados com enorme cuidado como evidências mais sólidas das tendências dominantes entre os eleitores.

Não é raro, entretanto, que resultados eleitorais também sejam interpretados como momentos de (re)fundação de uma ordem social. Vista desta perspectiva, a agregação dos votos poderia ser lida como reveladora de uma mudança substantiva nas preferências dos eleitores, evidência de que o apoio a uma dada ordem social anterior teria sido derrotado, passando a fazer parte do passado.

A ciência política denomina de realinhamento partidário quando essas mudanças afetam a distribuição dos votos entre os partidos. Mas não é possível saber ex-ante — ou seja, com antecedência — quando um fenômeno deste tipo ocorre. Apenas a observação de sucessivas eleições permite identificar se ocorreu realinhamento ou se o resultado de uma eleição não passou de um evento isolado.

Crenças societais, contudo, mudam muito lentamente e não são passíveis de manufatura. Nem a eleição de Barack Obama representou o fim do racismo nos EUA, nem a eleição de Jair Bolsonaro representou um deslocamento do eleitorado brasileiro em direção ao fascismo.

Lamento ser portadora de má notícia. Mas suspeito que a interpretação de que a derrota eleitoral de Bolsonaro tenha (re)fundado a política brasileira em novas bases seja (fortemente) afetada por nosso (intenso) desejo de que a nossa vida política (um dia) volte a funcionar em bases (mais ou menos) normais.

Marta Arretcheé professora titular do Departamento de Ciência Política da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole. Foi editora da Brazilian Political Science Review (2012 a 2018) e pró-reitora adjunta de pesquisa da USP (2016 a 2017). É graduada em ciências sociais pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), fez mestrado em ciência política e doutorado em ciências sociais pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), e pós-doutorado no Departamento de Ciência Política do MIT (Massachussets Institute of Technology), nos EUA. Foi visiting fellow do Departament of Political and Social Sciences, do Instituto Universitário Europeu, em Florença. Escreve mensalmente às sextas-feiras.

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