Coluna

Marta Arretche

O negacionismo e o método científico hoje e na história

30 de julho de 2020

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As controvérsias que movem a ciência não podem ser confundidas com meras polêmicas

Este texto foi escrito em parceria com Marie-Anne Van Sluys, do Instituto de Biociências da USP, como parte da campanha #CientistaTrabalhando, que celebra o Dia Nacional da Ciência.

“A tensão existente entre saber e não-saber conduz ao problema e à tentativa de solução. Porém, jamais é superada. Isto porque o nosso saber nunca é mais do que propostas provisórias de solução apresentadas a título de ensaio e, conseqüentemente, encerra em si, em princípio, a possibilidade de se revelar errôneo, logo, não-saber. E a única forma de explicação do nosso saber é também ela apenas provisória. Consiste na crítica, ou mais precisamente, no fato de as tentativas de solução parecerem resistir até agora às nossas críticas mais severas.”

A afirmação acima foi extraída de belíssima conferência feita por Karl Popper, na abertura das Jornadas da Sociedade Alemã de Sociologia, em 1961. Explica a humilde confiança que deve animar os cientistas, de qualquer área de conhecimento.

O conhecimento científico é sempre provisório. Boas teorias são aquelas que sobrevivem à crítica e a novos estudos. Se novas evidências desafiam uma teoria(entendida aqui como a explicação do comportamento de um fenômeno), esta pode e deve ser superada.

A controvérsia é motor da ciência. Mas a controvérsia científica tem método. Não pode ser confundida com palpite informado. O negacionismo sobrevive de palpites informados por recusar esse princípio fundamental.

Marta Arretcheé professora titular do Departamento de Ciência Política da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole. Foi editora da Brazilian Political Science Review (2012 a 2018) e pró-reitora adjunta de pesquisa da USP (2016 a 2017). É graduada em ciências sociais pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), fez mestrado em ciência política e doutorado em ciências sociais pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), e pós-doutorado no Departamento de Ciência Política do MIT (Massachussets Institute of Technology), nos EUA. Foi visiting fellow do Departament of Political and Social Sciences, do Instituto Universitário Europeu, em Florença. Escreve mensalmente às sextas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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