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É lamentável que, em meio a uma pandemia que já matou milhares de brasileiros e ainda custará a vida de muitos outros, estejamos a tratar de outros temas. A política brasileira, porém, tem o dom macabro de monopolizar a atenção, e mais ainda em tempos de bolsonarismo. Portanto, aqui vamos nós…
O espetáculo canhestro da aparição do presidente Bolsonaro em 24 de abril, ladeado de seus constrangidos ministros, em resposta à demissão do agora ex-ministro Sergio Moro, deixou muitos momentos memoráveis. Talvez tenham passado relativamente despercebidas três palavras estarrecedoras: “a não ser”.
Especificamente, disse o presidente : “Jamais procurei [Moro] para interferir nas investigações,a não ser… sobre Adélio, o porteiro e meu filho 04” (ênfase minha). Trocando em miúdos, jamais houve qualquer interferência, exceto nos casos em que de fato houve, “quase como uma súplica”.
O presidente, portanto, admitiu, em cadeia nacional de televisão, que buscou imiscuir-se na atuação da Polícia Federal, em casos de seu especial interesse. Isso pode parecer absurdo, talvez uma reveladora gafe: como pode um político acusado de conduta imprópria simplesmente admitir que sim, realmente assim agiu?
Como costuma acontecer em tantos aspectos do comportamento de Jair Bolsonaro, a experiência de observar Donald Trump nos ajuda a entender o que parece incompreensível. O presidente norte-americano é useiro e vezeiro em simplesmente confirmar diante das câmeras a autoria de atos escandalosos a ele atribuídos. Sim, eu demiti o diretor do FBI por causa das investigações sobre a Rússia. Sim, eu solicitei ao presidente da Ucrânia que investigasse meu adversário político, e aproveito o momento para pedir ao governo chinês que faça o mesmo.
Filipe Campanteé Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.
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