Coluna

Claudio Ferraz

Racismo, participação política e a persistência das desigualdades brasileiras

10 de junho de 2020

Temas

Compartilhe

O Brasil foi o país que mais importou escravos entre 1500 e 1888. As desigualdades criadas por essa história podem ser sentidas até hoje

A explosão de protestos nos EUA após o assassinato de George Floyd pela polícia chegou ao Brasil. Os jornais, televisões e redes sociais foram tomados por discussões sobre racismo. Protestos contra o presidente Jair Bolsonaro, que tinham como origem a defesa da democracia, incorporaram também a pauta #BlackLivesMatter. Mas diferentemente dos EUA onde milhares de pessoas brancas foram às ruas protestar contra a violência da polícia — algo que acontece pela primeira vez na história como disse o escritor Ta-Nehisi Coates — no Brasil o movimento ainda é pequeno e negro. A elite branca brasileira adora importar problemas de fora, ficar estarrecida e oferecer sua simpatia em mídias sociais. Mas na hora de discutir o racismo, prefere criticar a política das cotas.

A imagem de George Floyd e seu assassinato não precisava ser importada dos EUA para nos causar espanto. As histórias de Ágatha ou João Pedro, assassinados pelo Estado, estão nos jornais diariamente. O Estado brasileiro mata muito mais negros do que a polícia americana. Só no ano passado foram 5.804 pessoas , a grande maioria pretos e pardos. Mas assassinatos impetrados pelo Estado são só a ponta do iceberg de um problema muito maior, que é a grande desigualdade racial existente na sociedade brasileira. A desigualdade de oportunidades começa cedo entre brancos e negros, com diferenciais no acesso a testes pré-natais e acesso a creches, continua com diferenças no acesso a escolas de qualidade e entrada na universidade, o que geram diferenciais enormes de acesso ao mercado de trabalho e salários. Isso sem falar em homicídios e violência que são particularmente concentrados na população negra.

Qual é a origem histórica dessa desigualdade? O Brasil foi o país que mais importou pessoas escravizadas com origem na África. Entre o descobrimento em 1500 e 1888, cerca de 4,9 milhões de escravos foram trazidos ao Brasil por meio do comércio transatlântico. A pobreza dos ex-escravos começa no final do século 19 e se transmite inter-geracionalmente até os dias de hoje. Na figura abaixo eu juntei dados de renda do censo de 2010 com informações da população de escravos residentes nos municípios em 1872. A figura mostra a relação entre o diferencial de renda entre brancos e negros nos municípios brasileiros e a proporção de escravos existentes em 1872. Os círculos são médias locais para tornar a visualização mais fácil. Vemos claramente que brancos ganham mais que os negros no mercado de trabalho, isso é amplamente conhecido. O que é importante na figura é que essa diferença cresce em lugares que tinham uma maior proporção de escravos em 1872. Enquanto que em municípios dessa amostra onde os escravos representavam algo próximo a 5% da população em 1872, o diferencial de renda brancos-negros é hoje de 30%, em locais onde eram 30% ou 40% essa diferença chega a ser hoje de 50%.

Gráfico de dispersão mostra que a desigualdade de renda entre negros e brancos é maior nos municípios brasileiros que tinham maior população de escravos em 1872

Essa persistência histórica foi documentada por Thomas Fujiwara, Humberto Laudares e Felipe Valencia-Caicedo no trabalho “ Tordesillas, Slavery and the Origins of Brazilian Inequality ”. Eles mostram, usando dados do censo de 1872, que há uma descontinuidade no número de escravos do lado português comparado com o lado espanhol e que essa diferença explica parte da variação hoje na desigualdade entre brancos e negros. Um padrão mais generalizado foi encontrado por Rodrigo Soares, Juliano Assunção e Tomás Goulart fazendo uma comparação entre países que receberam escravos até o século 19. No trabalho “ A Note on Slavery and the Roots of Inequality ” eles mostram que países que receberam mais escravos como proporção da população são hoje mais desiguais.

Claudio Ferrazé professor da Vancouver School of Economics, na University of British Columbia, Canadá, e do Departamento de Economia da PUC-Rio. Ele é diretor científico do JPAL (Poverty Action Lab) para a América Latina. É formado em economia pela Universidade da Costa Rica, tem mestrado pela Universidade de Boston, doutorado pela Universidade da Califórnia em Berkeley e foi professor visitante na Universidade de Stanford e no MIT.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

Navegue por temas