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O debate sobre as políticas propostas pelo recém-nascido governo Biden nos EUA, desde a resposta emergencial à pandemia até os planos de investimento em infraestrutura, já chegou ao Brasil . Como se pode ver nos links, há divergências sobre se o “Bidenomics” é algo desejável, e mais ainda se seria transportável ao Brasil. Mas há consenso em um aspecto: trata-se de uma agenda surpreendentemente ambiciosa.
Por que ambiciosa? Os planos propostos envolvem números até há pouco inimagináveis de gasto público – US$ 1,9 trilhão em gastos compensatórios em resposta à crise da covid-19 , US$ 2 trilhões num plano de criação de empregos e por aí vai. Para além disso, eles envolvem mudanças substanciais na própria estrutura do estado de bem-estar social americano, além de um papel explicitamente ativo do governo na busca de respostas a problemas como a mudança climática . E, do ponto de vista fiscal, a agenda envolve uma combinação entre financiamento por deficit, e propostas para aumentar a tributação dos mais ricos . Em suma, um coquetel que outrora teria sido descartado como politicamente explosivo pelos próprios democratas, especialmente em um Congresso dividido.
Por que surpreendente? Por que Joe Biden jamais foi um apóstolo do radicalismo, muito pelo contrário. Difícil imaginar uma mais perfeita personificação do centrismo dentro do Partido Democrata, em sua longa trajetória política. Mesmo nas primárias de 2020, Biden sempre representou a opção pragmática e moderada. Quem iria esperar que o pragmatismo moderado iria desembocar numa presidência que, cada vez mais, é percebida como o que os americanos chamam de transformativa (“transformational”), para Bernie Sanders nenhum botar defeito?
Por um lado, há um efeito que se convencionou associar à aproximação com a China comunista promovida, nos anos 1970, pelo então presidente Nixon. “It takes a Nixon to go to China” virou parte da sabedoria convencional: somente alguém com as credenciais anticomunistas inatacáveis poderia ter credibilidade para conduzir uma manobra de tal monta. No caso atual, Joseph Robinette Biden Jr, homem branco filho de um operário de um estaleiro em Scranton, Pensilvânia, pode fazer coisas que teriam gerado pânico vindas de Barack Hussein Obama 2º, o radical queniano socialista e anticolonialista da imaginação paranoica da direita americana.
Mas isso não explica tudo, e nem o mais importante. Ninguém cogita a hipótese de Biden ter passado por uma conversão ideológica, então é preciso explicar como o que antes seria descartado como radicalismo virou opção pragmática aos olhos de um centrista moderado.
Filipe Campanteé Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.
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