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Costumo dizer que sou pessimista no varejo, mas otimista no atacado. Se não dá para encarar de forma positiva o presente, nada como projetar o futuro.
Vivemos a maior crise que o Brasil já conheceu. A crise é única pois é política, econômica, cultural, moral e sanitária. O mesmo vale para a gestão da pandemia no país. Ando muito pessimista, diante da falta de planejamento nacional por parte do nosso governo, do negacionismo como política de Estado e da difusão de um “kit” de tratamento precoce que não passa de placebo; ou melhor, serve para outras doenças como a malária, mas não para impedir contaminação por covid-19. O certo é que todo esse descaso vai produzindo um número de mortes assustador; devidamente naturalizado pelo presidente que não sabe lidar condignamente com o luto de tantos brasileiros. Já passa de 230 mil o número de mortos, no momento em que escrevo este artigo. Não há como ser otimista no varejo, diante desse cenário.
Podemos imaginar um amanhã melhor e enxergar luz no final do túnel. Entretanto, enquanto nada disso acontece, precisamos aprender a lidar com um chefe do Executivo que não sabe e não quer cuidar de seu povo.
Num contexto pandêmico, cuidar virou um verbo fundamental, tendo em vista a sua dupla acepção. O conceito de “cuidar” está relacionado, por um lado, ao ato de ficar atento diante de algo que guarda o potencial de ser perigoso. Não por acaso o termo “cuidado” vem da ideia de “cuidar”.
A cidadania é uma franquia que o cidadão concede à República. Mas cidadão que é cidadão, de verdade, apenas delega parte de seus direitos aos representantes políticos que elege; não abre mão deles, jamais. Por isso, “cuidado” tem a ver com um projeto determinado: a atenção com que “cuidamos” de nossas vidas, mas também da saúde e da coletividade, enquanto cidadãos. Tem a ver, também, com o “cuidado” que o presidente demonstra em relação aos cidadãos do país que governa; “cuidado” que tem que ser irrestrito e não setorializado. Afinal, a política é o lugar de formação de consensos, não da divisão.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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