Coluna

Lilia Schwarcz

De Canudos ao caso Lázaro: o espetáculo da morte no Brasil

05 de julho de 2021

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Nenhuma morte deveria ser celebrada pública e oficialmente, mas a violência de Estado virou uma linguagem naturalizada no país

Foi uma verdadeira caçada. No dia 28 de junho de 2021, Lázaro Barbosa foi encontrado pela polícia e morto. A perseguição ao criminoso tomou a imprensa e, assim, a sociedade brasileira, que faz tempo não seguia de maneira tão detalhada e diária a procura de uma pessoa que insistia em escapar da lei, resistindo aos avanços dos soldados que continuavam, depois de muitos dias, à sua procura. Pudemos ler relatos dos perseguidores, relatos comovidos das esposas dos perseguidores, relatos da mãe de Lázaro, relatos das famílias que deixaram suas casas com medo de se depararem com o bandido. Não havia quem deixasse de saber da história e das incríveis peripécias desse que não tinha nada de Robin Hood. Não roubava para ajudar os pobres e tampouco matava para fazer justiça social.

Por isso mesmo, tratar do tema a partir de qualquer outro ângulo (que não seja aquele da imagem sensacionalista deixada pela mídia e pela polícia local) é bem difícil, ademais diante de uma sociedade que recebeu a história de Lázaro Barbosa –merecidamente, é preciso assinalar – a partir do lugar do medo e da insegurança. Afinal, ele assassinou uma família inteira e traumatizou toda uma região por causa de seu comportamento violento. Não há, pois, como deixar de mostrar solidariedade para com as vítimas desse que vai sendo definido como um serial killer brasileiro.

Confesso, porém, que passei o resto da semana meio incomodada com o excessivo “espetáculo da morte” que se montou, com direito a rojões, rasantes de helicópteros e ritual de demonstração de flexão de braço por parte da tropa triunfante. Mais uma vez, não quero ser injusta. Imagino como a polícia respirou tranquila depois da morte de Lázaro, e como cada um deles temeu, sinceramente, pela própria vida. Por isso parabenizo o empenho e a bravura desses que arriscaram o próprio destino para perseguir um foragido da lei.

Todavia, celebrar a morte, mostrar a foto de uma pessoa crivada de balas sendo carregada, é um pouco demais. Na mesma hora em que o perseguido foi morto, milhares de zaps receberam o mesmo vídeo, e fotos percorreram o país mostrando aquele corpo negro já sem vida e ensanguentado. Não há como esquecer também que a polícia estava lá para prender e depois levar a julgamento esse homem que assassinou friamente as suas vítimas. Mas a demonstração da quantidade de balas que atingiram o corpo de Lázaro Barbosa é também um troféu da violência de Estado que virou linguagem contemporânea e naturalizada. Diz respeito também a um contexto brasileiro, em que nos emocionamos mais com a morte, violenta ou não.

Não pude deixar de lembrar do final da Guerra de Canudos, quando em 1897 levou-se o corpo de Antônio Conselheiro para a então capital, o Rio de Janeiro, convertido em imagem de triunfo e vitória da República. Diferente foi a posição de Euclides da Cunha, que, presente no cenário de guerra, e no seu livro “Os Sertões” , denunciou o massacre de homens, mulheres e crianças no sertão da Bahia e, muito particularmente, a atribuição de responsabilidades aos próprios sertanejos. O jornalista dizia que a culpa da tragédia era do Exército brasileiro.

A demonstração da quantidade de balas que atingiram o corpo de Lázaro Barbosa é também um troféu da violência de Estado que virou linguagem contemporânea e naturalizada

Naturalmente, os debates sobre a Guerra de Canudos não ficaram presos no passado, e parecem mesmo redivivos atualmente, quando a história militar brasileira passa por novas ondas de reinterpretação e está tão presente no atual governo brasileiro. É que, há 117 anos, a narrativa exemplar e polêmica do conflito de Canudos realizada por Euclides da Cunha parece desempenhar, guardadas as devidas proporções, um papel expiatório na sociedade brasileira. É porque os livros não operam alterações na sociedade apenas no plano intelectual, mas também no sociopolítico e cultural, enraizando-se nas consciências e participando da organização dos grupos sociais e da sociedade como um todo.

Talvez por isso, parece que prosseguiremos com “Os Sertões” também para tentar expiar nossa culpa e tentar recompor, no plano simbólico, a fratura que o extermínio dos sertanejos criou na sociedade brasileira em meio ao seu processo de modernização conservadora e em nome da “razão de Estado”. Mesma culpa que nos faz festejar uma morte.

Na época essa era uma Razão de Estado, aliás, da qual o próprio Euclides se fizera inicialmente porta-voz e da qual, já na “Nota preliminar” que abre “Os Sertões”, para além do cientificismo biológico dominante à época, parecia querer se redimir. O livro, talvez a obra mais extensamente analisada pela crítica literária brasileira, terminava alardeando as dificuldades do narrar bem como a impossibilidade de comemorar. Ao invés da estrutura épica, do grande desfecho, surge a própria inaptidão da palavra, do comunicar.

Tudo lembra o relato de Walter Benjamin, no texto “Experiência e pobreza”, de 1933, quando o autor pode observar o retorno dos soldados da Primeira Guerra Mundial, feito em silêncio. Não havia o quê ou porquê falar.

O trecho lembra, também, um poema do próprio Euclides da Cunha, chamado “Página vazia” (que aparece no texto “Brutalidade antiga: sobre história e ruína em Euclides”, e em entrevista concedida pelo prof. Francisco Foot Hardman para o jornal da Unicamp):

Quem volta da região assustadora
De onde eu venho, revendo inda na mente
Muitas cenas do drama comovente
Da Guerra despiedada e aterradora,
Certo não pode ter uma sonora,
Estrofe, ou canto ou ditirambo ardente,
Que possa figurar dignamente
Em vosso álbum gentil, minha senhora.
E quando, com fidalga gentileza,
Cedestes-me esta página, a nobreza
Da vossa alma iludiu-vos, não previstes
Que quem mais tarde nesta folha lesse
Perguntaria: "Que autor é esse
De uns versos tão mal feitos e tão tristes?"

Escrito em 1897, logo depois de Euclides voltar da expedição de Canudos, o poema revisita o conflito experimentado pelo autor em seu livro. Ditirambo é uma forma poética que implica criação livre; canta a alegria e a exaltação, mas, mais uma vez, surge como economia de contrastes nas páginas vazias, tristes, revoltadas de “Os Sertões”.

Não por coincidência, na nota preliminar do livro, escrita com certeza ao final da feitura de “Os Sertões”, Euclides se dedica à tarefa de “denunciar”: “Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime.Denunciemo-lo.”

Denunciar é de alguma maneira levar ao conhecimento, e Euclides da Cunha se valia da posição de “testemunho”, daquele que experimenta a situação in loco , ou como define Hannah Arendt, daquele que “fica para contar”.Por isso, mesmo diante do filtro do governo e da imprensa, Euclides anuncia sua fiel intenção de narrar. Mas trata-se de uma narrativa propositadamente ausente, ou que avalia a impossibilidade discursiva de narrar o horror.

Já o corpo de Antônio Conselheiro entrava para sempre no imaginário local. O corpo de Conselheiro, sobretudo o crânio de Conselheiro, foi levado ao Rio e devidamente celebrado. A sua cabeça surge como prêmio para essa civilização que se vinga e impõe o progresso. Nas últimas palavras de “Os Sertões” surge um Euclides descontente e irônico diante da civilização: “Pensaram, porém, depois, em guardar a sua cabeça tantas vezes maldita — e, como fora malbaratar o tempo exumando-o de novo, uma faca jeitosamente brandida, naquela mesma atitude, cortou-lha; e a face horrenda, empastada de escaras e de sânie, apareceu ainda uma vez ante aqueles triunfadores… Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multidões em festa, aquele crânio. Que a ciência dissesse a última palavra. Ali estavam, no relevo de circunvoluções expressivas, as linhas essenciais do crime e da loucura…”.

O crânio de Conselheiro, devidamente medido pelo cientista Nina Rodrigues, mestre brasileiro do darwinismo racial, deveria confirmar a loucura, colocar um ponto final nessa história e cumprir uma espécie de função catártica para essas populações que deliravam diante da morte. Eram poucos, como Euclides da Cunha, que se opunham a esse triste espetáculo da morte.

Voltemos ao caso de Lázaro Barbosa, que (repito) nada tinha de Antônio Conselheiro. Também não apresentava qualquer propensão para messias ou pretendia melhorar as condições de vida de seus vizinhos. Mas repito que nenhuma morte deve ser, na minha opinião, celebrada pública e oficialmente. Ainda mais por um presidente que teve a coragem de usar a gíria, “CPF Cancelado”, ao se referir ao assassinato. Essa expressão é geralmente mencionada em reuniões de policiais e grupos de extermínio, quando alguém é assassinado por outro membro ou facção. É também constantemente citada pelo apresentador da Rede TV Sikêra Jr., um bolsonarista de raiz, amigo da família do presidente e para quem o governo federal repassou R$ 120 mil de verbas públicas.

Enfim, todo o meu afeto às famílias enlutadas. Minha profunda contrariedade diante desse que foi um triste espetáculo da morte.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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