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Lilia Schwarcz

Bolsonaro estava nu na frente de seu castelo de cartas

16 de agosto de 2021

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Rituais são feitos para encantar e quando não o fazem, como vimos, têm a capacidade de revelar as falácias de seus organizadores

Causou espécie o desfile militar anunciado pelo presidente e seus ministros militares. Data marcada, cerimonial estabelecido, ele foi realizado em Brasília no dia 10 de agosto pela manhã. No entanto, chegada a hora, depois de muito suspense, o que se assistiu foi tudo menos um evento grandioso. Passou em desfile a própria falência do teatro do poder, tão alardeado por Jair Bolsonaro.

Em meio a uma série de declarações golpistas, e bem na semana em que estava prevista a votação do voto impresso na Câmara, o Ministério da Defesa divulgou a organização desse desfile de blindados que passaria bem em frente ao Palácio do Planalto, para saudar o presidente. De acordo com um comunicado da Marinha, a parada também marcaria a entrega, a Bolsonaro e ao Ministro da Defesa Walter Braga Netto, de um convite para que as autoridades acompanhassem, na segunda-feira seguinte (dia 16 de agosto de 2021), um tradicional exercício da Marinha que ocorre desde o ano de 1988.

No entanto, havia novidade na comemoração considerada “tradicional”, já que no Brasil o tempo curto logo vira tradição. Embora autoridades políticas e militares sejam regularmente chamadas para assistir à “Operação Formosa”, que ocorre na cidade de mesmo nome em Goiás, essa foi, porém, a primeira vez que o convite continha um desfile de blindados militares em Brasília. Segundo a Marinha, ainda, a “Operação Formosa” envolveria neste ano mais de 2.500 militares das três Forças. Aliás, é importante destacar que essa seria a primeira edição em que Exército e Aeronáutica participam do ato ao lado da Marinha. O espetáculo todo era, assim, anunciado a partir da sua magnanimidade, contando com 150 diferentes equipamentos, entre carros de combate, blindados, aeronaves e lançadores de mísseis e foguetes. Tudo feito para impressionar e performar a potência militar, sua virilidade e força de espírito.

Já a apresentação de blindados que se assistiu naquela manhã de terça, — que se deteve bem em frente ao Supremo Tribunal Federal e ao lado do Congresso Nacional — ocorreu em um momento nada inocente da política nacional e não há coincidência que dê conta de explicar o episódio. Não dá conta, inclusive, de explicar por que num ano em que devemos ficar isolados, e evitar aglomerações, os militares resolveram organizar um grande ato presencial. Na verdade, o gigantismo do evento só se explica por causa do contexto: o agravamento de uma crise institucional aberta entre Bolsonaro e o Judiciário, de um lado, e do presidente com a Câmara de outro. Tratava-se, pois, de uma verdadeira quebra de braços institucional, nesse ambiente basicamente masculino que é Brasília.

Não é de hoje que o presidente, além de romper com o decoro parlamentar – com seus discursos cada vez mais radicais, anti-democráticos e chulos –, tem feito uma série de ameaças contra a organização das eleições em 2022. Sem provas, ele tem realizado uma série de acusações graves em relação ao que denomina de “farsa” nos pleitos anteriores. E assim, na base da boataria, defende o voto impresso. Ele até hoje não apresentou qualquer prova, o que já ficou claro nas muitas lives em que anunciou a apresentação de dados, mas nunca os entregou. Tudo sugere a arquitetura de um golpe a longo prazo. Isto é, o chefe do Executivo tem alardeado que, se nada de diferente ocorrer (e o voto não virar auditado), a própria realização das eleições de 2022 estaria ameaçada de ser suspensa. Isso se chama teatro do poder: a tentativa de repetir um enredo, mas que retirada a sua encenação é vazio: não traz argumento algum. É o famoso: muito lastro para pouca vela ou a crença de que uma mentira dita muitas vezes teria o potencial de virar verdade.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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