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Lilia Schwarcz

Fotos do poder funcionam como monumentos

30 de agosto de 2021

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Toda fotografia nasce para mentir e assim criar sua própria realidade, mas a do Taleban traz alguns detalhes que denunciam os andaimes da construção do documento

FOTO: REPRODUÇÃO/AL JAZEERAParte do grupo Taleban em transmissão de TV da Al Jazeera

Passei uma boa semana observando essa foto e as legendas que ela mereceu. Todas elas, sem tirar nem por, referiam-se à tomada de Cabul pelo Taleban. No entanto, a maioria dos comentários simplesmente desconhecia o local ou o contexto em que a foto fora realizada. O documento visual apenas testemunhava a existência do evento e nada mais. Algumas poucas legendas mencionavam que o ato ocorrera no Palácio Presidencial da cidade. Mesmo assim, não se fazia qualquer relação entre a imagem e o que se dizia dela. Tampouco se indagava uma certa estranheza contida na foto. Por que esse lugar tão formal? Por que usar essa imagem como ilustração?

O certo é que o documento visual é todo construído de forma a procurar passar a sensação de que estamos presentes, fazemos parte, fomos transportados para esse momento inaugural. É como se fôssemos conduzidos magicamente para o lugar do acontecimento e atestássemos a sua monumentalização. Esse é o tempo anacrônico dos jornais que procuram passar a falsa impressão da nossa presença – inconteste – no exato minuto da foto. Somos nós “as sentinelas”, na ótima figura de linguagem criada por Ariella Azoulay, para definir uma atitude comum diante desse tipo de registro. Mais do que curiosos, nos transformamos, então, em participantes de um passado presente: um novo arquivo de nós mesmos. Arquivo não como local que preserva, mas como um lugar partilhado e que mantém esse passado incompleto. Um passado recente memorável e que deslumbra, mas seleciona. Lembra e esquece ao mesmo tempo.

Fotos oficiais como essa, na maior parte das vezes, contam a história do poder, a história dos vencedores, e por isso raramente incluem contradições, rupturas ou descontinuidades. É como se o presente fosse, sempre, uma sequência lógica do passado, convertido numa boa justificativa do presente.

Arquivos também precisam ser neutros e agir por si sós, sem que fiquem evidentes as estruturas e engrenagens que os compõem. Por isso, mesmo que sejam recentes, têm que lembrar a eternidade nesse seu movimento de expor, preservar e subjugar qualquer ruído na compreensão.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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