Coluna

Lilia Schwarcz

O sequestro da independência: Pedro Américo e Bolsonaro

13 de setembro de 2021

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Pintura encomendada pelo império português ganhou uma história própria impressionante: virou uma espécie de patrimônio biográfico e visual da independência brasileira

Passada uma semana do fatídico 7 de setembro de 2021, já é possível olhar para o que aconteceu com “alguma distância”. “Alguma”, pois, como a cada dia o presidente fabrica uma novidade, me parece que essa “distância” jamais será segura, tampouco definitiva.

A data do 7 de setembro nunca foi uma unanimidade, nem nos tempos de d. Pedro e, muito menos, agora. Na época em que o então príncipe se encontrava às margens do Ipiranga – em missão nada oficial, pois voltava de uma visita à Marquesa de Santos, e com suas funções intestinais avariadas, o que fazia com que tivesse que se “apear”, como mostram os documentos, nas proximidades do rio –, já não havia consenso sobre qual data homenagear.

Afinal, o evento foi presenciado por poucos e teve quase nada de exemplar. Na verdade, a data mais importante seria 14 de setembro de 1822, quando d. Pedro chega ao Rio de Janeiro, então capital do Brasil, ou 12 de outubro, quando foi coroado. Além do mais, em São Luís do Maranhão, que tinha ligações diretas com Portugal, foi só em 28 de julho de 1823 que a autonomia foi celebrada. O mesmo ocorreu com a Bahia, capital do país até 1763, que até hoje comemora a independência no dia 2 de julho de 1823. E diferente da lenda dourada de uma independência pacífica e sem grandes conflitos, em algumas províncias deram-se batalhas sangrentas, como a de Jenipapo, no Piauí, em que 200 pessoas morreram.

No entanto, aos poucos São Paulo foi sequestrando a independência e ganhando para si um lugar proeminente, que estava longe de ter no contexto original. É possível dizer que São Paulo virou o lugar central dos festejos por conta de uma única pintura. Sim, pois muitas vezes imagens ganham papel fundamental para a construção da memória coletiva e nacional. Estou me referindo à tela de Pedro Américo, que teve a infelicidade de ter sido entregue no fatídico ano de 1888. A obra era o resultado de uma encomenda do conselheiro do Império, Joaquim Inácio Ramalho, que atuava como presidente da Comissão do Monumento do Ipiranga, que visava elevar a memória da monarquia – que passava, aliás, por um momento difícil e delicado. Já Pedro Américo, contratado em 1886, se comprometeu a entregar a obra no máximo em três anos. Partiu, então, para a Europa e teve sua pintura exposta pela primeira vez em Florença, no dia 8 de abril de 1888. Três meses depois, a pintura chegava a São Paulo. No entanto, diante da situação periclitante da realeza, as autoridades paulistas acharam por bem adiar a inauguração – melhor que a tela ficasse guardada no Museu por alguns anos até que os ânimos arrefecessem. Afinal, o momento estava mais para enterro da monarquia do que para a sua exaltação.

A pintura era uma versão tropical da obra de Ernest Meissonier, realizada em homenagem a Napoleão, e claramente sacrificava a geografia (e a realidade), como até mesmo o artista concordou, em nome da pátria. Por exemplo, o lugar em que d. Pedro recebeu as cartas de seu conselheiro José Bonifácio e de sua esposa, d. Maria Leopoldina, avisando que o rompimento era iminente, não estava localizado numa colina elevada, como destaca a tela. Mas num terreno plano que não ajudava, porém, na elevação do herói. Por outro lado, o príncipe não se achava paramentado e muito menos montado num cavalo fogoso. No caso de viagens longas, o melhor era usar uma mula. E foi em cima de uma “besta baia gateada”, com uma “farda comum”, que a pequena comitiva especialmente enviada (inflacionada em seu número de pessoas pelo artista) encontrou d. Pedro. Dessa maneira, nem o primeiro imperador do Brasil, e muito menos a pintura encomendada em sua honra tiveram destino fácil.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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