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Lilia Schwarcz

Quando foi que renunciamos à nossa humanidade?

27 de setembro de 2021

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Traumas perpetrados por Estados autoritários e que levam ao genocídio da população civil pedem por respostas engajadas

Ando pensando muito sobre a responsabilidade que cada um de nós tem diante da história do passado, mas também do presente. A crítica, diretora e curadora Ariela Azulay chamou esse tipo de preocupação e postura de “História Potencial”; são narrativas pelas quais a disciplina, seus profissionais e os cidadãos em geral deixam de se entender como pessoas neutras, uma vez que profundamente implicadas naquilo que descrevem ou analisam. A pergunta de fundo seria: O que fazemos com os documentos? Qual a nossa responsabilidade ética? Qual o nosso papel cidadão na denúncia de situações perversas?

Traumas perpetrados por Estados autoritários e que levam, não raro, ao genocídio da população civil, pedem por respostas engajadas. Na história temos, porém, vários exemplos de como pessoas preferiram se calar diante da figura do ditador, mas também exemplos de como muitas se indignaram diante do mal.

O escritor italiano Primo Levi, ele próprio uma vítima do nazismo, em seu livro “É isto um homem?”, afirmou que não conseguiria viver num mundo que havia criado campos de concentração. De fato, não aguentou e acabou, ao que tudo indica, se suicidando em 1987. Sua obra se converteu, porém, numa espécie de libelo contra a morte moral do indivíduo. Levi, que tinha então apenas 24 anos e era químico de formação, não se calou. Contou em primeira pessoa a rotina que experimentou durante 11 meses em Auschwitz, na Polônia – de fevereiro de 1944 a janeiro de 1945 –; o campo de concentração que mais matou a população civil e inocente dos países do Eixo.

“Imagine-se, agora, um homem privado não apenas dos seres queridos, mas de sua casa, seus hábitos, sua roupa, tudo, enfim, rigorosamente tudo que possuía; ele será um ser vazio, reduzido a puro sofrimento e carência, esquecido de dignidade e discernimento – pois quem perde tudo, muitas vezes também perde a si mesmo; transformado em algo tão miserável, que facilmente se decidirá sobre sua vida e sua morte, sem qualquer sentimento de afinidade humana, na melhor das hipóteses considerando puros critérios de conveniência. Ficará claro, então, o duplo significado da expressão ‘campo de extermínio’, bem como o que desejo expressar quando digo: chegar no fundo.”

Walter Benjamin, também de origem judaica, não poucas vezes se manifestou contra o autoritarismo. Na sua Tese VI afirmou: “Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. (…) O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela (….) O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.”

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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