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Há um ano converso regularmente com 30 jovens com idades entre 16 e 27 anos, quase todos matriculados em instituições públicas de ensino, na educação básica e superior. As impressões que coletei nesse período foram corroboradas por uma série de grupos focais que conduzi com jovens em idades similares em um estado do Nordeste no último mês, e elas sinalizam desafios enormes para a formulação de políticas públicas para esse público. Em suma, além daquela enorme energia que costuma ser associada à juventude, temos muitos jovens que estão desanimados, desalentados, desmotivados para tudo. Comecemos pelo começo.
Primeiro, essas conversas não têm pretensão de representatividade estatística. Meu objetivo tem sido apenas o de efetuar um mergulho quase etnográfico (ou “ netnográfico ”, como já se usa, dado que todas as conversas se deram remotamente, e incluem também análises de postagens nas redes sociais dos interlocutores), com o intuito de conhecer em profundidade e ao longo do tempo as percepções, os sentimentos e os sonhos dos jovens brasileiros, a partir de uma chave educacional, mas não restrita a ela. De qualquer forma, o fato é que sua extrapolação para o conjunto da população jovem é, na melhor das hipóteses, arriscada. Contudo, dado que minhas impressões são similares a outras investigações sobre as opiniões e percepções dos jovens brasileiros nos últimos anos, convém abraçar esse risco, ainda que com cautela.
Segundo, essa convergência das percepções entre os dois diálogos emprestou alguma verossimilhança a eles. Concretamente, identifiquei dois grupos em que se dividem quase igualmente esses jovens. De um lado, há os extremamente enérgicos, motivados, que buscam oportunidades de engajamento e participação nos mais diferentes campos: político, cultural, esportivo, comunitário etc. De outro, há o grupo de “desalentados”, para tomar emprestado o termo utilizado nas pesquisas de emprego, caracterizado por marcada falta de interesse e motivação para qualquer atividade.
No grupo dos “motivados” estão jovens que buscam incansavelmente formas de canalizar sua energia. Alguns preferem a militância política, engajando-se em partidos ou em movimentos sociais que representam suas pautas políticas, sejam elas quais forem (há jovens de “direita” e de “esquerda” nas minhas conversas). Outros buscam oportunidades de gastar sua energia em oportunidades de prática esportiva ou em atividades artísticas e culturais. Há ainda aqueles que não encontram nas searas anteriores o campo adequado para sua atuação, e buscam um engajamento mais direto, com forte envolvimento em agendas de sua comunidade, como cuidados aos idosos, proteção ambiental local, manutenção de hortas comunitárias, etc. Esses são os jovens que costumam aparecer na imprensa, como “empreendedores”, “proativos”, “engajados”, como lideranças, enfim.
Como colocar os jovens no centro de uma ambiciosa reforma de políticas públicas quando tantos deles estão em uma situação de desalento?
O grupo dos desalentados, por sua vez, parece ter sucumbido à falta de oportunidades. Fácil seria apontar o dedo e os acusar de indolência, mas na verdade esses jovens relatam que desistiram depois de se depararem com tantas portas fechadas aos seus sonhos e interesses. Não é que eles perderam a capacidade de sonhar; o ponto é que eles estão sem capacidade de ter vontade.
Importante acautelar os leitores para que não responsabilizem os jovens por seu desalento. Por certo, todos temos diferentes personalidades e passamos por momentos de maior ou menor motivação, mas o fato de os grupos focais terem corroborado percepções coletadas em um diálogo tão profundo e longo com outros jovens parece afastar a chance de que o “desalento” identificado em tantos jovens decorra de sua introversão, timidez, ou alguma condição psicológica, seja ela transitória ou permanente.
Em que medida esse desalento encontrado nessas conversas é ratificado por pesquisas mais representativas da população jovem? A PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua Educação , realizada antes da pandemia de covid-19, por exemplo, já apontava que a “falta de interesse” era o segundo principal motivo para a evasão escolar. Essa investigação mostrou que “das 50 milhões de pessoas de 14 a 29 anos do país, mais de 20% não completaram alguma das etapas da educação básica, seja por terem abandonado a escola, seja por nunca a terem frequentado. Desse total, 71,7% eram pretos ou pardos”. Ainda em 2019, os jovens (14 a 23 anos) representavam o maior grupo entre os desalentados da força de trabalho: 33%. O segundo grupo com maior representação entre os desalentados (17,8%) também é ocupado por jovens e jovens adultos, com idades entre 24 e 33 anos, conforme apontam os economistas Paulo Peruchetti e Silvia Matos .
A pandemia parece ter tornado esse desalento ainda maior. Com efeito, levantamento feito pela pesquisadora Maria Andreia Parente Lameiras, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, mostrou uma retração de 10,6% na força de trabalho de pessoas entre 18 e 24 anos de idade no quarto trimestre de 2020, e uma taxa de desocupação que chegou a 29,8% (cerca de 4,1 milhões de pessoas). No campo da educação, por seu turno, pesquisa do Conselho Nacional da Juventude realizada em 2021 com 68 mil jovens entre 15 e 29 anos mostrou que 43% deles haviam pensado em deixar os estudos (e 6% efetivamente o fizeram).
Dado que as políticas e o gasto público brasileiro tendem a priorizar os já incluídos (na economia formal) e os idosos, deixando muitos jovens de fora, com baixa escolaridade geral e pequeno nível de engajamento econômico, o Banco Mundial já alertava em 2018 que “ para conduzir o país a níveis mais elevados de renda e a uma sociedade mais equitativa, os líderes do Brasil terão de colocar os jovens no centro de uma ambiciosa agenda de reformas de políticas relativas a competências e empregos”.
Mas como faremos isso com tantos jovens em situação de desalento? Teremos de ser muito criativos no desenho e na implementação de políticas públicas para essa população. A simples oferta de políticas e programas tradicionais não parece capaz de os motivar. Aliás, essa tem sido uma das questões dessa conversa mais longa a que me referi. Neste momento, contudo, exceto pela importante iniciativa global das Nações Unidas e chamada “ 1 Milhão de Oportunidades ”, conduzida no Brasil pelo Unicef, não há quase nada sendo desenvolvido no país, seja no nível nacional, seja no âmbito dos estados. Há iniciativas pontuais, mas que ainda não ganharam a devida urgência e priorização governamental ou da sociedade.
É preciso começar agora e seguir os conselhos da União Europeia , integrando os jovens no desenho dessas políticas, pois isso contribui para: (i) aumentar a relevância da política, na medida em que ela responde às reais demandas dos jovens; (ii) fortalece aaccountability (responsividade), posto que os beneficiários podem cobrar diretamente a adequada implementação das políticas que ajudaram a formular; e (iii) fornece um meio para o desenvolvimento de capacidades cívicas entre os jovens, que podem se tornar adultos mais interessados no engajamento cívico e social. Sem isso, condenaremos nossa última geração majoritariamente jovem a uma vida adulta de total dependência do Estado, com direitos violados e um custo social e fiscal que inviabiliza outros investimentos.
João Marcelo Borgesé pesquisador do Centro de Desenvolvimento da Gestão Pública e Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas. Foi diretor de Estratégia Política do Todos Pela Educação (2018-2020), Consultor Sênior e Especialista em Educação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (2011-2018), além de ter ocupado cargos de direção no governo do estado de São Paulo e de gerência no Ministério do Planejamento. Idealizador e cofundador do Movimento Colabora Educação, é mestre em economia política internacional, pela London School of Economics, onde estudou como bolsista Chevening, do governo do Reino Unido.
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