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Narrar é uma forma de fazer reviver os mortos, afirma Saidiya Hartman. Sobretudo no caso de pessoas que foram sistematicamente silenciadas, é preciso auscultar o que as fontes dizem ou apenas deixam escapar. É necessário, portanto, ler por meio dos detalhes, buscar por histórias partidas, borradas e incompletas. Só não vale usar as fontes para inverter o que dizem os documentos e transformá-los em meros pretextos para conclusões prévias.
Tem causado grande polêmica o fato de algumas escravizadas terem acumulado um grande pecúlio durante a vida, a ponto de com ele comprarem sua liberdade e a dos parentes, bem como formarem comércios lucrativos, adquirindo propriedades, joias, e até mesmo escravizados. E aí reside o pomo da discórdia.
Os exemplos das, assim chamadas, “negras minas”, que se dedicaram a várias formas de negócios, e assim se tornaram poderosas em suas cidades, são vários. Também são vários os testamentos que narram suas vontades, seus desejos pós-morte e descrevem suas posses. Aliás, o termo “negra mina” fazia parte da lógica da diáspora nas américas, que desmembrou milhões de famílias africanas e criou outras redes de sociabilidade e de familiaridade por aqui. Nesses Brasis do trabalho e da labuta forçada era preciso muita agência para conquistar a liberdade; realidade difícil de conseguir e ainda mais complicada de manter.
No entanto, se formos ler as fontes com cuidado, fazer o ofício que se pede de um historiador e de uma historiadora, veremos que o dia a dia dessas mulheres pouco ou nada tinha a ver com o das sinhás brancas, com quem foram mais recentemente comparadas. Conseguir ganhar um dinheiro, comprar a própria liberdade era, em si, um ato de resistência, sobretudo no caso do regime da escravidão, pautado na desigualdade e na concentração de mando e poder econômico.
Lembro do caso de Rosa do O’Freire, que vinda da Costa da África desembarcou em Salvador “na tenra idade”. Rosa virou vendedora, atuando no comércio urbano. Com o tempo comprou sua liberdade, assim como alguns escravizados que lhe rendiam diária e que moravam junto com ela, na mesma casa e cômodo. Por meio de seu testamento de 1863, ficamos sabendo que Rosa possuía propriedades e nove cativos. Concedeu, porém, rapidamente a liberdade a duas escravizadas africanas, provenientes da mesma região dela. Nunca se casou ou teve filhos. Mas formou redes de parentesco, proteção e apoio em suas comunidades, estabelecendo linhagens inventadas e criando organizações familiares que incluíam seus escravizados, libertos depois de sua morte.
Se fizermos o ofício que se pede de um historiador, veremos que o dia a dia dessas mulheres pouco ou nada tinha a ver com o das sinhás brancas, com quem foram mais recentemente comparadas
Exemplo famoso é o da africana Emília Patrocínio, que ganhou destaque na cidade do Rio de Janeiro como uma empreendedora no comércio de alimentos. Africana Ocidental, desembarcou escravizada por volta da década de 1820. Em 1839 adquiriu a sua liberdade comprando a própria alforria. Em 1840 se casou com o africano liberto Bernardo José Soares, que negociava verduras no mercado da Candelária, sendo dono de barracas. No início da década de 1850, já viúva, Emília aparece com destaque fazendo doações à Irmandade de Santo Elesbão e Santa Efigênia – que não raro compravam alforrias para seus membros – e depois como “juíza de devoção” de Nossa Senhora dos Remédios. Casando-se novamente em 1851, Emília começou a se destacar como “africana comerciante”; atuava no mercado da Candelária e possuía quitandas, imóveis, joias e escravizados. Entre 1850 e 1870 ela aparece alforriando pelo menos 10 de seus cativos. Mais dela não sabemos.
Há também casos de relações muito ambivalentes, como a de Afra Joaquina que vivia em Salvador e era casada com seu ex-senhor, Sabino Francisco Muniz, de origem africana como ela. Uma vez liberto, Sabino pagou pela liberdade da esposa ao mesmo tempo que se tornou proprietário de outros escravizados. Sabino morreu entre 1870 e 1872, deixando todos os seus bens para a mulher e a liberdade para duas escravizadas de nome Severina e Maria do Carmo, contanto que permanecessem ao lado de Afra até a morte desta. As relações de Afra com suas duas cativas não foram, porém, amistosas, levando até a um processo cível.
Adelina Charuteira vivia no Maranhão oitocentista e era também conhecida como “Boca da Noite”. Ela tinha um pai com posses, que prometeu que a libertaria quando fizesse 17 anos. A promessa não foi cumprida e Adelina permaneceu como escravizada doméstica. Criada na Casa Grande, a moça estudou por conta própria, e aprendeu a ler e a escrever. Anos depois, e junto com o pai, Adelina se dedicou ao comércio de charutos e comprou a própria liberdade. Existem várias lendas ao redor da vida da moça, mas consta que, por conta do conhecimento de Adelina das ruas da cidade de São Luiz, seu trânsito por elas e sua rede de relações fizeram com que aderisse diretamente à luta abolicionista. Adelina antecipava ações da polícia, articulava fugas de escravizados e contribuía para a manutenção dos povoados quilombolas.
A africana nagô Fortunata Maria da Conceição lutou para se libertar de seus vários cativeiros. Em meados de 1848 ela encaminhou uma petição aos juízes e vereadores da cidade do Rio de Janeiro, reclamando que seu marido, o africano liberto mina João José Barbosa, pretendia vender a banca de comércio que os dois ocupavam na Praça do Mercado sem sua autorização, pois os dois estavam “tratando de seu divórcio”. Instalados na banca 108, desde 1842, eles eram vistos na Rua do Sabão em meio a brigas. Ambos se separaram e contaram com suas próprias redes de sociabilidade para reorganizar suas vidas.
Liberata morava em Santa Catarina e lutou para conseguir sua liberdade e a de seus filhos. Ela, que nascera em 1780, era vítima de abuso de seu senhor e de perseguições da sua senhora, que dela tinha ciúmes. Casou-se com o pardo João e este ofereceu dinheiro para comprar sua liberdade. Começaria aí um longo processo penal com o casal defendendo outros projetos de liberdade: o direito de manter sua família e se livrar do jugo de seu senhor e sinhá brancos.
A escravizada Juliana foi uma mulher empreendedora que planejou a compra de sua liberdade e a de seus familiares. Vivendo no litoral da Paraíba oitocentista escravista, Juliana, comprou sua alforria em 1855. Alguns filhos seus já tinham nascido antes e sido batizados como escravizados, enquanto outros viriam ao mundo livres, a partir da Lei do Ventre Livre de 1871. Mas sua mãe Luisa só foi alforriada em 1861, quando já tinha cerca de 50 anos. Aos poucos Juliana conseguiu amealhar recursos para alforriar toda sua família. Com apoio de parentes e outros laços de compadrio, gerações de cativeiros – mães, pais, avós, filhos e primos – acreditaram que a liberdade era também uma estratégia coletiva e familiar.
Outro caso paradoxal era o de Bernarda de Souza, uma ex-escravizada de quem até hoje sabemos pouco. Ela viveu na primeira metade do século 18 no Rio de Janeiro e comprou sua alforria com o dinheiro que conseguiu juntar vendendo produtos vegetais na cidade. Filha de Marta de Sousa, Bernarda, além de comprar sua liberdade, também adquiriu uma escravizada para ajudá-la a aumentar sua renda. Por fim comprou sua mãe e declarou em 1755, quando já era viúva e estava doente, sem herdeiros e temendo morrer, que teria ido ao cartório com medo de que sua mãe fosse leiloada, e que a comprou para “conservá-la em sua companhia, tratando-a com a veneração devida”.
Esse conjunto de histórias mostra que existiam casos de mulheres negras que, quando livres, adquiriam outros escravizados, mas as relações que estabeleciam eram muito mais horizontais do que mostram as ponderações de alguns analistas que parecem tomar a consequência como causa, e tentam transformar em igual situações profundamente distintas. Na maioria dos casos, senhoras negras e seus escravizados viviam juntos, comiam juntos e trabalhavam juntos.
Já as chamadas sinhás brancas nunca conheceram o cativeiro e muitas vezes mal sabiam os nomes e as experiências de suas escravizadas e escravizados. Sinhás brancas também nunca trabalharam e, aliás, desconheciam esse tipo de realidade. Além do mais, sinhás brancas não estabeleciam redes de amizade ou cultuavam seus santos ao lado de suas escravizadas. A religião e a realidade delas eram em tudo diferentes.
Por que será que parece tão urgente estabelecer esse tipo de regime de equivalências? Por que será que é preciso tomar esse tipo de exceção como norma? A maior parte das africanas, negras, libertas e livres viviam no campo, numa jornada de trabalho de 18 horas, de sol a sol. Boa parte delas não tinha direito à educação e à saúde, nessa terra em que esses nunca foram direitos para todas e todos.
Não sei ao certo a resposta para essas minhas indagações. Mas arrisco uma: só pode ser porque a sociedade brasileira ainda tem problemas para lidar com reparações e prefere sempre tentar suavizar um sistema que vigorou no Brasil por quase quatro séculos, virou violência naturalizada e gerou uma sociedade profundamente partida, na qual a desigualdade se transformou em linguagem social, com profundas e enraizadas consequências, ainda presentes nos dias de hoje. Esses são os fantasmas do passado que insistem em assombrar os nossos tempos.
P.S.: Os casos de vida que aparecem nesse texto fazem parte, junto com tantos outros, do livro que publiquei junto com Flávio Gomes e Jaime Lauriano chamado “Enciclopédia negra”.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
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