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Alicia Kowaltowski

O que nos ensina o fungo que faz pão, cerveja e vinho 

20 de outubro de 2021

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A atividade metabólica dos microorganismos que fermentam a comida libera várias substâncias diferentes, dando sabores variados aos alimentos

Uma padaria em Pompéia, congelada no tempo por quase 2000 anos após a erupção do monte Vesúvio no ano 79, apresenta a inscrição “Hic Habitat Felicitas” (Aqui Mora a Felicidade). As interpretações históricas do significado da placa incluem ser um amuleto de sorte, uma alusão à libertinagem, ou afirmação política . Mas eu gosto de pensar que é uma indicação mais direta da importância da atividade daquele espaço: que o ato de fazer pão, grande fonte nutricional para os habitantes locais (foram encontradas mais de 30 padarias em Pompéia) gera felicidade. Essa felicidade é justificada, pois o amido, molécula predominante no pão, deve ser a base de uma alimentação saudável .

Gosto não somente de comer pão, mas também de fazer pão. A atividade se tornou uma constante reconfortante num mundo assolado pela pandemia, e num Brasil assolado pelo anticientificismo, que em seu último capítulo distópico aniquilou todo o já minguado investimento nacional em ciência e tecnologia . Quando já cansamos de explicar que a ciência é o que torna possível a confortável sociedade moderna em que vivemos , que ciência não se faz sem investimento , e que o retorno do investimento em ciência é o maior de qualquer outra área ( chegando a R$ 27 por cada R$ 1 aplicado ), é preciso fazer algo mais próximo de casa para recompor as ideias. No meu caso, uma dessas coisas é fazer pão.

Há algo muito especial sobre o processo de se ver a transformação de farinha e água em uma massa elástica e leve, graças às pequenas bolhas de gás carbônico liberadas pelo fermento biológico, um fungo tecnicamente chamadoSaccharomyces cerevisiae, que nós humanos domesticamos há milênios para produzir produtos fermentados como o pão. O nome contém “cerevisiae” não por acaso: o mesmo fungo é usado para produzir cerveja, pois junto ao gás carbônico, produz álcool. Também é usado para produzir álcool para nossos carros, participa do processo de fermentação de certos queijos e (como se estas não fossem contribuições suficientes para a humanidade!) produz o vinho.

A fermentação de bebidas e alimentos acompanha a humanidade há milênios. Há evidências claras de produção proposital de produtos fermentados desde pelo menos 7.000 a.C., mas dada a dificuldade de se ter resquícios arqueológicos de microorganismos que causam fermentação, é provável que já tenhamos fermentado alimentos bem antes desta data. Num mundo sem refrigeradores, deixar crescer microorganismos que não nos causam doenças nos alimentos evita por competição o crescimento de microorganismos que nos fazem passar mal, conservando os alimentos melhor: iogurte e queijo duram mais que leite, vinho dura mais que uvas frescas. Talvez por essa vantagem tenhamos desenvolvido um gosto por alimentos fermentados, presentes em quase todas as culturas. A atividade metabólica dos microorganismos que fermentam a comida libera várias substâncias diferentes, dando sabores variados, incluindo a produção e glutamato a partir da quebra de proteínas, que é percebida por nós como um sabor delicioso .

Louis Pasteur (1822 –1895) famosamente estudou processos de fermentação, e compreendeu que eram transformações químicas causadas por pequenos organismos vivos, visíveis apenas usando microscópios. Suas descobertas transformaram nosso entendimento do mundo, pois ao demonstrar que processos como fermentação e doenças eram causados por esses pequenos organismos, também demonstrou que poderíamos controlar esses processos através de técnicas de eliminação dos organismos indesejados (processos hoje conhecidos como pasteurização).

Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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