Coluna

Lilia Schwarcz

Para viajar é só começar: reflexões sobre Brasil e Portugal

25 de outubro de 2021

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Ao sair pela primeira vez do país depois de um ano e meio, reparei ainda mais num regime de semelhanças e de diferenças que nos aproximam e nos separam também

Depois de ficar um ano e meio basicamente reclusa em São Paulo, por causa da pandemia da covid, saí pela primeira vez do Brasil. A sensação é estranha e o medo também. Mas coloquei o temor de lado e atendi a um convite do Fólio, um simpático festival literário internacional em Óbidos (Portugal).

Aproveitei então para voltar a viajar no sentido de Fernando Pessoa que poetou que para viajar basta começar. Pois eu “comecei” pela linda e verde região do rio Douro, continuei na cidade do Porto com sua comovente mistura de temporalidades, de lá me dirigi à bela cidade murada de Óbidos, para finalmente passar três dias em Lisboa. A comovente Lisboa de todas as janelas, todas as fachadas, todas as cores.

FOTO: LILIA SCHWARCZ

Rio Douro, em Portugal

Rio Douro, em Portugal

FOTO: LILIA SCHWARCZ

Fachadas de prédios na cidade de Porto, em Portugal

Fachadas de prédios na cidade de Porto, em Portugal

FOTO: LILIA SCHWARCZ

Muro na cidade de Óbidos, localizada no oeste de Portugal

Muro na cidade de Óbidos, localizada no oeste de Portugal

FOTO: LILIA SCHWARCZ

Fachadas de prédios em Lisboa, em Portugal

Fachadas de prédios em Lisboa, em Portugal

Mas o que mais me chamou a atenção foi a “minha condição”: o paradoxo de ser estrangeira numa terra familiar. Fui várias vezes a Portugal e, portanto, parte dessa sensação de deslocamento acidental não é nova. Numa delas, fiquei por lá alguns meses realizando uma pesquisa para o livro “A longa viagem da biblioteca dos reis”, que saiu em 2008 contaminado por tantas histórias da fuga de Dom João e da família real ao Brasil. Na ocasião, pude comprovar como a nossa independência foi comprada, e, aliás, custou muito caro.

Essa é, porém, outra história. A que queria aqui contar aqui foi essa verdadeira peregrinação de 2021, que ficou contaminada pela alegria do retorno à possibilidade de viajar e a certeza da falta que essa atividade me faz. Talvez por isso tenha passado a reparar mais num regime de semelhanças e de diferenças que nos aproximam e nos separam também.

Não é de hoje que se comenta sobre diferenças linguísticas e culturais entre esses dois povos de passado irmanado. Todo brasileiro em passagem pela terra lusitana já se deparou com a confusão que criam as mesmas palavras, mas que, flexionadas por aqui e por lá, ganham sentidos diversos. Também há de ter notado a dificuldade que sentimos para entender discursos e conversas pronunciados com uma entonação ligeira e sem espaço entre as palavras. Já deve ter passado pela experiência de falar em português, mas receber uma resposta em francês e hoje em dia em inglês.

Queria pensar, porém, em outra descontinuidade. Reparei, dessa vez, de que maneira temas que são verdadeiros traumas no Brasil — como escravidão e colonialismo — ainda são tratados de maneira muito silenciosa em Portugal. Como verdadeiros tabus. Nos museus históricos, o assim chamado “descobrimento” é celebrado sem constrangimentos ou maiores críticas, assim como são fartas as imagens de indígenas e nativos africanos felizes com o “encontro”, presentes em jogos de criança como Monopólio, em shows de luz e sombra ou numa pretensamente ingênua caixa de sardinhas – aliás de uma rede que usa o produto como souvenir para turistas e traz o nada sutil subtítulo de a “Conserveira de Portugal”; no sentido de “conservar” como conserva alimentar, mas como “conservar” a história, também.

FOTO: LILIA SCHWARCZ

Caixa de sardinhas da marca Comur

Caixa de sardinhas da marca Comur

Se esses são temas difíceis da nossa agenda, e que tardaram a chegar, não se pode dizer que, hoje em dia, deixem de encontrar – na academia, na mídia, nas escolas, na literatura, no cinema – espaços de debate. Não somos, ao menos, imunes a eles. Ou seja, enquanto no Brasil o clima é de tempestade, por lá tudo lembra a calmaria. Como se o tempo tardasse a chegar. Como se Portugal ainda vivesse na época dos, assim chamados, “grandes descobrimentos”, que fizeram do pequeno reino um grande Império, com fronteiras alargadas que iam de Goa ao “Novo Mundo” das Américas.

Fiquei me perguntando sobre o que explicaria tal descompasso. Resolvi então ler o grande filósofo português, Eduardo Lourenço, que faleceu recentemente e é autor de livros imperdíveis sobre a cultura portuguesa — como “Mitologia da saudade” — e de frases igualmente famosas.

Enquanto no Brasil o clima é de tempestade, por lá tudo lembra a calmaria. Como se o tempo tardasse a chegar. Como se Portugal ainda vivesse na época dos, assim chamados, ‘grandes descobrimentos

É dele a afirmação de que “vemos a nossa cultura como um museu e a do outro como uma coisa viva”. “A nossa de fato parece ter ficado estacionada no grande século 16”, diz ele. Afirma ele ainda: “Os portugueses ainda vivem com um excesso de passado. Sobretudo com essa espécie de fixação histórica, que pode ser de tipo erótico ou outra, temos a nossa fixação sobre o nosso período áureo. Estamos eternamente no século 16, estamos eternamente navegando para a Índia. Porque foi aquilo que fizemos enquanto povo de mais extraordinário, aí deixamos a nossa marca na história do mundo. Toda identidade é uma construção cultural, social e política. Uma construção que só ganha sentido em contexto. Ainda mais quando se fala em identidade nacional. Todavia, chama atenção como Portugal guarda uma vocação voltada para o passado e nós estamos sempre aguardando o futuro (que nunca vem).

Para os brasileiros, na carência de uma história a exaltar, diante da perversidade da escravidão, da construção de uma estrutura enraizadamente desigual – que previa pouco mando e muita obediência servil – fizemos da cultura um exercício de desestruturação; não de acumulação. Um exercício de desconfiança, masoquista, de desencantamento. Poucos povos foram tão quixotescos, nos diz Lourenço, como os portugueses. Pois sonharam sonhos maiores do que eles mesmos. O grande Portugal ficou no passado.

Mas eis que me deparo com um novo Portugal, pulsante, vivo, cosmopolita, que saiu das amarras do seu passado e resolveu ganhar as vias do presente. Conforme explica o mesmo filósofo, “a nossa última aventura quixotesca tirou-nos a venda dos olhos, e a nossa imagem é hoje mais harmoniosa e possível”.

Sei bem que não existe apenas uma nação, um passado ou um presente. Aliás, esse é um conceito romântico criado no final do século 19 para que os cidadãos imaginassem um território culturalmente unificado. Mas a observação da viajante – daquela que vê de fora, mas de dentro também – me devolveu um retrato contrastivo, em tudo muito diferente desse nosso Brasil tão desencantado, tão derrotado pelo obscurantismo, tão magoado por suas 606 mil vidas desperdiçadas pela covid, tão aviltado por um presidente e um governo de desqualificados.

Falar e escrever são exercícios de “fabulação”, nos diz Saidiya Hartman. Por sinal, falar é a nossa primeira relação com o mundo. E, de fato, portugueses e brasileiros “falam”, para além de alguns vocábulos e expressões a nos separar, a mesma língua e assim projetam valores que parecem comuns. A saudade por exemplo.

Ainda assim, a história de Portugal é, de fato, singular. Comenta o filósofo que “os portugueses foram para todo o lado, mas nunca saíram, levaram a casinha com eles”. Já muitos de nós, diante de tanta decepção e desesperança, têm deixado o país com a “casinha” nas costas, o papagaio, os cachorros, a família, os objetos de maior intimidade e os livros.

Eduardo Lourenço escreveu sobre a “mitologia da saudade” e chamou atenção para esse sentimento que nos irmana. Ou irmanava. Os portugueses quando partem levam saudades. Já alguns brasileiros têm sido obrigados a se exilar — como Débora Diniz, Márcia Tiburi e Jean Wyllys – para ficarmos apenas com alguns exemplos significativos. Outros, têm feito planos para deixar a terra e levar consigo tudo que aprenderam por aqui; é a famosa “perda de cérebros”. Outros ainda continuam por aqui porque não podem, não têm condições financeiras ou não querem sair, a despeito de se sentirem, de várias maneiras, desacorçoados.

Enfim, viagens fazem isso conosco; permitem que usemos do tempo em excesso, que passa tão rápido na experiência, mas tão devagar na memória, para refletir sobre “os nossos outros”: aqueles com quem convivemos diariamente.

O importante a anotar é a alegria que experimentei de estar num país de governo progressista e distante do ambiente tóxico que se instalou no Brasil. Um país em ritmo animado, mesmo que ainda tomado pelo fantasma e pela realidade da pandemia. Por lá, o governo incentivou a vacinação e atualmente os portugueses têm mais de 86% de sua população completamente imunizada. Tudo muito distante desse Brasil tropical e cinzento, que assistiu seu governo tentar destruir seu PNI (Plano Nacional de Imunização); um projeto muito consolidado e conhecido internacionalmente. Distante de um presidente que declara com orgulho (orgulho do quê?) não ter se vacinado. Distante de uma nação que viu surgir de novo um fantasma que parecia enterrado: a fome e a pobreza absoluta.

Mesmo assim, saí para voltar. Viajei para desintoxicar.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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