Coluna

Lilia Schwarcz

África, o berço da humanidade sempre esquecido e preterido

06 de dezembro de 2021

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A vigência do tráfico negreiro por mais de quatro séculos criou sociedades marcadas pela desigualdade e por um profundo preconceito contra os africanos e o continente

Dizem que “Narciso acha feio o que não é espelho”. Talvez por isso o continente europeu desde sempre se dedicou a definir quem era o “eu” – os brancos, “civilizados” e principalmente homens – e quem eram os “outros mais outros”: indígenas, orientais e negros, sobretudo africanos.

O “outro do outro” para os europeus ocidentais foi constantemente construído a partir das projeções, por eles mesmos feitas, acerca do Novo Mundo. Nos mapas, os povos que viviam nessa nova parte do planeta – apenas nova para aqueles que denominavam o seu próprio território como velho, Velho Mundo – apareciam sempre como canibais (no caso dos assim chamados “negros da terra”) ou feiticeiros e bárbaros, no caso dos africanos e africanas que entraram, a partir do século 16, compulsoriamente no país. Esses sim eram os verdadeiros deserdados de terra.

No Antigo Testamento, Caim, o filho mais novo de Noé, é aquele que ri da bebedeira do pai e da sua nudez. Por isso recaiu sobre ele uma “maldição”: ele vira negro por castigo, sendo obrigado a vagar pela terra sem pouso ou lugar fixo. Hoje historiadores têm mostrado, porém, como a África foi o berço da humanidade e que todos os personagens da Bíblia eram negros. A interpretação serviu, porém, para preterir e preconceituar os negros, e assim justificar sua escravidão. Os “descendentes de Caim” viraram escravizados do passado e do presente aos olhos de seus “outros”: os brancos.

As pinturas da Antiguidade tiveram também papel fundamental na construção do ideário negativo que ainda hoje paira sobre a África. Por lá estaria localizado o inferno, caracterizado como um local de calor insuportável e habitado por monstros de cor escura. Tudo numa clara referência à Etiópia.

Por isso, quando se recriou a escravidão em bases modernas – pois supunha-se que uma pessoa podia ser transformada em mercadoria e propriedade de outra – uma nova tecnologia da violência, praticada internacionalmente por meio do tráfico altamente lucrativo de almas, essa forma de genocídio consentido por vários países europeus, voltou-se para a África. Se a escravidão já existia, tratava-se agora de inventar uma escravidão negra, roubada de uma população proveniente de várias partes da África, que “precisavam ser domesticadas”. Abolia-se assim a culpa cristã e fazia-se desse continente um território a ser espoliado.

Com os africanos e africanas desembarcaram na América várias técnicas, filosofias, cosmologias, crenças, panejamentos, professores, sábios, autoridades, mas o comércio buscava unificar e subjugar corpos que sempre negaram essa condição e realizaram, a todos os momentos, várias formas de dissidência.u0009Mas o certo é que nada impediu que o tráfico negreiro continuasse vigente de forma ininterrupta por mais de quatro séculos, criando-se sociedades marcadas pela desigualdade e por um profundo preconceito contra a África e os africanos.

Episódio recente lembra uma política premeditada de silenciamento e de penalização, cujo resultado é o endividamento, o empobrecimento deste continente e seu contínuo isolamento no tabuleiro das nações

São muitas as guerras, verdadeiras chacinas, que o mundo ocidental assistiu de arquibancada e deixou passar. Além do mais, não poucas vezes o continente africano foi fatiado pelas potências europeias, como se não passasse de um pedaço desautorizado do planeta. Me concentro em alguns poucos e mais recentes: o crime praticado por Leopoldo 2º da Bélgica. Em 1878, o explorador Henry Stanley fundou entrepostos comerciais no rio Congo, sob ordem do rei belga. Na Conferência de Berlim, em 1885, que dividiu a África entre as potências europeias, Leopoldo 2º recebeu o território como possessão pessoal, chamando-o de Estado Livre do Congo. Formou então um aparato militar (Force Publique) para garantir a conquista econômica da região. Fundado em 1888, esse exército a serviço e benefício do rei, era composto por tropas mercenárias, e conformava uma máquina militar comandada por assassinos. Leopoldo acumulou enorme fortuna pessoal com a exploração de recursos naturais e da escravização da população lá residente. Calcula-se que 10 milhões de pessoas tenham morrido para garantir a fortuna do monarca, em meio a torturas que incluíam cortes de pés e mãos, e toda sorte de maus-tratos. Praticamente ninguém reclamou na época da sina dos congoleses.

Muito antes do Holocausto promovido pelo nazismo, os alemães realizaram seu primeiro genocídio. Mas, diferente das outras atrocidades feitas contra a comunidade judaica, pouco se ouviu falar sobre os crimes cometidos contra o povo na Namíbia. O massacre alemão visou duas nações africanas, os Herero e os Namaqua. Os colonizadores não poupavam esforços para destruí-los e entre as táticas estavam o envenenamento de água potável, o açoitamento de crianças e a realização de experimentos médicos nos prisioneiros. O mundo permaneceu silencioso.

Outro exemplo. Em abril de 1994, o presidente ruandês Juvénal Habyarimana (um hutu) foi morto num atentado contra o avião em que viajava. Logo no dia seguinte, o genocídio começou. Sem apresentar provas, as lideranças hutus acusaram os tutsis pelo assassinato do presidente e conclamaram a população a iniciar a matança. O genocídio de Ruanda, também conhecido como genocídio tutsi, ocorreu de 7 de abril e 15 de julho de 1994 e até hoje não se tem certeza do número de mortos. A escala e a brutalidade do massacre acabaram chocando o mundo, mas nações como Bélgica, França, Estados Unidos e outras simplesmente ignoraram o massacre. A maioria das vítimas foi morta em suas próprias cidades, muitas por seus vizinhos e amigos de aldeia. Estima-se que de 500 mil a 1,1 milhão de ruandenses tenham sido mortos, cerca de 70% da população tutsi, embora historiadores atualmente questionem esses números, afirmando que o total de fatalidades pode ter sido menor, não superando 800 mil pessoas. Não importa o número, o total de mortes em tão curto espaço de tempo é chocante!

Sem dúvida um dos eventos mais dramáticos ocorridos na África foi a Guerra de Biafra, que chocou o mundo com suas imagens de adultos e crianças em estado de extrema subnutrição, ou mortos. O estopim da guerra foi um choque entre dois grupos étnicos da Nigéria. A Nigéria, que se tornou independente em 1960, foi formada pela reunião do povo ibo com o povo hausa. Os ibos eram provenientes da província de Biafra, a leste do país, e formavam a elite econômica, política e cultural da Nigéria. De uma forma geral, eram os que concentravam melhores empregos e salários. Em 1966, num golpe de Estado, um grupo de oficiais do Exército da etnia ibo tomou o poder. Entretanto, em um contragolpe, o novo governo foi derrubado e os ibos passaram a ser caçados e massacrados no país inteiro. As cenas de genocídio inundaram a imprensa ocidental.

De toda maneira, se considerarmos a ação colonial de ingleses, franceses, belgas, holandeses, italianos, americanos ejaponeses ao longo dos séculos 19 e 20, é fácil perceber como todos esses países cometeram ou foram coniventes com massacres sistemáticos praticados contra as populações africanas, movidos por alegações de fundo racista. Pode-se alegar que essas matanças não tiveram o mesmo aparelho burocrático que o nazismo implementaria anos depois. Mas ao mesmo tempo, a ideia da superioridade racial e do extermínio como prática de Estado estava ali configurada.

É essa mesma perspectiva que parece ter orientado as atuais decisões de fechamento das fronteiras da África por conta da nova variante da covid-19. Como os escritores Mia Couto e José Eduardo Agualusa afirmam em uma carta divulgada nas redes sociais, “no dia em que a Europa interditou os voos para Maputo, Moçambique tinha registrado cinco novos casos de infecção, zero internamentos e zero mortes por covid-19. No restante dos países da África Austral a situação era semelhante. Em contrapartida, a maioria dos países europeus enfrentava uma dramática onda de novas infecções”.

Os escritores sublinham que foram os próprios cientistas sul-africanos que detectaram a nova variante e a divulgaram de forma transparente e ética. No entanto, ao invés do reconhecimento científico, o país acabou bloqueado e junto com ele as nações vizinhas. Se esse fosse um caso isolado, ocorrido no final de 2021, depois da descoberta de tantas variantes, ele já chamaria atenção por conta da insensatez. No entanto, pensado historicamente, o episódio lembra uma política premeditada de silenciamento e de penalização, cujo resultado é o endividamento, o empobrecimento deste continente e seu contínuo isolamento no tabuleiro das nações.

Hora de perguntar: o que vem primeiro quando analisamos essas questões (supostamente) tão racionais e isentas? A ciência ou a política; a realidade ou o racismo? Aposto nas segundas opções. Essa é sempre a mesma história contada de outra maneira e com renovadas explicações para justificar o mesmo. Sempre a mesma história de subjugação e discriminação. A reação global de histeria e de alinhamento político diante da nova variante ômicron reforça um aspecto muito marcante em contextos pandêmicos: eles não trazem nada de bom, mas escancaram desigualdades, xenofobias e práticas de racismo. Na política internacional, sob um verniz de racionalidade, sobra muita lógica econômica, mas falta afeto e solidariedade. O lado mais fraco e desassistido sempre leva a pior.

Já faz tempo que, pelo menos em relação à África, perdemos a nossa humanidade.

PS: Estarei de férias durante o restante do mês de dezembro. Em janeiro, devidamente descansada, volto à coluna.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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