Coluna

Filipe Campante

A pandemia dos não-vacinados e a saúde das instituições

21 de julho de 2021

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O que temos agora é uma pandemia decorrente da falta de vacinação. Que tantos continuem morrendo pelo mundo afora é resultado de falhas institucionais diversas que levam à lentidão da imunização

É um grande exagero, para dizer o mínimo, falar em “pandemia controlada” no Brasil, dadas as mais de 1.000 mortes que continuam ocorrendo diariamente (na média móvel). Essa percepção, por distorcida que seja, parece no entanto refletir uma mudança real na natureza da doença. Hoje em dia, com o verdadeiro milagre científico representado pelo desenvolvimento das vacinas, a covid-19 transformou-se em uma doença fundamentalmente evitável, ao menos em sua versão mais grave. Algo como, digamos, uma “gripezinha” .

O que temos agora é, pois, uma pandemia decorrente da falta de vacinação. Que mais de 8.000 pessoas continuem morrendo no mundo a cada dia é o resultado de a expansão da vacinação estar se dando de forma lenta.

O que explica essa lentidão, e a consequente persistência dessa pandemia dos não-vacinados? Em alguma medida, óbvia e tragicamente, trata-se de uma manifestação direta da enorme desigualdade e parca solidariedade entre países. Isso é ilustrado pelo exemplo da África, onde menos de 3% da população recebeu ao menos uma dose de vacina. Na maioria dos países do continente, isso é consequência direta da insuficiência de recursos e infraestrutura para adquirir e administrar as vacinas, somada à indesculpável demora da comunidade internacional em compartilhar as doses adquiridas pelos países mais ricos.

Outros casos, porém, são sintomáticos de disfunções institucionais mais sutis. Tomemos o exemplo norte-americano. O país logrou alcançar uma expansão acelerada na oferta de vacinas, ao ponto em que, no momento, não existe qualquer restrição nessa oferta. Porém, após um crescimento rápido, a proporção da população completamente vacinada parece ter-se estabilizado um pouco abaixo de 50% da população total, ou 60% da população adulta.

Por que esse “teto” aparente, a despeito da abundância de vacinas? Em alguma medida, trata-se ainda de reflexo de desigualdades existentes na sociedade americana. Por exemplo, negros e hispânicos compõem uma proporção menor dentre os vacinados do que na população ou no número de casos. Dificuldades de acesso são agravadas pela ausência de um sistema público de saúde, que por exemplo, em alguns casos, leva a um temor – equivocado porém compreensível, no contexto americano – de que a vacina não seja gratuita .

Filipe Campanteé Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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