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Cristina Pinotti

Do medo à esperança: o papel da sociedade civil

25 de março de 2021

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Dificilmente os três Poderes provocariam tantos descalabros se não houvesse o ‘apagão cívico’. A sensação de impotência impede que as pessoas se lembrem de que só a união pode resolver um problema coletivo

Embora o medo cumpra importante papel na evolução da espécie humana, indicando perigos potenciais à vida, por ser primitivo, ele facilmente extrapola sua função básica. Nesse caso, o medo bloqueia decisões racionais, envenena a esperança e impede a cooperação construtiva visando um futuro melhor, conforme bem descreve Martha Nussbaum em seu livro “The Monarchy of Fear” (2018). O medo nos leva a atitudes egoístas, negligentes e antissociais. Mais do que outras emoções, ele precisa de vigilância e inteligência para não se tornar tóxico. Se já era um grande desafio dominar nossos medos em condições normais, em meio a uma epidemia descontrolada, como a que nos aflige, vira uma tarefa hercúlea. Mas é a saída que nos resta, pois é preciso sobreviver e ajudar quem estiver em situação mais difícil que a nossa.

A primeira providência é identificar os riscos presentes e lidar com eles. Só por ignorância ou má fé alguém pode negar o risco à vida imposto pela covid-19 e suas variantes. Chegamos a 300 mil mortes, e não são descabidas as estimativas de que atingiremos meio milhão dentro de poucos meses. A sincronização dos ciclos da epidemia em quase todas as regiões do país, com tendência de crescimento do contágio e mortes na maioria dos estados, está esgotando rapidamente a capacidade hospitalar. Há escassez de leitos, de suprimentos indispensáveis ao tratamento dos infectados, como oxigênio e demais medicamentos. Pessoas morrem à espera de vagas, e a dinâmica do ciclo indica que a situação tende a piorar no curto prazo. Um pesadelo que parece não ter fim.

A ciência, o bom senso e a experiência internacional preconizam a adoção de uma estratégia nacional de enfrentamento da epidemia, priorizando rapidez na vacinação do maior número de pessoas, e critérios claros — como o índice de contágio e ocupação de leitos de UTIs — para a adoção de lockdowns nas diversas regiões. No entanto, o atual presidente da República prefere não acreditar na gravidade do quadro. O conflito de competências entre o governo federal e os estados, e a politização das disputas, dificultam a solução dos problemas. Vidas deixam de ser salvas e sofre a população que, desassistida e desamparada, não tem a quem recorrer, e fica com medo.

Depois da esperança trazida pelo desenvolvimento de vacinas eficazes, a realidade da imprevidência do governo se impôs e, apesar da capacidade do sistema de saúde, não há vacinas para serem aplicadas com a rapidez necessária. Seguindo o ritmo atual, só no meio de 2022 conseguiremos vacinar toda a população. Enquanto isso, só resta o distanciamento social e a assistência aos mais vulneráveis para a penosa travessia. Nessas circunstâncias o país se transforma no ambiente ideal à evolução de novas cepas do vírus, capazes de despistar as vacinas atuais, tornando-as inócuas ou menos eficazes. Um quadro desalentador.

Mas não é só do Executivo que vêm notícias ruins. Talvez embalados pela visão de que a situação do país “é até confortável” , como diz o líder do governo no Congresso ao comentar a quantidade de vacinados e o número de mortes por milhão de habitantes no Brasil, os parlamentares usam seu tempo para discutir a criação de mais um perdão de dívidas tributárias — mais um inaceitável e injusto Refis (Programa de Recuperação Fiscal). Ou, então, se preocupam em destruir os avanços na identificação e punição de crimes de corrupção, beneficiando os ocupantes dos três Poderes. Trabalham para abrandar a prestação de contas dos partidos, para trazer de volta as coligações, perenizando a hiperfragmentação partidária existente no país. Também pretendem afrouxar a Lei de Improbidade Administrativa, a Lei de Ficha Limpa, entre outros despudores. Defendem seus interesses, como se não houvesse amanhã, e pouco se ocupam com soluções para os problemas da população.

Cristina Pinottié graduada em administração pública pela EAESP-FGV e cursou o doutorado em economia na FEA-USP. É sócia da A.C. Pastore & Associados desde 1993. Antes trabalhou nos departamentos econômicos do BIB-Unibanco, Divesp e MB Associados. Concentra seus trabalhos na análise da macroeconomia brasileira, com ênfase em temas da política monetária, relações do país com a economia internacional, e planos de estabilização. Nos últimos anos tem se dedicado ao estudo da teoria da corrupção e da história da operação Mãos Limpas, na Itália. É autora de diversos artigos e livros. Escreve mensalmente às sextas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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