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Alicia Kowaltowski

Por que terapias anticientíficas podem causar mortes

27 de janeiro de 2021

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Ao adotar estratégias terapêuticas sem evidências, o governo federal atrasa e impede a implementação de medidas eficazes. O suposto ‘tratamento precoce’ exemplifica como ser negacionista pode ser mortal

Fui criticada no passado ao afirmar que homeopatia comprovadamente não funciona, e que não deveria ser reconhecida como especialidade médica pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) nem inclusa no SUS (Sistema Único de Saúde). Os apoiadores da prática sempre fazem comentários do tipo “pra mim funciona” ou “se não faz mal, por que não usar?”. Explico: a homeopatia é uma proposta terapêutica anticientífica. Se baseia em uma ideia do século 18, estapafúrdia pelos parâmetros científicos modernos, de que “semelhante cura semelhante”. Ou seja, prega que se uma cebola promove lacrimejamento, deve ser boa para curar alergias que irritam os olhos.

Mas não se preocupe — o homeopata não vai colocar extrato de cebola pura nos olhos de uma criança alérgica — porque o segundo princípio da homeopatia é que tudo tem que ser super diluído, num processo que acaba distribuindo tanto as moléculas originais que elas não existem mais na solução, persistindo apenas a “memória” delas. Essa suposta “memória” ou “potencialização” das soluções homeopáticas é claramente anticientífica (pra não dizer ridícula). Ainda bem que é: toda água que bebemos foi um dia esgoto e sangue de barata, porque trocamos constantemente nossas moléculas com a natureza que nos cerca, e eu certamente não quero beber água que tenha esse tipo de “memória”!

Já foi extensamente comprovado que, se há algum efeito da homeopatia, é efeito placebo, ou a melhora percebida por algum cuidado ter sido introduzido, sem efeito bioquímico das moléculas envolvidas. Se existe uma melhora por placebo, e a homeopatia consiste em tomar medicamentos sem princípio ativo, por que não usar? Que mal faz? A resposta é simples: todo e qualquer investimento em terapias anticientíficas desvia atenção e recursos de estratégias terapêuticas reais, com verdadeiro efeito de melhoria de saúde.

Nada exemplifica melhor o poder destrutivo de terapias anticientíficas que o suposto “tratamento precoce” contra covid-19. Está cientificamente comprovado que (hidroxi)cloroquina, azitromicina, vitamina D ou ivermectina não possuem nenhum efeito no tratamento da doença, independentemente de serem usados precocemente ou de modo preventivo. No entanto, o presidente Jair Bolsonaro investiu e continua investindo nesse anticientificismo. Em 2020, produziu 18 vezes a quantidade de cloroquina que o país consome em um ano, e levantou ao ar caixas do medicamento para promovê-lo, como se fosse uma tábua de salvação. Brasileiros, se achando protegidos pela mágica dos comprimidos ineficazes, evitaram as medidas de quarentena necessárias, e mantiveram a infecção pelo vírus ativa durante todo o período de pandemia, totalizando até agora mais de um morto em cada mil pessoas.

A atenção dada ao protocolo anticientífico pelo governo é tão grande que incluiu um site para sugestões de prescrições médicas em que eram recomendadas receitas para supostos casos de covid. Testei o site, propositadamente entrando com um histórico que não sugeria doença: ausência de contato ou teste positivo, e apenas fadiga e dor nas costas como sintomas. O site imediatamente recomendou que eu tomasse medicamentos capazes de tratar osteoporose, lombriga, malária e infecções bacterianas, mas não uma infecção viral como covid, que o mesmo site indicava ser meu suposto diagnóstico.

Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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