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Em discurso recente , por ocasião do aniversário de um ano da invasão do Congresso e de tentativa de subversão do resultado eleitoral nos Estados Unidos, o presidente Joe Biden afirmou que a democracia americana estava sob risco e que o país precisa escolher que tipo de nação quer ser. Foram palavras fortes no momento em que assistimos, em diferentes partes do mundo, a ascensão de regimes abertamente antidemocráticos e autoritários. Uma tendência que de modo algum é estranha ao Brasil.
Nos últimos anos, fomos arrastados por uma corrente que emerge das profundezas de uma cultura autoritária e patriarcal, ancorada em cerca de quatro séculos de escravismo, marcada principalmente pela violência e pelo racismo. A onda conservadora e retrógrada veio minando gradativamente a sociabilidade e os canais de diálogo político consolidados ao longo da transição democrática, preparando o terreno para a polarização aguda que presenciamos nas eleições presidenciais de 2018.
A crise política que se desenrola desde os grandes protestos populares de Junho de 2013, passando pelo impeachment, em 2016, da presidenta Dilma Rousseff, e agravada com a chegada ao poder de um presidente que nunca escondeu seu desprezo pela democracia, alcançou o ápice com a pandemia de covid-19. A democracia e os direitos humanos fundamentais não apenas se encontram em risco, mas sob ataque direto no Brasil.
A virada do ano, marcando o início de um novo ciclo do planeta em torno do Sol, inspira uma reflexão sobre como fomos capazes de chegar a um tal patamar de rebaixamento da empatia e da solidariedade em relação ao sofrimento coletivo. Todos os dias somos informados de novos casos de violências, racismo, crimes ambientais, assassinatos de lideranças e ativistas políticos, violação de direitos das populações indígenas e quilombolas, ataques de fake news; infelizmente, a lista poderia seguir adiante.
Quando foi que perdemos a nossa humanidade? Em que momento nos recolhemos aos nossos medos e fraquezas, deixando aberto o caminho para a barbárie e o esculacho com a dor e o sofrimento das pessoas?
Fomos arrastados por uma corrente que emerge das profundezas de uma cultura autoritária e patriarcal, ancorada em séculos de escravismo, marcada principalmente pela violência e pelo racismo
Tenho feito essa pergunta de maneira recorrente nos últimos tempos. E cada vez me convenço mais profundamente que devemos evitar as respostas fáceis, frequentemente embaladas por paixões políticas e partidárias, ainda que legítimas, sobretudo em ano eleitoral. Retomar algum patamar de normalidade democrática, sem dúvida, se tornou um tema fundamental, uma escolha crítica sobre que tipo de nação queremos ser. No entanto, precisaremos estar dispostos, junto com a tarefa gigantesca de reconstrução do país e de suas instituições a partir das ruínas , a encarar o que nos tornamos e qual o papel (e a responsabilidade) de cada um de nós no resgate da nossa humanidade comum.
A banalização da morte e a naturalização do sofrimento de parcelas determinadas da população, aprofundou a indiferença a respeito do destino das vidas não merecedoras de luto: pobres, negros, indígenas, mulheres, pessoas fora do padrão ou não adequadas aos cânones de sexualidade dominantes, notadamente as populações LGBTI+.
Esse reencontro com a nossa humanidade comum não vai ser fácil e vai requerer um esforço educativo amplo e diversificado, com a contemplação de estratégias de ação que deverão ocorrer em inúmeras frentes da vida em sociedade: nas comunidades, nas famílias, no sistema educacional formal, nos meios de comunicação, nas artes e nas políticas públicas. Precisaremos reconhecer que estamos brutalizados e que a nossa capacidade de suportar, aceitar e conviver com o inominável se mostrou muito acima do que nós imaginávamos.
Também teremos, de certo modo, que passar por um processo de verdade e reconciliação, necessário depois do grande trauma coletivo pelo qual passamos. Vamos precisar escapar da tentação comum nos processos históricos brasileiros de deixar para trás e seguir em frente; vamos precisar falar abertamente, com todas as dores que isso provoca, das nossas mágoas privadas e coletivas; romper a espiral sem fim da polarização; reconhecer que podemos caminhar juntos em nossas diferenças e que todos, sem exceção, são capazes de mudar. Para isso, vamos precisar ampliar os espaços de diálogo e reflexão para além dos canais institucionais tradicionais, ainda que não possamos abrir mão deles. As instituições da democracia podem ser aprimoradas com a incorporação de vozes até então ausentes nas posições de poder e visibilidade. A luta das maiorias minorizadas, como a dos negros e das mulheres, mostrou que representatividade importa na construção da igualdade.
Do mesmo modo, os mortos da pandemia precisam ser pranteados e homenageados em um memorial público que celebre a importância da vida e que reconheça os que partiram por consequência direta ou indireta da covid. Foram muitos os que morreram de tristeza, fome, violência. Ao apontar e sublinhar os mais de 600 mil que morreram por consequência direta da pandemia, estaremos também reconhecendo que a escala das perdas e do luto não cabe na contabilidade dos óbitos, ainda que sejam essenciais. Também precisamos de um espaço para a exaltação do direito à saúde e dos profissionais e cientistas que estiveram na linha de frente do combate à pandemia.
Finalmente, o reencontro com a nossa humanidade comum passa inevitavelmente pela justiça. Não existirá paz enquanto os responsáveis diretos por essa tragédia não forem devidamente responsabilizados e punidos de acordo com a lei. Não se trata de revanchismo, como não era no caso dos crimes cometidos pelo Estado durante a ditadura, nunca devidamente responsabilizados. Não podemos repetir com a pandemia o padrão de impunidade ao qual nos habituamos ao longo da história do Brasil, onde crimes contra a humanidade seguem naturalizados e impunes. A covid nos oferece a oportunidade de quebrar esse ciclo para que, então, possamos seguir em frente, construir um outro futuro sem arrastar as pesadas correntes das desigualdades e das injustiças que nos mantém prisioneiros de um passado (e de um presente) de dor.
Atila Roqueé historiador, cientista político e diretor da Fundação Ford no Brasil. Exerceu papel de liderança em diferentes organizações da sociedade civil no Brasil e no exterior. Foi diretor-executivo da ActionAid International nos EUA e do INESC (Instituto de Estudos Socioeconômicos). Antes de assumir a Fundação Ford, em 2017, foi diretor-executivo da Anistia Internacional no Brasil. Faz parte do Conselho Diretor do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas).
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