Coluna

Lilia Schwarcz

2022 é aqui e agora: as efemérides que devem marcar o ano

17 de janeiro de 2022

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Temos errado muito e projetado novamente a ideia de um país voltado para o futuro: o famoso ‘deitado eternamente em berço esplêndido’

Finalmente! Demorou, mas estou entrando em 2022 de cabeça e espírito. Confesso, porém, que foi difícil sair das férias para encarar esse ano tão cheio de datas e de desafios.

2022 será o ano da política de avaliação de cotas. Após 10 anos de aplicação desse sistema de reparações, que visa “desigualar para igualar”, conseguimos muito, mas ainda estamos longe do suficiente. O Brasil é ainda um país marcado por um racismo estrutural e institucional que faz com que a desigualdade fique expressa na educação, na saúde, no mercado de trabalho, na oferta de serviços, nos registros de moradia, nos dados de nascimento e morte. Por isso ele é estrutural e diz respeito à nossa república. Como escreveu a Coalizão Negra por Direitos, não teremos uma democracia enquanto o Brasil for tão racista.

2022 será o ano do centenário da Semana de Arte Moderna, que inaugurou um outro Brasil no cenário cultural, mas que deixou fora da régua e compasso, criados com o tempo por seus organizadores, povos secularmente excluídos como as populações negras, indígenas, ribeirinhas e quilombolas e com deficiências. É certo que o grupo de vanguarda paulistano tratou dos “seus outros” – sim, pois eram projeções dos medos e fantasmas deles próprios – como tema central da pauta modernista. Mas não permitiu que essas populações tomassem parte de maneira direta do certame cultural. Representados sim, partícipes não. Além do mais, é preciso dizer, de uma vez por todas, que a Semana ocorreuem São Paulo, mas não foide São Paulo, exclusivamente. Não só a participação de membros provenientes de outros estados foi fundamental, como outros modernismos existiram antes, durante, depois, e espalhados por todo o Brasil.

2022 será também o ano do bicentenário da independência. Na verdade, um evento se colou ao outro tal qual o pássaro e a sua sombra. A Semana foi realizada justamente para se opor às celebrações ufanistas e patrióticas – na verdade apenas ufanistas – que estavam sendo preparadas para acontecer naquele ano, no mês de setembro: muitos edifícios efêmeros, bandas, cortejos e desfiles. A ideia era, também, desviar a atenção e unir a população diante das greves operárias que estouravam em boa parte do país, durante o governo Epitácio Pessoa. E parece que o cenário que vislumbramos neste ano não será muito distinto, com o governo se preparando para sequestrar a data e transformá-la numa independência fardada, militar. Mais uma vez, terá imenso impacto a nossa visão crítica por sobre esse evento, que significou sim o rompimento formal com a metrópole portuguesa, mas que fez parte de um processo muito maior, que se iniciou muito antes de 1822 e terminou muito depois.

A independência brasileira resultou, além do mais, de um projeto muito conservador que pretendia manter, mais do que mudar. Preservar o sistema escravocrata, a nova proeminência do Sudeste, a propriedade agrária e monocultora. Por isso a monarquia não foi um destino, mas uma solução acordada com as elites, que pretendiam ver em Pedro I um símbolo a unificar e silenciar diferenças e rupturas. Foi assim que viramos uma monarquia cercada por repúblicas de todos os lados; objeto de suspeita nos demais países americanos.

A movimentação em Brasília para as eleições já começou faz tempo. Vamos ter que fazer muita força para não cair na realidade de um Brasil dividido e que não sabe ou pode dialogar

2022 será também o ano do centenário da morte de Lima Barreto, esse autor negro, único para o Brasil, mas que ficou fora da festa modernista paulistana. Ele, que criticava os estrangeirismos, que era contra o projeto de exclusivismos da República, que denunciava as mazelas dos políticos e as discriminações correntes e cotidianas do período do pós-abolição, morreu muito jovem, com 41 anos. Morreu de racismo. Sim, pois racismo mata de forma rápida – com a violência policial – mas também prolongada, com a pessoa sendo envenenada socialmente, diariamente, como foi o caso de Lima.

Em 2022 teremos, ainda, a Copa do Mundo, quando a pátria parece estar “de chuteiras”, conforme a expressão consagrada de Nelson Rodrigues. Adoro assistir a esse evento futebolístico internacional, mas sei também que ele é isca estratégica para governos autoritários que costumam agenciar o evento desportivo, para dissolver dissidências e propagandear a união – a partir dos interesses de poucos e selecionados. Nosso atual ocupante do Palácio do Planalto, que está em campanha eleitoral desde o primeiro dia que pisou por lá, há de se utilizar do espetáculo, para si próprio, e é hora de a sociedade civil brasileira ficar com um olho na emoção que o esporte traz consigo, e outro, bem aberto e atento para a nossa vigilância cidadã.

2022 será, para terminar e começar, o ano de eleições para presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. O pleito só ocorre em outubro, mas a movimentação em Brasília já começou faz tempo. Vamos ter que fazer muita força para não cair nessa realidade de um Brasil dividido e que não sabe ou pode dialogar. Hora de construir um país mais progressista, onde as diferenças serão menores que as nossas proximidades.

Não quero soar ingênua, até porque sei que vamos enfrentar um Brasil muito marcado por discursos de ódio e com os nervos à flor da pele diante do desemprego, da desigualdade, da fome que voltou e com ela trouxe tantas incertezas.

Fazendo um balanço, não consigo ver mérito algum na gestão de Jair Bolsonaro. Esse foi um governo obscurantista, que negou e nega a importância da vacina, que animou a invasão de terras indígenas e o uso ilegal da terra por madeireiras e mineradoras, que criou guerra cultural e ideológica, que abusou de fake news, buscou corroer nossas instituições democráticas e não mostrou qualquer gesto de solidariedade diante daqueles que perderam parentes, conhecidos e amigos queridos por causa da covid e que hoje sofrem com as consequências das chuvas e dos desabamentos.

Talvez a única coisa boa, digamos assim, que tenha ocorrido (e bem claro, nãopor causa do atual presidente, maspor culpa dele) foi que, por conta desse desgoverno, fomos obrigados/ as/es a pensar na nossa democracia, a desafiar nossa cidadania e aumentar nossa vigilância civil. Nunca falamos e pensamos tanto na nossa responsabilidade republicana; faz tempo que nossa solidariedade não era tão demandada, bem como nosso afeto, empatia e responsabilidade.

Tudo porque nunca sonhamos tanto, e tão intensamente, com o retorno de uma democracia plena neste país castigado por quatro anos de gestão Jair Bolsonaro e que virou escárnio internacionalmente.

Voltei a Princeton, depois de quase dois anos, em novembro de 2021. Vinha carregada de dúvidas, muitos medos, mas também saudades de amigos tão queridos que tenho por lá. Fiquei, porém, muito impressionada quando, ao entrar em um restaurante cujo empregado me reconheceu, ele tenha dito à queima-roupa: “—Professor, I am so sorry for your president”.Professora, sinto muito pelo seu presidente. O que me marcou, para valer, foi a estrutura da frase que ressoava outra: “I am so sorry for your loss” – Eu sinto muito por sua perda.

A frase, dita talvez inconscientemente, trocava “morte” por “presidente” e deixava evidente a imagem do Brasil no exterior. Viramos o país da piada pronta, o país que elegeu um presidente retrógrado – a despeito de os EUA também lidarem com a sua própria culpa de ter colocado Donald Trump no poder e ainda amargarem o trumpismo como amargamos o bolsonarismo.

Disse uma amiga minha, portuguesa, Isabel Lucas, que quando o Brasil acerta a mão, todo mundo quer correr para cá e busca entender qual o segredo que temos por aqui guardado. Mas quando erra, logo vira motivo de chacota.

Pois bem, temos errado muito. Temos projetado novamente a ideia de um país voltado para o futuro. O famoso “deitado eternamente em berço esplêndido”. Fico me perguntando, porém, quando é que seremos o país do aqui e do agora? O país cuja gênese só pode estar no presente?

Essas são perguntas incômodas e que, aliás, não queremos responder, pois envolvem a todos nós.

Bom, desculpem o atraso no “feliz ano novo”, pois afinal essa minha coluna só será lida a partir do dia 17 de janeiro. Destaco, porém, que bons votos não têm prazo de validade nem expiram fácil. Que seja o ano da vitória, em que nos sentimos mais brasileiros, nunca menos. Que 2022 seja, também, o ano do aqui e agora, e que possamos celebrar, mas também fazer reparações, que possamos mostrar onde mora a nossa humanidade e como somos capazes de nos sentir afetados pelo sofrimento dos “outros”, que são também “nossos”.

Só assim vamos fazer a conta do ano que passou e entrar em 2022 com Gilberto Gil cantando, “o melhor lugar do mundo (pode ser) aqui, e agora”.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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