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Lilia Schwarcz

Não vai ‘passar em branco’: sobre o racismo que nos habita

28 de março de 2022

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Deixamos na sombra, calma e apaziguadora, as consequências igualmente perversas, para o outro lado da moeda: o que significa ter sido um escravocrata?

Há quem, teimosamente, insista em dizer que racismo é coisa do passado. Que são os “identitarismos” (numa designação já em si preconceituosa) que têm “inventado” esse tipo de “tensão”; como se fosse possível “‘criar’ no papel uma realidade” que se expressa diariamente nos dados da violência policial, nas desistências escolares, nas vítimas da covid, nas taxas de pleno emprego desiguais e assim por diante.

O outro lado dessa espécie de cegueira coletiva, a convivência tão naturalizada e hipócrita com a discriminação, só pode ser explicada a partir da ideia de que a escravidão, vigente no país por quase quatro séculos, acarretou consequências terríveis e duradouras para as pessoas negras no Brasil, mas também para as brancas. Para colonizadores e colonizados.

Esse é um dos argumentos centrais do novo livro de Cida Bento, “O pacto da branquitude”. Há uma ideia central e pretensamente simples que percorre a lógica da obra – mas bem sei como muitas vezes o simples é complexo.

O suposto é que estudamos o longo período da escravidão a partir das consequências — sim, perversas — para as populações negras brasileiras. Tudo isso é verdade, mas deixamos na sombra, calma e apaziguadora, as consequências igualmente perversas para o outro lado da moeda: o que significa ter sido um escravocrata? Quais as decorrências para a nossa sociedade, ainda tão desigual e marcada pela linguagem dos privilégios brancos que se travestem no discurso falso da meritocracia?

Diz Cida Bento, doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo, que o “privilégio” se ancora no passado, mas que a “prerrogativa” é exercida no presente. Ou seja, as diferenças econômicas, políticas, culturais e sociais experimentadas por cidadãos negros e brancos, seriam decorrências imediatas do enraizado sistema escravocrata. São, pois, jogo jogado no passado; na nossa história pregressa. No entanto, a persistência contemporânea de uma estrutura tão desigual e racializada, é entendida não mais como uma realidade de outrora, mas como um direito adquirido no presente e sem cláusula para contestação: uma dádiva, um mérito consuetudinário e vitalício.

Essa forma de pensamento inclui uma engrenagem muito azeitada, cuja mecânica implica apagar qualquer mal-estar, incômodo ou desejo de mudança. E, sendo assim, ocupar cargos de poder, nas mais diferentes instâncias de atuação e de visibilidade, vira uma condição (própria), um monopólio da branquitude.

O motor da sociedade brasileira faz com que pessoas brancas se percebam, pois, como universais e detentoras de todos os direitos. Essa é uma situação existencial que inaugura um padrão social que, de tão enraizado, não precisa nem ao menos ser nomeado, uma vez que seria – basicamente – autoevidente. O mesmo processo de apagamento de contradições faz com que a branquitude não seja marcada racialmente, e nem ao menos racializada. Se comportaria como uma cor e uma sociabilidade “neutras”.

O vento tem, porém, soprado em direção contrária. É preciso que pessoas brancas, como eu, falem não só em etnicidade negra ou indígena. Estudem não apenas os seus “outros”, mas nomeiem a própria etnicidade branca, que há séculos é disposta numa zona de conforto, que implica padrões de comportamento; estruturas de mando e de obediência que se perpetuam do passado, mas continuam a se inscrever no tempo do presente.

Deixar episódios como o de Jeferson Tenório na névoa do mal-entendido, da piada inocente, ou da situação sem maiores consequências, significa tomar parte de um pacto, ‘um pacto da branquitude

Silvio Almeida chama de “racismo estrutural” essa linguagem praticada no Brasil. Como uma dicção interiorizada, ela estrutura nossas relações de tal maneira que se mostra como praticamente “invisível”. Essa é uma parte da sociedade brasileira que também não precisa ser admoestada, e por isso se sente livre e autorizada para admoestar.

No entanto, para não ser acusada de “exagerar”, no país da pretensa “harmonia racial”, quero aqui introduzir um caso recente de racismo e que mostra como a branquitude continua a agir enquanto uma forma privilegiada de ser e estar na sociedade brasileira. Tal disposição social faz com que certos setores se percebam como “mandantes universais” e achem que possuem passaporte para fazer o que quiserem, e como quiserem. Teriam, portanto, salvo-conduto para praticar qualquer forma de racismo e de discriminação. Essas são pessoas que se acham acima da lei. São a lei, e por isso mesmo não precisam estar subordinadas a ela.

Pois bem, o conhecido escritor Jeferson Tenório, é professor de literatura e autor, entre outros, de “O avesso da pele”, que recebeu o prêmio Jabuti de melhor livro de literatura brasileira em 2021. A obra narra, justamente, e entre outros, episódios de racismo sofridos pelos personagens que moram em Porto Alegre, cidade na região sul do país, onde divulga-se a ideia da existência de uma esmagadora maioria branca. Hoje sabemos, todavia, que esse quadro é parte de uma espécie de faxina histórica, que procurou, durantes anos, contar a narrativa de um estado (antes província) sem escravizados – mas cujas fontes e documentos oitocentistas desmentem totalmente.

Mas o episódio que envolveu Jeferson, na vida real, está longe de ficar restrito ao espaço imaginativo da literatura. Ele, que fora convidado para proferir uma palestra sobre literatura numa escola privada e bilíngue de Salvador no dia 25 de março de 2022, não escapou das garras do racismo – que tanto estuda e sobre o qual escreve com tamanha sensibilidade.

Jeferson Tenório foi ameaçado com mensagens anônimas, que diziam que ele teria seu “CPF cancelado” – gíria dos esquadrões da morte para se referir a pessoas por eles assassinadas ou em vias de o serem – ou que teria que “fugir do país para não ser metralhado”. E tudo isso na capital da Bahia, estado conhecido por sua maioria negra e onde as religiões e costumes afro-brasileiros são muito arraigados.

O episódio envolvendo Tenório apenas confirma um movimento mais amplo, que tem mostrado uma sociedade brasileira sempre existente – mas que se achava de alguma maneira escondida. Uma sociedade odiosa, intolerante e nada inclusiva. Uma sociedade que se permite invadir terreiros e ameaçar pessoas negras. Uma sociedade branca que se imagina imune e inimputável. u0009

Você que me lê agora, pode achar que essa é uma situação sem importância, um evento isolado e pouco representativo, e que “quem ladra não morde”. Poderia alegar ainda que nada de mais sério aconteceu, e que esse episódio não passaria de brincadeira sem graça. Gostaria de contra-argumentar, porém, com uma ou duas perguntas incômodas: quem tem o privilégio e o direito de ameaçar dessa maneira? Quem no Brasil secularmente manda e quem “precisa obedecer”?

Deixar essas situações na névoa do mal-entendido, da piada inocente, ou da situação sem maiores consequências, significa tomar parte de um pacto, “um pacto da branquitude”, nos termos de Cida Bento. Por isso, é preciso tornar públicas e denunciar, sempre, situações desse tipo, que se comportam como uma espécie de radiografia das dores e traumas dessa nossa sociedade brasileira – tão violenta, mas, paradoxalmente, ainda caracterizada por nossos governantes como ingênua, pacífica e alegre. Para quem?

Mas dessa vez essa história não vai “passar em branco”. Boletins de ocorrência foram feitos, cópias dos documentos encaminhadas para a polícia da Bahia, e medidas judiciais estão sendo tomadas. A verdade virá à tona e vai vencer o obscurantismo e a intolerância; características essenciais dos racismos.

Esse tipo de discurso de ódio, muito violento nas ameaças que contêm, é simplesmente inaceitável e não pode ser, sob qualquer hipótese, naturalizado ou mesmo relativizado.

Tolerância zero contra essas demonstrações covardes de racismo. Que os culpados não possam se esconder na velhacaria do anonimato, e que a justiça seja feita.

Racismo é crime no Brasil. Toda a minha solidariedade ao escritor e amigo estimado, Jeferson Tenório.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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