Coluna
Alicia Kowaltowski
Nossos melhores cientistas são bolsistas de pós-graduação
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Em 2022 se completam nove anos desde o último reajuste de bolsas de pós-graduação das agências federais brasileiras Capes e CNPq, que pagam por mês R$ 1.500 a estudantes de mestrado e R$ 2.200 a candidatos ao doutorado. Considerando a inflação acumulada no período, isso significa que essas bolsas, cujo valor sempre foi reconhecidamente baixo, hoje possuem poder de compra um terço menor que em 2013, momento em que foram reajustadas pela última vez. Ainda assim, com valor defasado, ter bolsa é um mérito imenso para os poucos estudantes que as conquistam, pois o número destas nos programas de pós-graduação de excelência têm diminuído, fruto de política notadamente anticientífica do governo federal atual.
Quando se fala em bolsas pagas pelo governo, tipicamente se pensa em programas sociais que garantem subsistência para uma população em risco, de preferência enquanto são preparados para melhorar sua qualificação e independência financeira. Esse não é o caso de bolsas de pós-graduação, que são fornecidas a adultos já formados na faculdade e que ingressaram em competitivos programas de mestrado ou doutorado, portanto mais do que qualificados para adentrar o mercado de trabalho e ter independência financeira.
De fato, o contrato das bolsas de pós-graduação é bastante diferente de outros auxílios federais, se assemelha a acordos empregatícios, e envolve o compromisso de se assumir dedicação em tempo integral, de 40 horas semanais. Além disso, contratos de bolsas de pós-graduação possuem cláusulas de exclusividade, que não permitem aos beneficiários trabalhar ou receber proventos de outras atividades. Como resultado, espera-se que jovens com ensino superior completo e selecionados em programas muito competitivos trabalhem em tempo integral (e muitas vezes mais do que 40 horas semanais) recebendo apenas R$ 1.500 ou 2.200 por mês para cobrir todos os seus custos, sem poder exercer atividades complementares nem mesmo fora de horário comercial. Posso assegurar que não é este o tipo de atração que devemos colocar à frente das pessoas que queremos que se tornem os futuros pensadores e inovadores do país.
Muitos pensam que a pós-graduação envolve muito estudo, e uma continuidade de cumprimento de créditos e matérias em salas de aula convencionais, como na escola ou graduação. A pós-graduação certamente envolve aprendizado escolar e muitas horas de leitura, mas a função do pós-graduando ultrapassa em muito o aprendizado de conteúdo consolidado, pois envolve gerar novo aprendizado, descobrindo fatos inéditos sobre nosso universo, ao atuar na fronteira do conhecimento. Espera-se de pós-graduandos, e principalmente doutorandos, não somente aprender, mas também expandir os limites do saber humano.
Colocamos pós-graduandos para procurar novos conhecimentos porque praticar o ato de fazer ciência é a melhor maneira de aprender a fazer ciência. Deste modo, todo doutorando inicia seus estudos com uma pergunta na fronteira do conhecimento, e ao terminar a pós-graduação e sua tese, espera-se que tenha empurrado à frente um pouco mais os limites do saber humano sobre o fascinante universo que habitamos. De fato, os jovens brasileiros que teimam em seguir para a pós-graduação a despeito de valores insuficientes de bolsa para manter sua dignidade e foco nos estudos num Brasil onde o custo de vida está cada vez mais alto não são apenas bolsistas, são nossos melhores cientistas.
Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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