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Assistimos nos últimos dias a mais um “festival” de provocações odiosas da família Bolsonaro, que desferiu ataques à democracia, adulou os militares, namorou com a ditadura e ainda atacou a jornalista Miriam Leitão, que tinha 19 anos e estava grávida quando foi presa e torturada pela ditadura militar.
Um dos filhos de Bolsonaro não apenas duvidou da veracidade do relato da jornalista como ainda fez ironia citando uma cobra, ciente de que na cela de Miriam os militares tinham colocado uma jiboia como forma de amedrontá-la e de fazer pressão psicológica.
Sei que em tudo isso há “método” e “cálculo”. Segundo a (má) escola de Olavo de Carvalho, essas são formas diletas de ganhar a mídia e de fidelizar os seguidores. O suposto de Donald Trump também era (ou ainda é) esse mesmo: melhor estar no centro da mídia e das redes sociais do que ser tragado pelo anonimato.
Há quem diga que é preciso não dar publicidade e repercussão a esse tipo de ato perverso. Já eu, com sinceridade, me nego a “naturalizar” essa sorte de atitude sórdida que procura dividir a população brasileira. Aliás, a verdadeira divisão social e humana, nesse nosso contexto atual, tão marcado por polarização e intolerância, não há de ser entre progressistas ou conservadores, esquerda, centro ou direita; mas entre aqueles que respeitam e se identificam diante do sofrimento alheio e aqueles que desdenham dele, e até buscam desmoralizar e lançar desconfiança sobre seus “inimigos”, para assim agradar sua própria plateia. Do que ri o tirano, senão de sua própria vilania?
A tortura também é objeto de diversos tratados e convenções internacionais. Como se trata de prática contrária à proteção da vida e da integridade da pessoa humana, ela é considerada violação gravíssima aos direitos humanos, que são um princípio geral do Direito Internacional.
Nada disso parece comover, porém, o clã familiar do presidente e seus asseclas militares ou não, que insistem em homenagear torturadores, em chamar o golpe de 64 de “movimento” ou “revolução”, e assim desrespeitar a memória de todos os brasileiros e brasileiras, e não apenas daqueles que perderam seus entes queridos.
O direito à lembrança, à boa memória, faz parte do patrimônio de um país que precisa guardar o registro de seus momentos engrandecedores, mas também daqueles que não nos orgulham como comunidade e nação. E a experiência de ter criado, a partir de 1964, uma verdadeira máquina de matar, bem no coração do Estado brasileiro, em nada nos eleva. Mesmo assim, é preciso lembrar para não repetir…
Até maio de 1967, a ditadura civil militar se utilizou da estrutura de repressão já existente nos estados: os Departamentos de Ordem Política e Social, subordinados às Secretarias de Segurança Pública e os policiais civis lotados nas Delegacias de Furtos e Roubos, famosos pelo uso da violência e pela prática da corrupção. A máquina de repressão começou a tomar nova forma naquele ano, com a criação do CIE (Centro de Informações do Exército) . O CIE atuava tanto na coleta de informações quanto na repressão direta e foi provavelmente a peça mais letal dessa máquina. Tão temidos quanto o CIE eram o Cenimar (Centro de Informações da Marinha) , criado em 1957 e o Cisa (Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica), montado em 1970.
No entanto, a partir de 1969, a máquina de reprimir tocada pelos militares se tornou ainda maior e mais sofisticada com a criação, em São Paulo, da Oban, a “Operação Bandeirante”, um organismo misto formado por oficiais das três Forças e por policiais civis e militares, programada para combinar coleta de informações, interrogatório e operações de combate. A Oban foi, por sua vez, financiada por empresários paulistas e executivos de empresas multinacionais – Ultragás, Ford, Volkswagen, Supergel, Copersucar – que se reuniram com o então ministro Delfim Netto e estabeleceram um sistema fixo de contribuições. Também serviu de modelo para a criação, em 1970, dos Codi (Centros de Operação e Defesa Interna) e DOI (Destacamentos de Operação Interna). Os DOI-Codi estavam sob o comando do ministro de Exército, Orlando Geisel, e conduziram a maior parte das operações de repressão nas cidades.
Mas mesmo antes dessa máquina estar azeitada, a ditadura já violava direitos. Desde 1964 já havia o uso sistemático da tortura como técnica de interrogatório. A partir de 1969, adotou-se a prática de encobrir homicídios de prisioneiros ou tentar usar a técnica de provocar incerteza na oposição acerca do destino do desaparecido. Em 1970, houve a instalação de centros clandestinos que serviram para fazer desaparecer os corpos de opositores mortos sob a guarda do Estado – como a retirada de digitais e de arcadas dentárias, o esquartejamento e a queima de corpos em fogueiras de pneus.
A ditadura civil-militar deixou outra herança pesada: o silêncio sobre o passado, o que faz com que os brasileiros não possam julgar os crimes hediondos praticados pelos torturadores
A prática da tortura da qual Miriam Leitão foi uma das vítimas se instalou nos quartéis ainda no início do governo Castello Branco e se espalhou tal qual um vírus descontrolado graças ao silêncio conivente dos participantes do núcleo do poder – civis e militares. Ao se transformar em política de Estado, entre os anos de 1964 a 1978, a tortura elevou o torturador à condição de “intocável”. Aliás, para a tortura funcionar é preciso que existam juízes que reconheçam como legais processos absurdos, confissões renegadas, laudos periciais mentirosos. Também é preciso encontrar gente disposta a fraudar autópsias, autos de corpo delito e a receber presos marcados pela violência física sem nada dizer ou “notar”.
No Brasil, portanto, a prática da tortura política não foi o resultado de mentes desequilibradas. Também não se comportou como um acidente ou algo excepcional. Essa era mesmo uma estrutura que pretendia acabar com o inimigo antes mesmo que ele adquirisse capacidade de luta ou até de manifestação pública.
O governo dos militares também carregava consigo uma proposta de silêncio no presente e no futuro. Por isso, no contexto da ditadura, utilizou a censura política como ferramenta de desmobilização e de supressão do dissenso. O projeto era, assim, combinar em doses equilibradas a produção e circulação de bens culturais no país com repressão política.
Mas a ditadura civil-militar deixou outra herança pesada: o silêncio sobre o passado, o que faz com que os brasileiros não possam julgar os crimes hediondos praticados pelos torturadores. É isso que faz o clã Bolsonaro se achar protegido e blindado para dizer as sandices que quiser e para mentir a respeito dos tempos da ditadura e golpe de 1964.
Faz parte do papel e do dever do Estado a preservação da memória acerca dessas violações flagrantes no poder, que não podem ser apagadas ou maquiadas pela historiografia oficial – ou oficiosa. Este é um direito inalienável: o direito de conhecer a verdade sobre o passado; tanto das suas glórias como de seus momentos de opressão.
“Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo” é a frase mais marcante do discurso de Ulysses Guimarães, proferido no dia 5 de outubro de 1988, durante a promulgação da Constituição Federal. O trecho contundente continua muito atual neste ano de 2022. Tão atual como quando foi proferido. É preciso ter “ódio e nojo” da ditadura e de quem a elogia.
Segundo o historiador Peter Burke, o que a história melhor faz é deixar um “lembrete”. Mas um lembrete forte do tipo: é hora de lembrar de não esquecer. Dizem que demora, mas o tempo é impiedoso com os líderes velhacos, de notório mau-caráter, que têm prazer em mentir e deturpar o passado. O tribunal da história funciona sempre: enaltece o que merece e joga fora o que não presta. O clã Bolsonaro vai para o lixo da história brasileira.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
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