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Em 11 de junho, num discurso feito nos EUA para grupos evangélicos, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que faz parte de um grupo de pessoas capazes de viver sem oxigênio, mas não sem liberdade. Não vou dar uma interpretação literal à sua afirmação sobre a capacidade de viver sem oxigênio – pessoas obviamente não podem viver sem este gás, que respiramos continuamente. Mas cito que pode haver vida de alguns organismos sem oxigênio; o que não é possível é mantermos o funcionamento dos nossos cérebros sem oxigênio. Pensar requer oxigenar.
Nós, humanos, como os outros animais, usamos oxigênio para nos fornecer energia. Isso acontece dentro das baterias das nossas células, as mitocôndrias , local em que elétrons provenientes de nossa comida ou reservas corporais são transferidos para oxigênio, gerando água, e produzindo energia em forma facilmente utilizável pela célula. Este processo de geração de energia nas células é cerca de dez vezes mais eficiente do que mecanismos que não necessitam de oxigênio, e portanto necessário para organismos complexos como nós animais, que precisam de alto investimento energético para se manter vivos.
O cérebro é particularmente custoso energeticamente: em humanos, embora consista em cerca de 2% do nosso corpo, consome cerca de 20% do oxigênio que usamos, sinal de que usa muita energia. Pensar requer dos neurônios a liberação e resposta a neurotransmissores, além de transporte de íons através de membranas, criando eletricidade, todos processos com alto custo energético. Pensar, refletir, usar o cérebro para coordenar movimentos ou ler este texto gasta energia significativamente, e para isso usamos tanto oxigênio neste órgão.
E não é somente no sentido literal que o cérebro precisa de oxigênio, mas também no metafórico. A variedade de experiências enriquece nossa função cerebral, melhorando o aprendizado, e a preserva no tempo, evitando a perda de função cognitiva associada ao envelhecimento. Limitar nossas experiências e estímulos restringe a nossa capacidade cerebral, nos emburrece, enquanto aerar e exercitar nossos neurônios com novas vivências, desde que sem grandes estresses, os torna mais capazes de exercer sua capacidade plena. Sabemos disto por múltiplos estudos científicos.
Esta prática enriquecedora do pensar, de usar oxigênio literal e metafórico no cérebro, é justamente o que Bolsonaro e sua equipe mais odeiam. Desde o início de seu governo, fazem afirmações inverídicas e críticas às universidades, centros de pesquisa e outras vivendas de pensadores e intelectuais. Apontam pessoas de baixa competência para cargos federais associados à educação superior, ciência e tecnologia, propositadamente. Estrangulam a aquisição de conhecimento através da pesquisa, realizando cortes e mais cortes para o orçamento voltado para ciência e tecnologia, a despeito dos ganhos indubitáveis sociais e econômicos que essa atividade traz, exemplificados claramente durante a pandemia. Nos últimos cortes, foram removidos R$ 1,6 bilhões do Ministério da Educação e estonteantes R$ 2,5 bilhões de verbas para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações , diminuindo seus já minguados recursos a valores que tornam sua função impraticável. Nem mesmo as universidades estaduais escapam da ira do governo federal contra o conhecimento: a recente proposta de corte do ICMS afetará diretamente , e de forma substancial, seus orçamentos e habilidade de formar pensadores.
Alicia Kowaltowskié médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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