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No dia 8 de setembro, cortando a sequência de matérias nacionais, que só falavam de Jair Bolsonaro e de seu ato golpista realizado no dia do bicentenário da Independência, faleceu, aos 96 anos de idade, a mais longeva monarca britânica, Elizabeth 2ª. As notícias oficiais mencionam que ela teria falecido em seu palácio na Escócia, lugar em que passou boa parte de sua infância, casou e viu os filhos crescerem. Era seu lugar de “intimidade”, numa função que denota o oposto: a total falta de privacidade.
Não há notícias de hospitalizações ou de operações médicas mais radicais. O que as manchetes afirmam é que Elizabeth morreu “em paz”, de maneira “confortável”. Além de decisão de cunho íntimo, essa deve ter sido também uma estratégia de Estado. Na vida dos monarcas, há pouco espaço para a mera subjetividade interior. Todas as decisões – da formação ao casamento; do dia a dia à morte – são sempre estratégias de Estado.
Morrer em paz é sinônimo da estabilidade que a realeza e a longa gestão da rainha procuraram passar, durante 70 anos, silenciando sobre conflitos, ambiguidades, recuos e titubeadas. Herdeira de um grande império na África e na Ásia, Elizabeth lega a seu filho mais velho um território menor, e uma Grã-Bretanha dividida diante do Brexit e de uma sucessão de primeiros-ministros, muitos deles desastrosos.
Mas a função da realeza sempre foi simbolizar estabilidade e união e isso Elizabeth 2ª conseguiu personificar até na morte. Como a história do futuro é o território do desconhecido, resta saber qual será a sina do herdeiro direto, o igualmente desastrado príncipe Charles, de 73 anos, que já é rei, mas deve aguardar até a sua coroação. Rituais são momentos minuciosamente arquitetados pela realeza, que sempre usou deles – como ninguém – para projetar poder, força e tradição – a qual, por definição e força de uso, deve permanecer intocada, a despeito de sabermos que tudo ao seu redor se altera.
Charles, que foi visto com expressão pesada e compungida, ternos escuros, fez discurso breve e sem brilho – como é sua personalidade – apenas estabelecendo laços de continuidade e de afeto para com a sua mãe. O filho de Elizabeth terá trabalho para recuperar sua própria imagem depois da morte de sua primeira esposa, Lady Di, Diana, Princesa de Gales. A vida do casal nunca foi de príncipe e princesa, e o herdeiro tem se esforçado para se dedicar a questões ambientais e assim superar sua fama de azarão do casal e da família. Ele, que se prepara para o cargo a vida toda, finalmente há de assumir o lugar que tantas vezes imaginou ocupar.
Essa não será, porém, uma lua de mel entre o príncipe e a nação. A Grã-Bretanha de Charles é muito distinta daquela de sua mãe. Não tem mais panca de heroica, não é mais exemplo de “civilização” – se é que algum dia foi –, nem guarda mais a influência mundial que outrora exercia.
Elizabeth 2ª assumiu seu lugar de rainha em 1952, quando da morte de seu pai, Jorge 6º. Sua ascensão era improvável já que ela era filha do segundo herdeiro na linha de sucessão do trono inglês. Mesmo assim, naquele contexto, e a despeito da hegemonia dos Estados Unidos como principal potência mundial, os britânicos ainda guardavam sua formação, enquanto um vasto e consolidado império colonial permanecia bastante intacto.
A rainha foi monarca de outras 14 nações ao redor do mundo. Os países são ex-colônias britânicas que hoje se tornaram independentes. No entanto, em muitos deles, por terem um sistema de governo dividido entre monarquia e parlamento constitucional, Elizabeth 2ª ainda ocupava o posto de rainha. Além do Reino Unido, Austrália, Canadá e Nova Zelândia estão entre os países em que ela exercia a função de rainha Antígua e Barbuda, Bahamas, Belize, Granada, Jamaica, Nova Zelândia, Papua-Nova Guiné, Ilhas Salomão, Santa Lúcia, São Cristóvão e Névis, Tuvalu e São Vicente e Granadinas.
Diferente, porém, do que anuncia o comunicado oficial da morte da rainha, se ela morreu “em paz”, sua monarquia esteve longe da harmonia – a despeito do que as imagens e os rituais suntuosos e sempre milimetricamente executados pareciam mostrar.
A despeito da guarda do Palácio de Buckingham continuar a marchar com a pontualidade de um relógio, e a rainha cumprir sua agenda com a ordem que é peculiar aos britânicos, já o processo de descolonização pelo qual o Império inglês passou não foi nada fácil. O primeiro país a se libertar foi Gana, em 1957, mas ainda assim a rainha Elizabeth manteve-se soberana no país. Apenas em 1960, depois de uma luta sangrenta, o país virou uma república, autônoma politicamente. Processos semelhantes ocorreram em outros países como Lesoto, que decretou independência em 1966, mas só em 1960 vira uma república. A Grã-Bretanha não pretendia dar liberdade a países como Rodésia do Sul. Entre a independência em 1965 e o reconhecimento em 1980, foram muitos anos de luta. O mesmo se passou com Zâmbia (antiga Rodésia do Norte), que decretou sua liberdade em 1964, mas logrou reconhecer sua autonomia apenas na década de 1980.
Processos de independência também começaram em Uganda (1962), Quênia (1963), Kuwait (1961), Nigéria (1960) e Bahamas (1973), mostrando como o mapa do reino de Elizabeth foi tudo menos pacífico e ordeiro. Tratava-se de uma política imperial consagrada à manutenção de seus domínios e que, só com muita resistência, determinação e insubordinação dos antigos súditos, acabou renunciando a seus territórios conquistados e formalizados por pactos que não respeitavam a soberania dos povos nativos.
A Grã-Bretanha também provocou, com sua política imperial, muita segregação racial e violência. Um caso famoso de genocídio imperial foi o da revolta de Mau Mau. O movimento ocorreu durante o processo de descolonização do Quênia (1952). Organizado pelo grupo intitulado Mau Mau, uma organização clandestina que surgiu entre os Kikuyus, um grupo étnico local, o movimento dissidente pretendia a libertação de seu país do colonizador europeu. O conflito durou mais de 10 anos, com a guerra chegando a 100 mil mortos do lado africano e 320 mil prisioneiros (civis e rebeldes). Vários milhares de prisioneiros foram torturados e cerca de 1.000 executados.
A função da realeza sempre foi simbolizar estabilidade e união e isso Elizabeth conseguiu até na morte. Como a história do futuro é o território do desconhecido, resta saber qual será a sina do herdeiro
Outro exemplo das crueldades praticadas durante o longo reinado da rainha pode ser encontrado na Guerra de Suez, em 1957. O conflito armado envolveu Israel, França e Inglaterra numa disputa com o Egito pelo domínio de seu rico canal. O motivo da guerra teve a ver com o desejo das três nações controlarem um ponto estratégico no Mar Vermelho, que permite ligar Europa à Ásia sem precisar contornar a África.
O Canal de Suez, que começara a ser construído ainda em 1859 e só ficaria pronto em 1869, caracterizou-se por ser o mais longo do mundo – com seus 163 km de extensão. O Egito, com o advento do imperialismo no século 19, tornou-se uma nação subjugada pelos ingleses. Somente no século 20, em 1922, o país deu sinais de libertação estabelecendo um regime monárquico. Esta forma de governo permaneceu até depois da Segunda Guerra Mundial, e apenas em 1954 dá-se o fim definitivo do domínio britânico, numa situação que se arrastava há sete décadas. Após a libertação, o Canal de Suez se tornou a localidade mais cobiçada pelas potências europeias e os Estados Unidos por causa da importância crescentemente valorizada do petróleo na economia mundial. O canal foi nacionalizado em 1956, mesmo ano em que estoura a guerra. O conflito que ocorreu no âmbito da Guerra Fria passou pela interferência dos EUA e da URSS com o canal só estando definitivamente liberado em 1957.
Essas e outras histórias revelam o lado menos “brilhante” e aparatoso da monarquia inglesa. Por sinal, os reis e rainhas sempre primaram por deixar “o trabalho sujo” nas mãos de seus ministros, apesar de serem sempre consultados, e de darem seu real aval, para medidas consideradas emergenciais – incluindo-se as mais violentas.
Não é o caso de passar a limpo todas as encrencas em que a monarquia de Elizabeth esteve metida. Afinal, o que a monarquia sempre fez de melhor foi seu próprio marketing político, buscando retratar-se sempre em situações glamourosas: casamentos, rituais civis e religiosos, desfiles, todos amplamente divulgados.
O filósofo francês Voltaire dizia que os monarcas eram grandes mágicos. Já o historiador inglês, Peter Burke, afirmou que eles foram os criadores do marketing político. E são: basta ver como uma das fontes de receitas mais proveitosas da Grã-Bretanha vem da venda de todo tipo de produto – adesivos, bonecos, balões, lenços, leques, pratos, xícaras, bonequinhas com os braços acenando… – envolvendo a figura de sua rainha.
Elizabeth 2ª acabou tendo muito sucesso na divulgação de sua imagem — como mulher ativa, comprometida, esposa e mãe, rainha de sua nação nos momentos de paz (sobretudo) e de guerra (apenas de vez em quando) — dissimulando as ambiguidades pessoais e públicas que envolveram seu longo reinado. Além do mais, se publicamente era sempre vista esbanjando gentileza para com os súditos, pouco se mencionava sobre a política colonial que fez água durante sua gestão.
Na verdade, ela fez jus ao dístico medieval que afirmava que “morto o rei viva o rei”. Ou seja, antes do anúncio da morte, sempre se mencionava a vida (e a sucessão), uma vez que a realeza – acima de seu povo – jamais morre. Esse era o corpo duplo do rei, na concepção do Medievo, que perdeu seu estatuto formal, mas ganhou a poderosa teoria do senso comum. Rei que é rei, rainha que é rainha, nunca morre. Eles precisam pairar no imaginário nacional, acima dos seus seguidores, como um corpo duplo: o corpo que morre a cada dia, e aquele que não morre jamais.
A rainha Elizabeth 2ª era assim figura central na elevação desse imaginário que simbolizava o próprio vigor do império britânico, visto como uma continuidade ininterrupta, desde tempos imemoriais. No entanto, para manter essa narrativa continuísta, e que assim inventa tradições, foi preciso silenciar (solenemente) sobre processos violentos, rupturas e conflitos viscerais. Esse era um jogo diplomático complexo que envolvia o uso da família real e de seu esplendor, como uma espécie de cartão postal irretocável e que espelha um eterno e plácido sorriso.
Isso é o que tentarão fazer os estadistas que cercam a monarquia inglesa, que agora tem uma tarefa bem mais árdua em suas mãos. Aquela de elevar não uma garota “meiga e ingênua”, que envelheceu junto com a nação, mas um senhor que várias vezes se esquivou da tarefa de bem representar seus súditos.
A despeito da inflação no Reino Unido ter atingido em julho de 2022 a maior marca em 40 anos, e a recém-empossada nova primeira-ministra, a conservadora Liz Truss, assumir seu cargo pressionada pelo aumento do custo de vida, todas as atenções devem se voltar, pelo menos por enquanto, para o tema da sucessão e para o fascínio das cerimônias que se seguirão. Pena que não se façam mais princesas e príncipes como antigamente ou aqueles figurados nos contos de fada que defendiam sua nação em cima de seus cavalos e na base de seus atos de protagonismo. Esses monarcas, se é que assim existiram, envelheceram mal e já não são reconhecidos em seus atos de bravura e abnegação. Os reais são bem mais falíveis e aí é que começa a disputa.
Como no conto de Christian Andersen, “As roupas novas do rei”, dessa vez eles estão todos nus, vão virando motivo de chacota de seu povo, e, ao que tudo indica, não viverão felizes (e em “paz”), para sempre.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
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