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Foi em 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, que Stephan Zweig publicou um livro chamado “Brasil, país do futuro”. O imigrante judeu fugira para o Brasil em junho de 1940, escapando da sanha nazista sobre a França que até o último minuto disse que não se renderia, mas se rendeu. Austríaco de nascimento, Zweig se radicou na cidade de Petrópolis (RJ), mas esteve pela primeira vez no país em 1936, quando passou 12 dias entre as cidades do Rio de Janeiro, Santos e São Paulo.
Depois disso, em novembro de 1940, quando obteve o visto de residência, percorreu durante seis dias a região Nordeste em busca de uma visão mais completa do país. A obra logo se converteu num grande sucesso de vendas, mas não da crítica – que considerou o livro por demais enaltecedor; isso num momento em que o país passava por uma ditadura. De toda maneira, a obra que foi logo vertida para inglês, francês, alemão e sueco, foi considerada uma espécie de um antídoto para uma Europa em guerra, com o “país do futuro” sendo apresentado como um exemplo contra o conflito sangrento e que escancarou o horror dos campos de concentração.
O Brasil aparecia destacado, dessa maneira, a partir de sua natureza exuberante, mas não tanto por sua “civilização” – sujeita a questionamentos e ao suposto evolutivo de que seria preciso aguardar um pouco para garantir o progresso desta nação tropical. Por isso, seu destino era projetado para o futuro – representação que parece acompanhar a história do nosso país até os dias de hoje, como se fosse não uma sina, mas uma espécie de maldição.
O Padre Vieira, ainda em 1665, quando o Brasil era ainda um ponto perdido no incompleto mapa mundial, escreveu o livro “História do futuro”, prevendo que a consumação do reino de Cristo nesse mundo, espiritual e temporalmente, se daria, quem sabe, nesse domínio distante de Portugal. Dizia ele: “nenhuma coisa, senhor, se pode prometer à natureza humana, nem mais conforme o seu maior apetite, nem mais superior a toda sua capacidade, que a notícia dos tempos e sucessos futuros: e isto é o que oferece a Portugal, à Europa e ao mundo, esta nova e nunca ouvida história. As outras histórias contam as coisas passadas; esta promete dizer as que estão por vir”. Tratava-se assim de uma narrativa utópica, onde Vieira buscava reavivar o mito do Quinto Império – um império português e cristão que dominaria o mundo. No futuro e a partir de seu domínio na América.
Seria possível dizer também que é essa noção de adiamento do agora que aparece na seguinte estrofe do hino nacional: “deitado eternamente em berço esplêndido”. Como se os brasileiros aguardassem calmamente pelo “futuro esplêndido” que os espera na outra esquina do tempo e da temporalidade, nessa terra “abençoada”, em que plantando tudo dá; pacífica por índole e determinismo social, e onde até deus seria brasileiro. Todavia, a essas alturas, e em pleno século 21, já tivemos tempo suficiente para notar, e ter certeza, de que tal projeção para o futuro tem algo de distopia, uma vez que ela nunca se realiza: é sempre um projeto, uma ideia, cuja satisfação nunca chega.
Desde 1988 vivemos uma ilusão bem-vinda de que o futuro havia inesperadamente chegado. Durante quase 30 anos, logo após o final da ditadura militar e a promulgação da Constituição cidadã, até parecia que finalmente estávamos “dando certo”, e que as projeções do passado ganhavam vida evidente no tempo do presente.
Pois bem, desde as eleições de 2018 esse quadro se reverteu enormemente. Brasileiros e brasileiras elegeram um presidente misógino, patriarcal, racista, que não tem apreço pela educação, pela cultura e tampouco pela saúde. Tivemos o imenso infortúnio de tê-lo no poder durante a pandemia. Quase 700 mil brasileiros morreram de covid-19, numa gestão não só negacionista como genocida, com o governo abrindo mão de comprar vacinas, quando lhe foram primeiro ofertadas. Além do mais, o presidente não mostrou qualquer afeto ou respeito com seus mortos. Ao contrário, fez bocas, caras e gestos brincando com a morte sem ar de muitos de seus cidadãos e cidadãs.
Os exemplos de nosso infortúnio e de queda nos quesitos básicos de democracia são muitos. Em comum, todos eles descrevem um governo que revelou possuir um projeto de morte, de polarização e de ódio
A fome, que parecia coisa do passado, voltou ao Brasil durante o governo Jair Bolsonaro, e agora afeta 33 milhões de pessoas. O presidente bem que tentou muitas vezes desdizer do fato, alegando que não via ninguém com fome na fila da padaria: provavelmente aquela do Palácio do Planalto, onde, do alto de seu isolamento, não há nada para ver, mesmo.
O país, que havia alcançado um dos objetivos do milênio, que consistia em reduzir pela metade as mortes infantis, retroagiu também nesse quesito, e vergonhosamente. Virou também uma nação muito perigosa e mortal para os líderes que defendem a natureza, e nunca se viu tamanha sanha pelo desmatamento de nossas florestas. De olho nos seus eleitores do agronegócio, o presidente escancarou as portas da Amazônia – e não pretende fechar essa porta. O maior programa de acesso à água no Nordeste foi travado pelo governo Bolsonaro, numa clara demonstração de descaso para com essa região do país, onde ele não conta, por sinal, com muitos eleitores.
A estagnação econômica é evidente, e mal disfarçada por medidas como a PEC kamikaze do governo, que apenas adia para “o futuro” – para depois das eleições – a evidência do rombo orçamentário e do furo no teto de gastos. Estamos falando também de um governo que aparelhou o Estado e colocou mais de 6.000 militares em postos de mando; que está comprometido com apenas uma religião e desdenha das outras; sobretudo aquelas de matriz africana. Um governo que arma civis e compactua com o genocídio das populações negras nas nossas cidades, e desconhece o direito à terra dos povos indígenas.
A educação pública está abandonada e sem verbas; os jornalistas (sobretudo as mulheres) estão sob fortes ameaças e tentativas de intimidação, ocorrendo o mesmo com cientistas e acadêmicos, que viram suas verbas para pesquisa simplesmente sumirem. O sonho de futuro de jovens formados com verbas públicas ruiu nesse país que não se preocupa com as novas gerações.
No exterior, a imagem do país anda ladeira abaixo. Basta lembrar da última viagem do presidente à Europa e aos Estados Unidos. Nas manchetes dos jornais, o objetivo eleitoreiro do governo ficou escancarado, bem como a ironia diante dos propósitos mesquinhos dele e de sua comitiva. Uma imagem simbolizou a representação de nosso dirigente: um cidadão inglês enfrentou a turba bolsonarista, clamando por “respeito” no dia do ritual da morte da rainha.
Os exemplos de nosso infortúnio e de queda nos quesitos básicos de democracia são muitos. Em comum, todos eles descrevem um governo que revelou possuir um projeto de morte, de polarização e de ódio. Aliás, nunca se incentivou tanto, e de maneira tão aparatosa, o porte de armas. Se o Brasil tem, sim, um problema sério de segurança, se continua mantendo níveis epidêmicos de violência, não será armando a população que teremos paz. Mais armas só nos farão ainda mais violentos, intolerantes, divididos – e são pesquisas abalizadas que comprovam tal afirmação.
O certo é que esse não é um governo que pratica a máxima de que a boa política é aquela que privilegia a formação de consensos entre seus cidadãos e cidadãs. Ao contrário, desde o momento em que foi eleito em 2018, já no seu primeiro discurso, Jair Bolsonaro deixou claro que tinha um só deus, um só modelo de família e de raça, e que governaria apenas voltado para seu fiel eleitorado, que o chama de mito, numa clara demonstração de lealdade inconteste.
Pela primeira vez uma data redonda e comemorativa, os 200 anos de Independência, praticamente coincidiu com o período eleitoral. O resultado foi o uso infame e patrimonialista das verbas públicas voltadas para a efeméride como palanque para a reeleição do atual presidente. A efeméride também virou palanque para ataques às instituições democráticas e para o anúncio acintoso de golpes de Estado num futuro próximo. Sem provas, Jair Bolsonaro atacou, como já vinha fazendo desde 2021, o Tribunal Superior Eleitoral, numa tentativa de deslegitimar instituições e de trazer suspeita em relação ao processo eleitoral brasileiro – famoso internacionalmente por sua idoneidade e velocidade de apuração.
E se o presidente não chorou por seus mortos da covid, foi até o funeral da rainha Elizabeth 2ª com o objetivo de buscar apoio internacional. A viagem, que incluía uma visita à ONU, acabou sendo um fiasco, expondo ao mundo o populista digital autoritário e de extrema direita, insensível e oportunista que temos no Brasil.
É hora de mudar esse jogo. Repactuar a democracia de forma a incluir muito mais, e dizer não ao perigo que se encontra estacionado no Palácio do Planalto. O Brasil não aguenta mais quatro anos. Não merece mais quatro anos como esses.
Um segundo mandato de Jair Bolsonaro atentaria, ainda mais, contra o Estado laico, os mecanismos de controle de corrupção pública, que precisam ser transparentes, os direitos de todos – sobretudo de negros e indígenas -, a nossa saúde e educação, a nossa cultura, o meio ambiente e a própria normalidade do nosso processo eleitoral.
A disputa de 2022 não é, pois, exclusivamente partidária; tampouco tem lado: direita ou esquerda. Trata-se de defender a República e a democracia de um Estado de anormalidade em que nos encontramos desde 2019.
Em 2018, muitos eleitores apostaram num candidato antissistema – a despeito dele e de seus filhos estarem na política há anos. Talvez naquele momento a extrema polarização não os tenha deixado distinguir o joio do trigo. Mas dessa vez a pintura está pronta e acabada. Esse é um governo que apostou no caos, na confusão, na falta de bons valores.
Temos uma oportunidade única em outubro de 2022: mostrar que praticamos uma cidadania vigilante e que nosso futuro é agora.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
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