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Escrevo esta minha coluna em torno de um sentimento: o do tempo suspenso, do tempo de espera, ou da famosa expressão “compasso de espera”.
Não sei como vocês, leitora e leitor, têm lidado com essa situação de ter passado pelo primeiro turno, tomado um susto, e agora estar aguardando – ansiosa, nervosa e preocupadamente – o segundo turno das eleições. Ando com a atenção prejudicada, boa parte dos projetos “no aguardo”, a sensação de “futuro incerto”: “pra tudo se acabar”, como canta o Chico Buarque, não na “quarta-feira” de Carnaval, mas no dia 30 de outubro.
Não bastasse a experiência da covid-19, quando vimos o cotidiano escapar, o espaço da morte inundar o dia a dia, e o governo brasileiro nos castigar com sua falta de afeto ou respeito, eis que vivenciamos agora – num intervalo, por certo, mais curto – uma nova sensação de suspensão, de confisco do nosso tempo.
Fiquei pensando no conselho que o poeta romano Horácio dá à sua amiga Leucone, no livro 1º de “Odes”: “carpe diem, quam minimum credula póstero”, cuja tradução é “colha o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã”.
É preciso convir que essas são duas tarefas impossíveis de serem realizadas no contexto em que vivemos, quando, de um lado, gastamos o dia tentando entender as notícias que envolvem as eleições – e tentando separar verdades de fake news – e, de outro, procuramos não sucumbir à barbárie que tem grassado no nosso convívio social, cada vez mais marcado por gestos de ódio e intolerância.
O fato é que, no momento, não confiamos no presente e tampouco no amanhã.
Na sua “Crítica da razão pura”, Kant chama atenção para como espaço e tempo são “formas a priori do nosso conhecimento”, ou seja, condições fundamentais, que nos permitem entender a maneira como vivemos e como nos situamos. O espaço e o tempo conformam, respectivamente, a forma do sentido externo e do sentido interno. Embora não os percebamos a partir deles mesmos, ambos são absolutamente necessários para que o mundo circundante se apresente e faça sentido. Assim, se a noção de espaço é criada pela experiência sensível, o mesmo se passa com a noção de tempo. Se elas são necessárias e pré-condições para que nos situemos, elas são também resultado da nossa própria experiência sobre eles.
Pois meu suposto aqui é que começamos a desconfiar das nossas definições de tempo neste país chamado Brasil. Isso porque não sabemos o que esperar de novembro e como a história se apresentará daqui a pouco.
Pelo menos essa tem sido a minha experiência diante do tempo, ultimamente. Na minha opinião, e não vejo razão para duvidar dela, a vitória do candidato do PT significará um novo recomeço, uma abertura para novos programas sociais e para um Brasil mais democrático. No entanto, se o dia 30 beneficiar a Jair Bolsonaro, com sinceridade, não sei mais do destino da democracia no Brasil.
Começamos a desconfiar das nossas definições de tempo neste país chamado Brasil. Isso porque não sabemos o que esperar de novembro e como a história se apresentará daqui a pouco
Tempo e temporalidade são categorias que se movem a partir da noção de “começos”, conforme explica Edward Said: novos começos. E quer me parecer que, seguindo-se o mesmo critério, um resultado apontará para o futuro e outro para o passado: um passado nostálgico que nunca existiu. Por isso insisto que o tempo tem andado desajeitado por aqui – por mais que se tente dimensionar a passagem das semanas e dos dias, elas parecem não evoluir. Aliás, outubro tem demorado uma eternidade para passar.
Nesse meio tempo, não faltaram aqueles que tentam demonstrar por A mais B, que temos pela frente uma disputa correta, numa outra tentativa de despistar o tempo do passado. Mas não há equivalência entre os dois oponentes. Nessas eleições não existem novatos ou surpresas. Temos um presidente e um ex-presidente conhecidos por seus atos. Um deles, em seus dois mandatos, seguiu à risca os princípios democráticos e a Constituição de 1988; o outro, sempre que pode, elogia a ditadura militar e nos ameaça com golpes. De um lado, temos um ex-presidente que lutou por programas de reforma social nas áreas de educação e cultura; de outro, um dirigente que sistematicamente bloqueia verbas destinadas a essas áreas prioritárias. De um lado, um chefe do Executivo que apesar de respeitar o Estado laico garantido pela Constituição, lutou pela liberdade religiosa; de outro, um presidente que não tem vergonha de professar uma religião só – a sua.
As distinções são muitas mais: Lula erradicou a fome e com Bolsonaro ela retornou; Lula assumiu compromisso contra o desmatamento da Amazônia, Bolsonaro abriu uma fresta na floresta do tamanho de um estado do Espírito Santo; Lula manteve a transparência em seu governo – foi julgado, preso e inocentado –, Bolsonaro estabeleceu a lei de sigilo e com ela impede que a Justiça faça seu caminho e julgue a ele e a seus filhos que instituíram e organizam a contravenção da rachadinha há quase 30 anos. Faz muito tempo!
Mas nada parece assim certo para uma parte do Brasil, que insiste em não ver o que foi esse governo sem dó nem piedade, que retardou a chegada da vacina, que ironizou aqueles que morreram de covid e que é responsável por parte significativa das quase 700 mil mortes no Brasil.
É talvez por isso que o tempo resolveu não andar. Pois a incompreensão é imensa, e será preciso entender o que vai acontecendo no Brasil, e no mundo, quando valores que muitos de nós prezávamos como fundamentais já não parecem valer tanto. Me refiro aos valores da inclusão social, da luta pela igualdade, por políticas sociais justas, pelo aprimoramento da democracia e da República.
Mesmo assim, continuo a acreditar que 30 de outubro de 2022 será um dia histórico: o dia em que o Brasil que se perdeu, acabou por se encontrar.
Quero encontrar vocês, na minha próxima coluna, num outro país, com muitos desafios, imensos, mas que vai retomar com firmeza o prumo da democracia.
Mas (e sempre há um “mas” no meio do caminho), se isso não acontecer, vamos novamente à luta por direitos, e seremos uma oposição democrática, pronta para praticar uma cidadania vigilante. Pois o tempo precisa voltar a andar rotineiramente, com a lógica do hoje e do amanhã e, sobretudo, com a certeza de que, com a nossa boa utopia, o futuro estará logo ali, na outra esquina do tempo.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
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