Coluna

Lilia Schwarcz

Jair Bolsonaro não é conservador. É retrógrado e reacionário

07 de novembro de 2022

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O projeto dessa nova extrema direita é construir um alto grau de engajamento nas redes, capturando a imaginação dos indecisos

No dia 30 de outubro de 2022, o Brasil encerrou um capítulo triste de sua história republicana, e abriu outro, muito mais cheio de esperança num futuro democrático, plural e inclusivo.

Foram quatro anos de um governo retrógrado e reacionário, no sentido mais explícito do conceito: aquele que anda para trás, que se apresenta de trás para frente. Não por acaso o termo vem do latim “retrogradus”, justamente, “que anda para trás”.

Retrógrado é aquele indivíduo que se opõe aos direitos conquistados, também, e por isso pode ser chamado de obsoleto, anacrônico, antigo, regressista, saudosista, tradicionalista, atrasado, caturra. Não são, tampouco, políticos de direita, são de extrema direita, da direita fundamentalista e radical, o que os distingue da direita democrática.

Mas novos retrógrados, da estirpe de Jair Bolsonaro, com certeza não acreditam nessas definições; definindo-se inclusive como democratas por mais que a essência de seus governos seja o desrespeito à Constituição e às instituições democráticas da República.

Na verdade, clamam por um mundo nostálgico que nunca existiu, e se apresentam como “modernos” nas suas pautas em tudo antigas e que lembram o fascismo: são misóginos, racistas, contra as populações tradicionais e o meio ambiente, apoiam o uso ampliado de armas pela população civil, são contra a ciência, o jornalismo e tudo que for boa informação – preferem criar a sua realidade pautada em fake news e mentiras que difundem.

Essa carapaça moderna também se inscreve nas redes digitais. Seu estilo lembra assim o de um novo populismo – o populismo digital. Ou seja, diferente do fenômeno dos anos 1960, dominante na América Latina, esses são líderes, igualmente masculinos e muito machistas, cuja modernidade vêm de um pretenso (e muitas vezes falso) “antissistema”, e do uso das redes no lugar dos jornais e das instâncias mais apuradas de saber.

É por meio da rede que eles cultivam seus seguidores – sim, pois os novos populistas não têm apoiadores, mas antes um rebanho que os segue sem maiores contestações –, bem como criam suas próprias realidades paralelas: um suposto ataque iminente do comunismo, o perigo do inimigo LGBTI+ e suas terríveis “ideologias de gênero”, numa expressão acusatória que parafraseia equivocada e ideologicamente o termo “performance de gênero”, o terraplanismo, o combate à vacina e aos direitos civis.

Sim, pois uma grande bandeira desse pensamento retrógrado é a crítica aos movimentos sociais – de negros, mulheres, pessoas LGBTI+, indígenas, quilombolas, ribeirinhos –, como se os avanços que vêm logrando a partir de luta árdua por direitos, fosse um ataque direto a esses representantes do reacionarismo: em geral homens de meia idade, brancos e de classe média. O pressuposto é que o mundo lhes pertence por direito natural e universal e que esse estaria sendo surrupiado (injustamente) deles.

Para isso apoiam-se, não raro, na religião, como fonte de recursos e de legitimação para esse mundo que consideram “tradicional” — regido por uma tradição que é, por sua vez, por eles inventada e naturalizada.

São também golpistas, mas não na direção dos movimentos dos anos 1960/70. Nada de tanques nas ruas e quartéis previamente sublevados. Seu projeto é vencer por meio das urnas e depois ir comendo as instituições democráticas, diuturnamente. Esse é o modelo da Hungria, da Turquia e de tantos países que praticam o modelo de “golpe da legalidade”. Ou seja, são golpistas, mas com uma carapuça de democratas.

O projeto dessa nova extrema direita é construir um alto grau de engajamento nas redes, capturando a imaginação dos indecisos. Para isso constroem um mundo paralelo, que inventa quase que uma outra realidade, monopolizando as notícias que são lidas por seus grupos fidelizados. Trata-se de uma captura cognitiva, uma espécie de lavagem cerebral que faz com que o seguidor não tenha acesso a nada que questione a sua crença. Não por acaso, fake news e uma série de teorias conspiratórias dominam o ambiente digital. É a famosa “guerra cultural” que produz uma verdadeira indústria da desinformação. A técnica não é nova e foi usada por Donald Trump, nos EUA, Viktor Orbán, na Hungria, Andrzej Duda, na Polônia, Rodrigo Duterte, nas Filipinas, e aqui no Brasil vai sendo empregada por Jair Bolsonaro.

No Brasil, o pensamento e tais políticos retrógrados contam com duas especificidades. A primeira é a estreita correlação com as igrejas evangélicas. Mas não todas: apenas aquelas partidárias do fundamentalismo religioso e de uma visão muito sectária de mundo. A segunda são os laços com o Exército e com o militarismo, como se residisse na corporação o lumiar da ordem e quando não da democracia; o que não faz qualquer sentido se olharmos para a história do Brasil. Afinal, toda vez que militares se meteram na política nacional foi para criar golpes e ditaduras. Nada mais longe da democracia.

Faz parte também do pensamento retrógrado a captura imaginária e real de símbolos e emblemas nacionais – como hinos, bandeiras, dísticos – e conceitos também. Esse é o caso do conceito de democracia, usado de forma totalmente enviesada, e do conceito de liberdade de expressão. Ora, fake news não são liberdade de expressão, mas são usadas como tal.

Essa postura existencial cria uma forma renovada de supremacismo social, parte de mitologias ultrapassadas, como democracia racial e meritocracia; isso num país desigual como o Brasil, em que as condições de partida e de chegada nunca são ou foram iguais.

Deus, pátria e família são lemas do fascismo e do nazismo dos anos 1930 e 1940. De nada adianta incluir o termo liberdade se o objetivo é o oposto

O retrógrado não é, porém, um conservador. Há uma diferença imensa entre eles. O retrógrado é aquele que, como vimos, se “locomove para trás”; não apenas alguém que se opõe a mudanças, mas propõe o retorno de uma série de estruturas já superadas pela sociedade. No entanto, se o reacionário ou retrógrado quer a volta de estruturas, já o conservador quer apenas a manutenção das que existem.

Conservador, no seu sentido mais raso, é aquele que conserva; é partidário da manutenção de uma determinada ordem social e política já estabelecidas. O conservador não quer, por exemplo, que novas leis sejam criadas, visando contemplar novos agentes sociais. Mas também não quer destruir as leis que existem.

Nesse sentido, o pensamento conservador é muito importante numa democracia. Oposto ao pensamento liberal e progressista, com sua adversidade ele tem seu papel no regime democrático, que vive melhor a partir da diferença. Da diferença democrática.

O que também distingue um conservador de um retrógrado é que o primeiro é refratário a mudanças, mas as aceita se forem constitucionais. Está aberto ao diálogo. Já o reacionário é um radical, não aceita a novidade, não busca o bem comum. Seu limite são suas próprias ideias e seu mundo. O limite desse pensamento é o fascismo, que pretende excluir os diferentes transformados não em adversários, mas em inimigos diletos.

É claro que ninguém enxerga a si próprio como retrógrado. Aliás, esses novos dirigentes se definem, com orgulho, como fazendo parte de uma nova direita; nunca como de uma extrema direita radical, reacionária e retrógrada. Por isso, o termo, a despeito de verdadeiro, vira logo categoria de acusação.

Repito que não há problema em ser conservador. Por isso, também, o verdadeiro debate não se dá entre esquerda e direita. O debate, pra valer, ocorre entre um setor progressista apoiado em reformas sociais, e um setor retrógrado, alheio aos interesses nacionais e preocupado com um tempo que já se foi. Disfarçados de nacionalistas, vivem mais dos seus próprios interesses e fazem da política um trampolim fácil para a realização de suas próprias projeções.

Termino, então, voltando ao tema que abriu essa coluna. O Brasil elegeu um novo governo democraticamente. Foi uma vitória apertada, mas não tanto se levarmos em conta que o presidente usou a máquina de Estado para garantir sua reeleição. Aliás, é a primeira vez que um presidente não consegue a reeleição.

Mas Jair Bolsonaro não está acostumado a perder e já se sabia previamente que faria de tudo para sagrar-se vencedor. Se não pelas urnas, ao menos a partir de um golpe fraudulento, mobilizando, insuflando e incendiando os bolsonaristas.

Momentos de transição são assim mesmo – o velho não quer sair e o novo ainda não teve tempo de se projetar. Com seu silêncio birrento, suas falas curtas, o atual chefe do Executivo só mostra, com seus atos e discursos dúbios, o que já sabíamos previamente. Trata-se de um governo antidemocrático, golpista, charlatão, intolerante, fundamentalista, moralista, misógino e racista. E que se diz antissistema, com seu clã acampado no poder há mais de 30 anos.

Deus, pátria e família são lemas do fascismo e do nazismo dos anos 1930 e 1940. De nada adianta incluir o termo liberdade se o objetivo é o oposto. Liberdade não é voltar para trás. Mas sonhar para frente.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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