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Imagens não são jamais inocentes: elas têm o poder de condensar representações e, não raro, uma série de estereótipos produzidos e difundidos por uma determinada sociedade. Por isso é necessário “ler imagens”, da mesma maneira como se lê um documento, atentando para seu caráter disseminador. Isso porque imagens guardam a capacidade de sintetizar percepções, já que, muitas vezes, elas partem de pressupostos partilhados consciente ou inconscientemente pela população.
Por isso, também, em determinados contextos, pode ser difícil “ler” uma imagem produzida em outros tempos, correndo-se o risco de não entender ou perceber símbolos contidos nesses documentos, mais facilmente perceptíveis pelas pessoas, em seu próprio tempo. E assim, pode-se julgar a eficácia de uma imagem, quanto mais ela for capaz de revelar sem explicitamente mostrar; produzir uma mensagem prometendo não o fazer.
Não por acaso, os termos imagem e imaginários têm a mesma raiz. O suposto é que documentos visuais não são apenas produtos de sua época; eles ajudam a produzi-la. Criam e difundem imaginários por demais arraigados numa comunidade de imaginação. Quantas vezes não lembramos de um evento a partir de uma fotografia, uma tela ou um desenho. Quantas vezes, também, nos damos por satisfeitos ao ver uma representação imagética, sem indagar sobre sua autoria, contexto, ou objetivos nela presentes e inscritos na representação. Isso porque acreditamos que elas dizem por si sós. Aliás, é exatamente essa a operação contida na ideia de uma suposta legibilidade. Na verdade, porém, ocorre o oposto, muitas vezes elas guardam os segredos de sua construção.
Documentos visuais também carregam consigo uma evidente dimensão emocional. Eles mexem com nossas subjetividades, com nossas contradições íntimas, com nossas concepções – justamente aquelas que julgamos erroneamente apenas individuais. Pois imagens prosperam a partir de pressupostos comuns, ciosamente mantidos – daqueles que evitam mostrar o segredo de sua receita.
Imagens são usadas para consagrar, mas também para detratar. Se a história da arte sempre foi muito colonial, masculina e ocidental, e se apresentou durante muito tempo como um monopólio das elites brancas, ajudando a confirmar o poder que delas emanam, já no que se refere às populações negras o uso desses documentos visuais – produzidos sobretudo por artistas europeus – foi em geral oposto. Muitas vezes, tais representações servem apenas para aprisioná-los como “outros”. Outros dos outros. Não como diferentes, mas desiguais.
Não por coincidência, nossos arquivos são ainda muito coloniais, cheios de silêncios sobre vidas que pretendem apagar, borrar e esquecer; ou apresentá-las exclusivamente a partir do signo da “falta”: falta de hábitos, falta de asseio, falta de presença.
Se a história da arte sempre foi muito colonial, masculina e ocidental, e se apresentou durante muito tempo como um monopólio das elites brancas, ajudando a confirmar o poder que delas emanam, já no que se refere às populações negras o uso desses documentos visuais – produzidos sobretudo por artistas europeus – foi em geral oposto.
O Brasil foi o país que mais recebeu mão de obra escravizada. Das 10 milhões de pessoas que chegaram com vida às Américas, 4,9 milhões desembarcaram em várias partes do território nacional. E a escravidão sempre chamou a atenção dos viajantes europeus, que ajudaram a naturalizá-la nesse país da labuta forçada. Lá estavam eles, quase desnudos, trabalhando, e perdidos na paisagem, como se a ela pertencessem. Na representação colonial não havia espaço para a agência, ativismo ou revolta desses personagens que nelas mais se parecem como figurantes; jamais protagonistas. Surgem retratados tão somente como trabalhadores braçais, imiscuídos na natureza.
Com a abertura dos portos no século 19, esse tipo de percepção se multiplicou com a chegada de muitos estrangeiros, curiosos diante do espetáculo na “natureza e de seus naturais”. Com o crescimento urbano, escravizados e escravizadas apareciam também contracenando no espaço das ruas das cidades, que eram sobretudo negras. Eram eles que estavam por toda parte: carregando pesos, alimentando os demais, trabalhando em comércios, levando recados, consertando calçados e outros instrumentos, carregando cargas pesadas, cuidando das crianças… Nas imagens não havia, porém, espaço para a nomeação ou para a individualidade.
Mas foi com a chegada da fotografia ao país, em meados do século 19, que as imagens da escravidão se multiplicaram. Com efeito, o Brasil foi o último país a abolir a escravidão, mas um dos primeiros a introduzir a técnica da fotografia. Com isso, multiplicaram-se perversamente as imagens de escravizados, por vezes tomados intencionalmente, como modelos, por vezes flagrados nas ruas, nas plantações ou no interior das casas; sempre a serviço do “outro”.
Mais no final do Oitocentos e com a entrada das teorias do darwinismo racial – que estabeleciam diferenças ontológicas entre as raças e repunham a diferença em termos não históricos e sociais, mas biológicos – a fotografia ganhou mais nova função: documentar o que era considerado “degeneração” e prova de inferioridade.
Exatamente no contexto em que a abolição ia virando um tema supranacional, em que a pressão sobre o Brasil – último país a abolir a escravidão mercantil – ia se tornando imensa, ganham força modelos que repunham a desigualdade a partir de perspectivas pretensamente científicas. Nas faculdades de medicina, sobretudo da Bahia, ganharam importância os assim chamados “estudos de degeneração de raças mistas”, e das teorias dos estigmas presentes em fenômenos sociais como a loucura e a criminalidade.
Esses eram problemas sociais produzidos pela violência da escravidão e do racismo. No entanto, o suposto era de que a biologia e a mistura de raças é que explicavam tal tipo de “desequilíbrio social”. E as fotografias seriam usadas para justamente comprovar o que a ciência explicava. Nelas, aparecem pessoas negras em manicômios, nas prisões, com problemas mentais, com outras opções de gênero, sempre a documentar a “degeneração” e as “taras hereditárias”.
Essas são imagens, portanto, perversas, que se não fazem mais parte da ciência dos dias de hoje, ganharam espaço em outro tipo de teoria, igualmente poderosa: a teoria do senso comum. Nada mais normalizador do que a poderosa teoria do senso comum que faz todos e todas se sentirem especialistas; que difunde e estabelece visões destituídas de base científica, entrona o que são meras opiniões infundadas como se fossem teorias arraigadas. O senso comum abafa o espírito crítico. Na verdade, seu objetivo é apenas confirmar preconceitos e estereótipos.
Pois bem, já faz bem mais de um século que abolimos a escravidão, mas ainda nos vemos repetindo esses mesmos estereótipos, ou consumindo imagens repletas deles, sem nos darmos conta da violência nelas presente. Nessas imagens, arraigadas pelo senso comum, as pessoas negras aparecem, muitas vezes – direta ou alusivamente – como violentas, perigosas, incontroláveis. Essas são imagens do passado e do presente. Do nosso presente do passado.
Chamou-me atenção, nesse sentido, uma notícia que apareceu no jornal O Estado de S. Paulo. Ela tratava da história de um jovem adolescente , filho de um PM, cultor do nazismo de Adolf Hitler, que roubou a arma de seu pai e matou quatro estudantes, ferindo vários outros. A matéria em si já é muito desalentadora. O que faz com que um jovem morador do estado do Espírito Santo encontre inspiração num regime responsável pelo genocídio de milhões de pessoas, entre judeus, ciganos, gays, comunistas, pela mera razão de serem diferentes do padrão estabelecido pelo nazismo? Ou melhor, pessoas que são construídas por essas sociedades como diferentes, com suas marcas sociais sendo transformadas em diferença e assim contestadas. Triste época em que a juventude tem como ideal um regime que representa a falta de utopia: é a expressão do mal.
Mas se a notícia em si já é revoltante, o que me chamou atenção, igualmente, foi a imagem que “ilustrava” a matéria. Nela, uma mão e um braço negros empunham um revólver engatilhado. Na foto, a pessoa que imaginamos, ao conferir a representação visual, não é um garoto adolescente branco, mas um homem feito e, repito, negro.
Print do tweet do Estadão em que aparece foto de homem negro segurando arma. Foto posteriormente foi trocada na reportagem do jornal
Sabemos que o Instituto dos Direitos da Criança e do Adolescente, não permite – e com toda a razão – a divulgação das imagens de jovens nesse tipo de situação. Tampouco revelam suas identidades. Portanto, minha pergunta não é essa. Minha questão tem a ver com uma inversão pautada no perverso senso comum: por que colocar uma mão negra e não branca? Na verdade, a representação violenta apenas confirma os pressupostos que os leitores trazem consigo.
Não há, portanto, coincidência ou falta de intenção – consciente ou não. O que existe é o uso (e abuso) de uma política de estereótipos: uma estereotipia. Ou seja, a utilização de imaginários coletivos como forma de convencimento. Nessas representações visuais, pessoas negras são sempre suspeitas e por isso alvos prediletos da polícia. É assim que criminalizamos previamente pessoas negras e tendemos a desculpar pessoas brancas.
Esses são arquivos coloniais que tendem a apagar atos de pessoas negras que apresentam todo tipo de protagonismo e nas mais diversas áreas, e apenas a vinculá-las a situações de criminalidade e de liminaridade.
Como explica Toni Morrison, as palavras e as imagens não são a representação da violência, são a própria violência.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
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