Coluna

Lilia Schwarcz

Sobre novos começos: o que há de especial nessa virada de ano

19 de dezembro de 2022

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No Brasil, 2023 encontra um espaço de festa muito carregado de sentidos e significados

O crítico palestino Edward Said, morto precocemente em 2003, escreveu um belíssimo livro que intitulou de “Begginnigs” — ou começos, em português. Nele, o intelectual tratou de discorrer sobre a importância dos “novos começos” e de como, muitas vezes, é já em um primeiro momento que se delineia uma espécie de percurso e sentido para uma trajetória de mais longo curso.

Um “começo”, sobretudo quando inserido no pensamento moderno, diz ele, é seu próprio método. O intelectual distingue o termo “começo” de outro que parece ser um sinônimo, mas não é: “origem”. Segundo Said, essa segunda palavra indicaria um sentido divino, mítico e privilegiado, oposto ao de “começos”, ou “inícios”, que seriam mais seculares, e humanamente produzidos. Um começo, explica o autor, é uma produção da diferença entre tradições pré-existentes. E assim, ao mesmo tempo que autoriza o que vem a frente, impõe evidentes limites.

Pois bem. De tão fundamentais, nos habituamos a ritualizar os “começos”. Quando chegamos a um aniversário, costumamos projetar o futuro e tendemos a ficar pensativos acerca do porvir. A chegada de um novo ano carrega sempre consigo prognósticos, desejos, bem como metas ainda não alcançadas. O mesmo ocorre com mudanças de estação – não tão delimitadas no Brasil, em outros locais elas costumam dividir e marcar a passagem do tempo, a hora de alterar o guarda-roupa, o momento de refletir sobre novos ciclos.

Interessante pensar como o final de um ano é antes o anúncio de um novo ano. O tempo corre rápido e costuma ser mais fácil planejar o futuro do que ficar atado ao passado. É por isso que nessas horas passamos a fechar compromissos não terminados, encerrar tarefas que não entregamos, como se a passagem do ano anunciasse um novo porvir. Um começar de novo.

Mas essa virada de ano será, na minha opinião, especial. Não é daquelas que anunciam um novo século ou milênio; daqueles que são resultado exclusivo da ação monótona do tempo. Nada se parece, por exemplo, com o começo do século 20, quando a população temeu a passagem do cometa Biela, como um bom, mas também um mal presságio. No nosso caso, estamos diante de um outro tipo de virada. Um novo governo será empossado, mas cuja evidência e história bem que anuncia um novo tempo.

De quatro em quatro anos, a leseira da agenda do 1º de janeiro dá lugar ao ritual marcado de uma nova Presidência. As características compassadas da festa em Brasília – a troca de faixas, o desfile em carro aberto, os aviões soltando fumaça nos céus – não deixam dúvidas de que lá ocorre um espetáculo do poder.

Um espetáculo feito para emocionar, para consagrar, para lembrar que a itinerância é parte incontestável da lógica da democracia. Todo governante sabe que um dia será substituído e que a história corre mais do que o calendário cadenciado.

Esse ano de 2023, porém, encontra aqui no Brasil um espaço da festa muito carregado de sentidos e significados. Em nossos 34 anos de Nova República, é a primeira vez que dois ex-presidentes – na verdade um presidente em exercício e outro presidente já eleito duas outras vezes – se encontram como adversários. E se não é a primeira vez que existe animosidade, é a primeira vez que as diferenças foram tão explicitadas.

Depois de uma campanha dura, agressiva, muitas vezes grosseira, não é possível prever que o ritual fará sua magia, unificando com sua ação paixões e dissolvendo lealdades de outrora. Também é a primeira vez que o grupo perdedor contesta, mesmo que sem argumentos, por tanto tempo o resultado de um escrutínio eleitoral. Se Aécio Neves (PSDB) buscou, num primeiro momento, negar a vitória de Dilma Rousseff (PT) em 2014, a bravata durou pouco, e hoje em dia até mesmo o político de Minas Gerais reconhece que a tentativa era apenas (se é que existe apenas nesse quesito) conturbar o processo. Conseguiu, mas recuou.

Essa virada de ano será especial. Não é daquelas que anunciam um novo século ou milênio, que são resultado exclusivo da ação monótona do tempo. No nosso caso, estamos diante de um outro tipo de virada

O cenário em 2022 é, porém, distinto. O chefe do Executivo se manteve estranhamente – pensando-se em seu usual estilo histriônico manifesto em 27 anos como deputado federal e em quatro como presidente – isolado e silencioso depois do resultado das urnas. Pelo menos até o momento em que publico essa minha última coluna de 2022. No entanto, não deixou de insuflar seus seguidores com sua conivência implícita. Por isso, ele e o bolsonarismo vêm fazendo todo tipo de confusão: fecharam estradas; entraram com documento de anulação das eleições, que se provou totalmente infundado – e resultou em multa para o partido do presidente, o PL –; improvisaram atos antidemocráticos, organizaram acampamentos em frente aos quartéis exigindo dos militares o “desejado golpe”, tantas vezes prometido e alardeado por Jair Bolsonaro durante quatro anos.

Por essa e tantas outras é que as eleições de 2022 ficarão na história como aquelas em que se enfrentaram dois projetos de Brasil, em tudo distintos: um Brasil regressista, contrário aos indígenas, negros, à população LGBTQIA+, às mulheres, ao meio ambiente, que tirou verbas da educação, da saúde e da cultura, que defendeu um país de uma religião só; e outro, que vem defendendo uma agenda voltada para a ampliação dos direitos sociais, para a multiplicação das escolas públicas e de qualidade espalhadas pelo território nacional, que vem defendendo a preservação da Amazônia, o fortalecimento do Plano Nacional de Imunização – internacionalmente conhecido, entre outras metas e desafios.

Se o futuro não pertence a ninguém, o certo é que essas são duas maneiras de ver o Brasil; um Brasil nostálgico e que quer voltar para um lugar que nunca existiu, e um Brasil que se projeta para o futuro visando outros pactos de modernidade. Mas esse é só, e sempre, um só Brasil.

Tudo tem um começo e um depois. E desse depois ninguém pode saber.

Concluo, então, essa coluna com os desejos de um feliz 2023, como muitos projetos e sonhos de futuro. Que ele chegue logo para podermos brindar o presente e projetar o futuro.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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