Coluna

Filipe Campante

O país do futuro deve se vacinar contra os erros do passado

20 de julho de 2022

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A vacinação no Brasil acumula uma história secular de sucessos, mas retração da imunização atingiu patamares preocupantes 

A história é atravessada por incontáveis irrupções de doenças. Na escola, somos apresentados à varíola humana, doença que causou a morte de mais de 300 milhões de pessoas apenas no século 20 . O vírus da poliomielite, responsável pela doença popularmente conhecida como paralisia infantil, também marcou esse período e entre os anos 1960 e 1980 contabilizou mais de 26 mil casos de infecção no Brasil . Além desses velhos conhecidos, somam-se a difteria, a rubéola, o tétano, a varicela (ou catapora) e outros agentes infecciosos. Todos eles, a despeito dos riscos que podem causar à nossa saúde, compartilham um único ponto positivo: podem ser evitados por vacinas.

A vacinação no país acumula uma história secular de sucessos. Um fator decisivo para esse êxito no Brasil foi a implementação do PNI (Plano Nacional de Imunização), nos anos 1970, que promoveu a distribuição das vacinas pelo SUS (Sistema Único de Saúde) para a população, protagonizando a erradicação da varíola, além do controle de outras doenças. A tarefa complexa do monitoramento dessas infecções contou e conta com o apoio de uma rede de pesquisadores de diversas instituições, como o Instituto Butantan e a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), bem como de servidores de carreira envolvidos com o planejamento e a aprovação das vacinas, entre tantos outros profissionais de outras instâncias. Garantir a disponibilidade dos imunizantes e seu acesso à população é peça importante nesse processo, mas temos ainda um outro ponto crítico: a adesão das pessoas. Para tanto, precisamos de políticas públicas voltadas para a criação de campanhas de conscientização, mobilização e o alinhamento de tomadores de decisão em promover o acesso à saúde.

Infelizmente, os dados dos últimos sete anos têm mostrado uma queda crescente e perturbadora entre a população brasileira nas coberturas vacinais para diferentes doenças, quedas tão significativas que estão lembrando valores observados na década de 1980 . Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) e o Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, essa retração também vem sendo observada no mundo, tanto que em 2022 foi registrada a maior queda contínua nos últimos 30 anos .

O Brasil figura em patamares preocupantes: cerca de três em cada 10 crianças não receberam as vacinas necessárias, segundo reportagem da Agência Brasil; mantiveram-se coberturas abaixo da meta para diversos imunizantes disponíveis, os mesmos que nos ajudaram a sair de situações gravíssimas no passado. Considerando o contexto da pandemia da covid-19, vemos dificuldades em aumentar a adesão à vacinação, bem como alcançar coberturas vacinais mais homogêneas ao longo do território nacional. Importante ressaltar que a falta de coordenação do governo federal para esse enfrentamento interfere negativamente na abrangência célere da vacinação.

As razões do arrefecimento da imunização são muitas, tanto no contexto das vacinas aprovadas no país quanto no âmbito da covid-19. Segundo uma reportagem recente da Revista Fapesp , alguns fatores como a desinformação quanto à segurança e os efeitos da vacinação, a percepção de risco frente a essas doenças, o desconhecimento de quais vacinas integram o calendário, além da falta de aconselhamento por parte de profissionais de saúde quanto à importância e necessidade de vacinação contra doenças de que não ouvimos falar com frequência, podem influenciar no alcance dessa imunização. Campanhas de conscientização, além da mobilização da população, auxiliariam no manejo desses fatores, relembrando às pessoas os perigos que enfrentamos em um planeta sem vacinas. Mas para isso é preciso investimento em comunicação assertiva e consistente e, infelizmente, de 2018 para 2019 vimos uma redução de 21% nos gastos com campanhas de vacinação . Segundo o Ministério da Saúde, tal queda é equivalente à redução orçamentária da pasta.

Filipe Campanteé Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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