Temas
Compartilhe
Lembro quando, há alguns anos, tudo ao redor de mim repentinamente despertou para o tema de justiça climática. Nesse ciclo, que até então era novidade, eu lamentava a escassez de referências e literaturas brasileiras sobre o tema. Foi como uma obsessão violenta. Eu queria ler tudo, assistir tudo, assuntar e sanar todas as minhas dúvidas com o máximo de lideranças possíveis. Aquela overdose de conhecimento se tornou uma paixão e, em uma rápida cronologia, constatei o óbvio: as conexões da mudança do clima com os eixos de gênero, raça e as múltiplas violações de direitos já pautavam pesquisas e políticas públicas no norte global, enquanto o sul global – em especial, o Brasil – fazia malabarismos de resistência para enfrentar as (in)justiças socioambientais e climáticas na prática. Não há miopia que resista aos fatos.
Chegamos em agosto e já somamos um recorde de incontáveis perdas e danos decorrentes dos extremos climáticos no Brasil. Segundo o Sistema Integrado de Informações sobre Desastres do Ministério do Desenvolvimento Regional, 2022 foi o ano mais letal por deslizamentos e alagamentos da história. Assistimos novamente a tragédia chuvosa em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro, seguida pelo sul da Bahia, baixada fluminense no Rio, Angra dos Reis, Santa Catarina, Recife, Rio Grande do Norte, entre outros tantos estados e cidades . De todos os desastres, não é nenhuma coincidência que tais impactos custem a vida e o prejuízo irreparável de geografias com menos infraestrutura, recursos e capacidade de resposta diante da emergência climática.
Sendo a mudança do clima socialmente injusta, afinal, quem precisa de justiça climática no Brasil? Foi essa mesma interrogativa que intitulou um estudo inédito que foi lançado em 9 de agosto na CBMC (Conferência Brasileira de Mudança do Clima), em Recife. Sim, Recife. A mesma capital que ainda chora a perda de centenas de vidas majoritariamente negras e periféricas. A publicação, assinada coletivamente pelo Grupo de Trabalho de Gênero e Clima , do Observatório do Clima, nasceu da mesma inquietação que deu início ao texto de estreia desta coluna. Enquanto a academia teoriza as experiências de mitigação e adaptação, dois conceitos-chave na agenda do clima, existem narrativas que emergem para ilustrar a prática da justiça climática em diferentes territórios das cinco regiões do país. A pesquisa, então, desafia as metodologias tradicionais para ecoar histórias de quilombos, favelas, periferias, cidades e comunidades indígenas.
Enquanto a academia teoriza as experiências de mitigação e adaptação, narrativas da linha de frente emergem para ilustrar a prática da justiça climática no país
Foram horas de entrevistas e escolha cautelosa dos trechos que ficam e que saem. Nesse exercício de escuta, mais uma vez atestamos o óbvio: as soluções da crise climática vêm da base, e não da branquitude, masculina e letrada com certificações internacionais. Quando invertemos a lógica das experiências de resistência enquanto evidências, há um incômodo silencioso de quem ainda não considera narrativas marginalizadas como dados científicos. Como se, em um país como o Brasil, cenários geracionais de opressão não se repetissem em uma nação historicamente fundada no racismo estrutural.
O estudo “ Quem precisa de justiça climática no Brasil? ” foi desenhado em três objetivos principais. Primeiro, apresentar conceitos e dados sobre o tema a partir do que já existe. Segundo, sistematizar informações sobre justiça climática em nosso país, partindo de uma lente interseccional. E, nesse sentido, reunir narrativas factuais para ilustrar a dimensão múltipla do conceito e prática da justiça climática no Brasil, considerando as perspectivas de gênero, raça e lugar social. Para este último, buscamos intencionalmente por lideranças – majoritariamente mulheres – anônimas e também bastante conhecidas em suas lutas territoriais para destacar o que elas tinham a dizer. E esse “dizer” sem intermediações. Na primeira pessoa do singular e sem alteração das marcas da oralidade no texto.
Uma das narrativas que, para mim, considero a mais cirúrgica de todas foi a da Selma Dealdina, quilombola da comunidade Angelim III, no Espírito Santo, assistente social e membro da Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras). Para começar, ela derruba o conceito da própria justiça e, antes de mais nada, é enfática: “justiça e população negra, justiça e população quilombola não andam do mesmo lado. Holocausto,apartheid, escravidão já foram coisas dentro da legalidade, financiadas pela justiça. Então, primeiro precisa entender qual é o conceito de justiça. Nós só temos deveres, não direitos, A justiça cobra da gente o tempo todo. E aí quando a gente tenta exigir um direitinho que seja, não pode, não dá. A gente precisa definir o conceito de justiça e também o que a gente chama de ambiental. Porque ‘ambiente’ pra gente é o todo”, respondeu ela, detalhando o quão danosos são os projetos de desenvolvimento em seus territórios, tornando a justiça ambiental uma questão meramente utópica nos quilombos. Simplesmente inexistente para quem realmente precisa.
Txai Suruí, a jovem indígena que representou o Brasil com seu discurso que ganhou os holofotes da COP26 , em Glasgow, em novembro do último ano, defendeu que as soluções para a crise climática sejam pensadas a partir da escuta dos povos tradicionais. Representante da Uru-Eu-Wau-Wau, a maior terra indígena de Rondônia, a estudante de direito revelou que as pressões ambientais sofridas em seu território passam por grilagem, invasões, retirada de madeira e, sobretudo, queimadas ilegais – que aumentaram 600% durante a pandemia, agravando ainda mais o cenário de riscos respiratórios nas aldeias, estradas e cidades da região. “Nesse mundo capitalista, o que as pessoas pensam e veem muito é o lucro. O indígena é visto como inimigo do progresso. E a gente quer mostrar que uma floresta em pé vale muito mais – inclusive dinheiro – do que uma floresta derrubada”, enfatizou a jovem.
Quando direcionamos nosso olhar para as cidades brasileiras, existe o desafio de nomear as violações urbanas com muita assertividade para evitar generalizações vazias. Por isso que para Luana Costa, jornalista e mobilizadora social do movimento Nossa BH, antes de chegar à justiça climática, é preciso falar sobre territorialidade, heranças histórias e apartheid nas cidades. “Eu só consigo pensar na conexão da justiça com o espaço urbano no momento em que a gente conseguir viver uma cidadania plena. Justiça urbana só pode acontecer quando a minha cidadania for garantida. Eu vivo na periferia de Belo Horizonte, longe dos espaços, das oportunidades da cidade, do emprego, da escola, do acesso à saúde básica. O processo de escravização no Brasil fez com que os territórios sejam reflexo dessa estrutura de poder que nos desumaniza, e que continua a nos desmoralizar”, denunciou.
Enquanto assistimos às tragédias socioambientais e discutimos soluções em esferas políticas, talvez seja tempo de dar um passo atrás para uma escuta ativa e sistêmica a quem realmente precisa de justiça climática no Brasil. Recomendo este instrumento de conhecimento como leitura obrigatória a todos e todas que desejam ir além dos discursos e compreender as raízes e espinhos que ainda perfuram a nossa democracia. Isso é o que eu chamo de Brasil. Isso é o que eu chamo de justiça climática.
Andreia Coutinho Loubacké jornalista pela PUC-Rio, mestre em Relações Étnico-raciais pelo CEFET/RJ e Fulbright scholar na University of California, Davis. É especialista em justiça climática e reconhecida como uma das vozes expoentes no debate de raça, gênero e classe na agenda climática no Brasil. É conselheira da Casa Fluminense, Prefeitura do Rio de Janeiro e ActionAid. Como parte do Humphrey Fellowship, fez uma residência profissional na United Nations Population Fund (UNFPA), localizada em Nova York, como especialista em justiça climática.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
Destaques
Navegue por temas