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“A pátria que quisera ter era um mito, era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete. Nem a física, nem a moral, nem a intelectual, nem a política que julgava existir, havia. A que existia de fato era a do tenente Antonino, a do doutor Campos, a do homem do Itamarati”.
“Triste fim de Policarpo Quaresma” é talvez a obra mais emblemática de Lima Barreto. O livro ironiza o funcionalismo público, os estrangeirismos, o autoritarismo da jovem República brasileira e o patriotismo fácil – que o escritor renomeia, em vários de seus artigos, como “patriotada”. Publicado originalmente em 52 folhetins que apareceram na edição da tarde do Jornal do Comércio, entre 11 de agosto a 19 de outubro de 1911, a história só ganhou o formato de livro em 1915, publicado pela “Typ. Revista dos Tribunaes”, uma empresa pequena e sem muitos recursos.
A edição foi paga integralmente pelo seu autor, que vivia de seus parcos recursos como funcionário público e de seus artigos e crônicas que saiam em diversos jornais da capital carioca. Lima era arrimo de família, e seu salário acabava, segundo ele, logo no início do mês. Por isso, afirma o escritor, a obra saiu cheia de “gatos” – maneira como Lima costumava brincar com os erros de revisão e tipográficos que insistiam em aparecer em toda a sua obra impressa em vida, a despeito do preciosismo e cuidado do escritor.
Clássico da literatura brasileira, ainda não devidamente reconhecido, “Triste fim de Policarpo Quaresma” denuncia e maldiz um pouco de tudo: a desigualdade renitente, a burocracia das repartições públicas, a bajulação que grassa como praga, os clientelismos, os políticos nacionais de retórica vazia, a injustiça social, os problemas de concentração latifundiária, a escravidão do passado e o racismo do seu presente, e o autoritarismo das forças militares brasileiras – que deram um golpe naquela circunstância de inícios do século e nunca mais abriram mão da prática autoritária.
O protagonista da novela é o simpático, excêntrico e visionário major Policarpo Quaresma, que foi definido à época por Oliveira Lima, na resenha que escreveu para o jornal O Estado de São Paulo, no dia 13 de novembro de 1916, como um Dom Quixote nacional. Quaresma era major por costume e não profissão, e tinha a mania do patriotismo; queria plantar apenas produtos nacionais, instituir o tupi-guarani como língua nacional e era leitor voraz dos viajantes do passado, segundo o personagem, os verdadeiros cultores da nossa terra.
Lima Barreto distingue com cuidado o “patriotismo” do major – que era extremado nas suas ideias, mas idôneo, comprometido e propositivo – do conceito de “patriotada”, a prática vazia de exaltação nacional, mas sem a correspondente preocupação com a melhoria do país. Ao contrário, esse segundo conceito referia-se exclusivamente àqueles que visavam apenas a promoção pessoal.
Já Quaresma era em tudo diferente: “esse encerramento em si mesmo deu-lhe não sei que ar de estranho a tudo, às competições, às ambições, pois nada dessas coisas que fazem os ódios e as lutas tinha entrado no seu temperamento. Desinteressado de dinheiro, de glória e posição, vivendo numa reserva de sonho, adquirira a candura e a pureza d’alma que vão habitar esses homens de uma ideia fixa, os grandes estudiosos, os sábios, e os inventores, gente que fica mais terna, mais ingênua, mais inocente que as donzelas das poesias de outras épocas. É raro encontrar homens assim, mas os que há e, quando se os encontra mesmo tocados de um grão de loucura, a gente sente mais simpatia pela nossa espécie, mais orgulho de ser homem e mais esperança na felicidade da raça”.
Obra de Barreto é quase profética. Corrupção, desigualdade, empáfia das Forças Armadas, políticos irresponsáveis e fiéis que seguem seus líderes cegamente ainda compõem o Brasil
O escritor se inspirara na figura de seu pai que, como Quaresma, tentava sempre se reinventar e tinha muito orgulho do Brasil. No entanto, e como ocorre com os verdadeiros visionários utópicos, Quaresma termina preso e desiludido. A pátria que imaginava não existia na realidade; apenas nos livros de sua farta biblioteca – a mesma (sem tirar nem por) que Lima tinha em sua casa, nos subúrbios cariocas de Todos os Santos. Por isso, na trajetória que o livro percorre, Quaresma passa de visionário a triste; desiludido com o país que tanto lutara. Escreve Lima: “desde os 18 anos, que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem… Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada… O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas cousas de tupi, do folclore, das suas tentativas agrícolas… Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!”
A desilusão é do personagem, mas também do pai de Lima e do próprio escritor, que acreditou na República e se decepcionou com ela. Afinal, ao invés de inclusão social, a jovem República entregava muita exclusão, preconceito e todo tipo de discriminação.
O certo é que “saiu o major mais triste ainda do que vivera toda a vida. Percebeu que até mesmo ele ‘tão sereno, tão lúcido’, empregara sua vida, gastara o seu tempo, envelhecera atrás de tal quimera? Como é que não viu nitidamente a realidade, não a pressentiu logo e se deixou enganar por um falaz ídolo, absorver-se nele, dar-lhe em holocausto toda a sua existência?”
Diferente de uma terra de patriotas, o Brasil seguia entregue a “gente que se tinha metido em tal aventura pelo hábito de obedecer, gente inteiramente estranha à questão em debate, gente arrancada à força aos lares ou à calaçaria das ruas, pequeninos, tenros, ou que se haviam alistado por miséria; gente ignara, simples, às vezes cruel e perversa como crianças inconscientes; às vezes, boa e dócil como um cordeiro, mas, enfim, gente sem responsabilidade, sem anseio político, sem vontade própria…”. Esses são os patriotas de plantão, apenas agem como “cordeiros”, que têm o “hábito de obedecer”.
A obra de Lima Barreto, que morreu em novembro de 1922, continua a guardar uma atualidade surpreendente e um caráter até profético. A corrupção, a desigualdade, a empáfia das Forças Armadas, os políticos irresponsáveis, os fiéis que seguem seus líderes cegamente, sem pensar, ainda compõem uma face forte do que chamamos, sem pejas, de pátria e de patriotismo no Brasil.
Com a subida dos grupos de extrema direita, e dentre os vários sequestros por eles realizados, como os dísticos nacionais – a bandeira, o brasão e o hino nacionais (bem como a camiseta da seleção – mas também uma série de conceitos, caros à democracia, como Constituição, liberdade de expressão, República, vimos como se deslizam e deslocam significados, que assim manipulados, passam a justificar práticas que expressam o oposto do que esse regime preconiza.
E o mesmo processo social ocorreu com os conceitos de pátria e patriotismo. Pátria, segundo o dicionário, é o local em que se nasce. O termo português patriotismo tem suas origens no latimpatriota, por sua vez derivado do gregopatriōtēs: “do mesmo país”. Este, tem como radicalpatris, cujo significado é “terra natal” ou “terra paterna”.
Recentemente, porém, o termo tem sido muito confundido com nacionalismo. No entanto, se o nacionalismo é mais recente, datando sobretudo do início do século 19 em sua associação com o romantismo e o Estado-nação, já o conceito de patriotismo tem cauda mais longa. Há quem o associe aos holandeses na luta de emancipação contra os espanhóis, que se deu entre 1568 e 1648. O conceito também foi utilizado por Adam Smith, na sua obra “Teoria dos sentimentos morais”, que voltou à história romana e distinguiu dois tipos de patriotismo: o de Catão, que buscava sobretudo a destruição de nações consideradas inimigas e competidoras, e aquele de Cipião, que era, ao contrário, solidário a outros povos.
E se a princípio o termo denotava sobretudo o amor à pátria, a partir do 18 assimilou noções como costumes, tradições, a história e o bem-estar. Ele se aproximou, assim, ao longo do Oitocentos, do conceito de nação que, como mostra o sociólogo Benedict Anderson, representa uma comunidade emotiva e imaginada, cuja “essência consiste em que todos os tenham muitas coisas em comum e, também, que tenham esquecido muitas coisas”.
É nesse sentido que os dois conceitos se vinculam a partir do 19, sobretudo por conta da manipulação de valores e em nome de interesses e ideologias bastante específicos. Como diz Sanmuel Johnson, ainda no Setecentos, “o patriotismo é o último refúgio do canalha”.
Mas gostaria de voltar, uma vez mais, à obra visionária de Lima, para mostrar como ela ilumina, cem anos depois, o nosso presente. Patriotismo indica uma atitude positiva em relação à pátria; já patriotada é a manipulação do conceito com fins espúrios e particulares.
Nada mais revelador do que aqueles que hoje usam a nação como pura patriotada. Uma nação precisa ser inclusiva e, nesse sentido, plural. Aqueles que se alvoram o monopólio dela, que acreditam tratar-se de uma entidade que só visa a própria satisfação, que professa um só credo e uma só opção de vida – a deles mesmos – não são patriotas. Agem na base da patriotada como os generais que deram golpe da República em 1889 e seguem se alvorando o lugar de poder moderador do império. São, na verdade, o poder cerceador.
Ontem como hoje.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
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