Coluna
Lilia Schwarcz
O Carnaval celebrou o fim da pandemia e do autoritarismo
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Muita gente costuma pensar o Carnaval como um momento em que suspendemos o cotidiano e como uma boa ocasião para “esquecer da política”. Só cabe na avenida, ou no bloco, o prazer, o deleite absoluto, o esquecimento.
No entanto, o Carnaval é muito mais do que uma festa qualquer. É antes e cada vez mais a mais importante manifestação coletiva brasileira; a exposição, didática ou não, de sentimentos, imaginações, de afetos e desafetos públicos. E, não por coincidência, muitas vezes o ritual combina a beleza, a música e a estética com elementos de muita crítica social.
E foi isso que o Carnaval de 2023 mostrou. Até mesmo na Sapucaí, as escolas que se sagraram vencedoras foram aquelas que trouxeram consigo conteúdo e, eu diria, tese: um argumento trabalhado e bem desenvolvido. E muitas delas investiram, não por coincidência, na história e na politização da história – numa história pública.
Não por acaso, também, nesse ano muitos blocos se despediram do governo anterior, como se o Carnaval representasse – e de fato é – o ritual que marca, efetivamente, um novo ano e, em 2023, o começo de uma nova era.
Na minha opinião, celebrou-se durante a festa, e com muitas doses de euforia, o final de quatro anos de retrocesso – com figuras como a família Bolsonaro, seus militares, seus asseclas, seguidores milicianos e garimpeiros saindo de cena, para abrir-se um novo momento, onde a palavra de ordem é democracia. É como se o ritual tivesse a capacidade de mandar embora o autoritarismo e a política de exclusivismos, e invadir a festa com um Brasil que surge exaltando a República, e prometendo combater a fome, a desigualdade, os racismos, a misoginia, o ódio social. Tudo isso desfilou na avenida Sapucaí, no Sambódromo de São Paulo, e nas ruas do país em festa.
Não sou especialista em Carnaval, e reconheço a expertise daqueles e daquelas que conhecem, estudam, vivem e acompanham profundamente essa imensa manifestação coletiva. Já eu mesma tive o privilégio de participar, neste ano, um pouco mais de perto, do processo de criação da Escola Beija-Flor. Na verdade, fui convidada a dar uma aula (e assistir outras) não por conta da minha erudição no ritual, mas antes por causa do tema selecionado pela Escola de Nilópolis: o Bicentenário da Independência.
Acredito, piamente, que perdemos a oportunidade de, em 2022, celebrar oficialmente, e de maneira reflexiva, a festa do Bicentenário. O governo em exercício aproveitou a data para defender golpismo, exaltar ditadura militar e praticar uma patriotada excludente, onde poucos e poucas cabiam na festa. Por isso, acredito que a data foi celebrada, de verdade, apenas nesse Carnaval de 2023. Pois, ao invés de apostar na visão colonial, europeia, masculina e elitista; em uma emancipação pacífica e de comum acordo entre as partes afetadas – o povo, os mandantes, a metrópole portuguesa –, a Beija-Flor investiu numa visão crítica da Independência.
Na Avenida, a tela de Pedro Américo, “Independência ou morte” (1888), apareceu totalmente alterada e ressignificada: sai d. Pedro 1º em seu cavalo, e entra em seu lugar uma mulher negra, plena, altiva e alegre. Saem os soldados de chumbo, e em seu lugar entra um outro protagonista: o povo brasileiro, as populações negras, indígenas, LGBTI+.
E mais: ao invés do 7 de setembro, que foi uma data criada pela própria monarquia, surge o 2 de julho – dia em que é comemorada a independência na Bahia, e que nesse ano de 2023 faz 200 anos.
Celebrou-se durante a festa, e com muitas doses de euforia, o final de quatro anos de retrocesso para abrir-se um novo momento, onde a palavra de ordem é democracia
O desfile da Beija-Flor de Nilópolis representou, assim, o grito dos excluídos, dos silenciados, homenageou a resistência e as lutas coletivas, com as alas desfilando em ritmo de passeata.
A escola também criticou a fome, o ataque aos povos indígenas, a homofobia, o racismo, a misoginia e a violência contra as mulheres. Verdadeiro convite à revolução, a escola de Nilópolis buscou inspiração nas mulheres que lutaram na Bahia – como Maria Felipa, Maria Quitéria, sor. Joana Angélica – e no matriarcado, na Mátria, pois esse é também o grupo mais silenciado e marginalizado de nossa pirâmide social, justamente por interseccionar marcadores sociais de diferença, como raça, sexo, gênero e classe.
Ao invés de cantar a narrativa oficial e colonial, a Escola tratou das feridas, dos esquecimentos da nossa história, e de outras versões que contam essa história capital da nossa nacionalidade, que é a independência do país, mas por outro ângulo: exaltando a presença de personagens em geral apartados da narrativa oficial. Sim, pois Independência não pode ser pensada apenas como data fixa – efeméride ou feriado. Ela é antes um processo social, vivido de diferentes maneiras nas várias regiões do país.
Não conheço tão bem os enredos das demais escolas, mas tomo o caso da Beija-Flor como emblemático: 2023 teve o primeiro Carnaval em anos sem governantes de extrema direita, retrógrados, e, não por coincidência, não se teve notícias de qualquer manifestação a favor de Bolsonaro, nessa ocasião. Aliás, desde 8 de janeiro, esse governo vem sendo cada vez mais associado ao terrorismo, às fake news, aos negacionismos, ao desmatamento ilegal e assim vamos.
Não acho que o Carnaval deixa mensagem fácil, tampouco única. Cada um sente como quer e gosta. O ritual é assim, irmana para emocionar e construir um senso de coletividade. Mas tenho certeza de algumas pautas que reincidiram na avenida: o elogio à diversidade, a história daqueles e daquelas que foram silenciados na narrativa oficial e a vontade, o desejo de mostrar que o fascismo não preservará por essas bandas de cá. Teve e terá vida curta, como um parágrafo indesejado.
Não sei o que aconteceu com os bolsonaristas, os pretensos patriotas durante o Carnaval – se foram para a Flórida acompanhar o presidente, ficaram em casa vendo TV e falando mal da festa alheia, se foram todos andar de jet-ski, ou sei lá mais o quê. O certo é que o Carnaval deste ano expulsou das ruas a presença do fascismo. Celebrou um Brasil sem medo do ódio promovido pelo Estado nesses últimos 4 anos.
Sabemos que não há como varrer o extremismo de direita só na base da eleição, e há muito ainda a fazer. Mas a festa é assim: suspende o tempo “pra tudo se acabar na quarta-feira”, como canta o bardo Chico Buarque.
A história é como um sinaleiro, lembra do passado para tentar buscar comparar e melhor entender, ou iluminar sob outra face, o presente. Evoco aqui, o Carnaval de 1919, que homenageou o final da Gripe Espanhola. A epidemia foi dura com os brasileiros e brasileiras, castigou o país de agosto a dezembro de 1918, e não houve Estado da União que deixasse de ser afetado. Mas em fevereiro, do ano seguinte, quem ainda estava vivo queria comemorar a saúde, celebrar a vida e dessa maneira homenagear aqueles que se foram. Por isso, os cordões foram tomados por pessoas desfilando com fantasias de enfermeiros e enfermeiras, médicos, xícaras de chá, imensas injeções, e assim vamos. Não por coincidência, ele passou para a história como um ritual festejado com extrema alegria, muita liberdade e um pingo de temor. Pois epidemias voltam, dizem os cientistas até hoje.
Fico pensando que em alguns anos, quando os livros de história tratarem do Carnaval de 2023, dirão que o ano começou depois da Quarta-Feira de Cinzas, pois foi a festa que consagrou o final ritual da pandemia e do autoritarismo.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
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