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Lilia Schwarcz

Até logo mais ou te encontro lá na próxima esquina

13 de março de 2023

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Para mim, esse é um ciclo que se encerra e outro que se abre. Mas talvez para o país essa seja uma nova velha história. De um país que muda, mas reitera que avança e também recua

“És um senhor tão bonito, como a cara do teu filho, tempo, tempo, tempo, tempo, faço um acordo contigo, tempo, tempo, tempo, tempo.”

É assim que canta Caetano Veloso em “Oração ao tempo”, e foi assim que me sentei para escrever essa que é minha última coluna aqui no Nexo . Nessa canção, Caetano faz uma ode à passagem do tempo e o define como senhor de destinos. Com efeito, o tempo é mago de muitas potencialidades, dentre elas, aquela de deixar um registro, atuar como testemunha, lembrar de não esquecer.

Essa é uma coluna de despedida (mas não de adeus) e, portanto, vem cheia de recordações do tempo. Foi no final de 2014, quando tinha acabado de publicar “Brasil uma biografia”, junto com Heloisa Starling – livro que revelaria ter uma cauda longa, em muitos sentidos –, que Paula Miraglia, uma amiga querida, me procurou e, de alguma maneira, me inventou. Naquela ocasião, perguntou se eu gostaria de escrever quinzenalmente no Nexo . Esse era o começo da vida do próprio Nexo , e virei, nesse tempo todo, uma espécie de “mobiliário da casa”, já fazendo parte dos “móveis e utensílios” da redação.

Naquele começo de história, preciso confessar, não carregava comigo qualquer convicção ou certeza de que poderia publicar colunas, com regularidade, em algum órgão noticioso. Mais ainda, metade historiadora, metade antropóloga e, tudo junto, não conseguia crer que conseguisse lidar com esse grande desafio que significa escrever sobre o “tempo presente”.

Historiadoras como eu preferem lidar com o “tempo passado”, e analisar processos sociais que se encerram, antes de enfrentarem o desafio de escrever sobre o momento coevo; aquele que nos foi dado testemunhar, viver e se emocionar. Sim, pois, teoricamente, falar de seu “próprio tempo” carrega consigo muitas incertezas; inseguranças também. Afinal, ninguém escapa das próprias subjetividades, paixões, e convicções de momento – mas que se mostram, ao fim e ao cabo, se não passageiras, ao menos instáveis, quando não aumentadas pela lente e a temperatura do contexto. Nem sempre somos boas testemunhas de nossas próprias vidas, e esse era (e é, ainda) meu grande temor.

No entanto, desafio aceito, fiz desse tipo de escrita um hábito enraizado, que me permitiu anotar o cotidiano e não o deixar simplesmente passar. Desde então, tenho sempre à mão uma caderneta de anotações, e já virou costume registrar meu próprio assombro, minhas satisfações, indignações, ou mesmo, a mera vontade de me introduzir num tema. Também tomei a coluna como pretexto para pesquisar assuntos sobre os quais gostaria de me aprofundar e saber mais a respeito. Escrever é duvidar, é perguntar de maneira curiosa e por vezes achar respostas, por vezes deixá-las em aberto.

E assim, relendo de maneira um pouco nostálgica esses quase 10 anos em forma de colunas quinzenais, percebo como “o tempo passou na janela”, em mais outra alusão musical: dessa vez a “Carolina”, de Chico Buarque. Nesse meio tempo uma presidente caiu – por conta do que considero ter sido um golpe de impeachment –, um vice-presidente assumiu o poder e calçou o pavimento para a entrada de um governo retrógrado e de extrema direita, o Brasil conheceu um novo mandatário que trouxe para o Planalto uma agenda em tudo oposta à democracia: defendeu e facilitou armamentos nas mãos de civis, entregou a Amazônia para madeireiras, mineradoras e pescadores ilegais, tudo em áreas e reservas indígenas, aplicou uma política criminosa em relação à pandemia de covid, causando mais de 600 mil mortes – sendo que muitas delas poderiam ter sido preservadas –, se opôs frontalmente à uma agenda inclusiva no que se refere às populações negras, indígenas, LGBTQIA+, e tratou do Brasil, um Estado secular, como se fosse religioso – remeteu-se em seus discursos a apenas uma religião – a pentecostal evangélica. O ex-presidente ainda sangrou, vergonhosamente, o Estado, na tentativa de se reeleger, tirando verbas de setores essenciais, como educação e saúde.

Foram poucas as vezes em que falei de mim mesma. Não sei fazer isso. E se dessa vez, nessa minha última coluna, o faço, não é por vaidade. É porque acredito que trabalho intelectual é projeto coletivo

Tive a satisfação, ainda, de em uma de minhas últimas colunas, saudar a volta da democracia, um novo “início” – na tradição de Edward Said –, com a bela posse de Luís Inácio Lula da Silva; e a decepção de assistir o ataque vergonhoso, golpista e vândalo aos três palácios de Brasília no dia 8 de janeiro deste ano de 2023.

Num plano mais pessoal, como escrita gera mais escrita, junto com as colunas, nesse meio tempo, lancei alguns livros: “Lima Barreto triste visionário”, “A bailarina da morte”, (com Heloisa Starling), “Enciclopédia negra” (com Flávio Gomes e Jaime Lauriano), “O sequestro da Independência” (com Carlos Lima e Lúcia Stumpf), e o “Sobre o autoritarismo brasileiro”, que dialoga de perto com as colunas que escrevi para o Nexo . Na verdade, não teria redigido este último livro, se não tivesse sido provocada por uma agenda que criei para o jornal.

Nesse meio tempo, também fiz a curadoria – conjunta ou sozinha – de várias exposições, que apareceram, de alguma maneira, expressas nas minhas colunas. “Histórias afro-atlânticas”, “Histórias das mulheres”, “Histórias brasileiras” e “Retratos brasileiros” — essas todas para o Masp —, mas também “Enciclopédia negra”, na Pinacoteca de São Paulo e no MAR, “Contramemória”, no Theatro Municipal, “Vários 22”, na Galeria 132, “Jaula”, no Museu Histórico do Rio de Janeiro: uma retrospectiva da obra de Dan Lannes, e “Brasil futuro, as formas da democracia” no Museu Nacional da República, em Brasília, foram algumas das mostras que abri nesse período, mostrando como imagem não é ilustração; é documento e dos mais potentes. Eu as cito por aqui, pois essa foi mais outra “invenção” no meu currículo, que se fez em conversa e me valendo das colunas que publiquei no Nexo . O certo é que a análise de imagem passou a fazer parte da minha própria especialidade.

Nessa minha longa, feliz e produtiva vida no Nexo foram poucas as vezes em que falei de mim mesma. Não sei fazer isso. E se dessa vez, nessa minha última coluna, o faço, não é por vaidade. É porque acredito que trabalho intelectual é projeto coletivo, e é dessa maneira que entendo minha passagem por aqui.

Todo trabalho é também um processo no tempo. Agradeço, assim, a todos, todas e todes vocês, que me acompanharam nesses anos todos, sempre com tanto carinho e generosidade, e ao Nexo por me abrigar por aqui até criar teia de aranha.

A vida muitas vezes nos presenteia com novos recomeços e desafios. Hoje, mais do que nunca, aprendemos como será, sempre, preciso cuidar da nossa democracia – esforço esse que pedirá muito empenho e vigilância cidadã. O pensamento retrógrado de extrema direita não perdeu a eleição junto com Jair Bolsonaro. Na verdade, esses anos serviram, quase que didaticamente, para mostrar como esse é um grupo bem constituído, que acredita em golpe como solução mágica e democrática (sic), inventa um passado alvissareiro (e que nunca existiu) para os tempos da ditadura militar, é contra feminismo e pessoas LGBTQIA+, não tolera cotas e acredita na balela de um racismo reverso quando a branquitude continua conservando privilégios, e acha que o Estado é casa própria. Não é!

Para mim, esse é um ciclo que se encerra e outro que se abre. Mas talvez para o país, essa seja uma nova velha história. De um país que muda, mas reitera, que avança e também recua.

Essa é uma nação que, definitivamente, e como disse Tom Jobim, “não é para principiantes”. Essa é a sua beleza, mas também o maior desafio. Encontro vocês nas encruzilhadas desse nosso ativismo, dessa nossa militância por um país mais inclusivo, democrático, plural e menos desigual. A luta é boa e desejo que bons ventos acompanhem vocês, o Nexo , os meus editores queridos (obrigada Paula Miraglia e Aline Pellegrini e tantos editores amigos que me ensinaram a escrever uma coluna e a colocar um ponto final).

História é processo e trajetória. Bom, esse é (por enquanto) meu ponto final.

Abraço apertado para todas, todos e todes vocês.

Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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