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Como tantos outros meses na era Bolsonaro, dezembro de 2022 começou de forma não muito auspiciosa para a ciência brasileira. Devido ao contingenciamento no orçamento do Ministério da Educação, a Capes anunciou que seria forçada a cortar o pagamento de seus mais de 200 mil bolsistas de pós-graduação.
A decisão acabou revertida , mas isso não deixou os pós-graduandos do país em situação confortável. Com os valores das bolsas de mestrado e doutorado estagnados há dez anos em R$ 1.500 e R$ 2.200, a remuneração da categoria viu seu poder de compra frente à inflação cair quase pela metade desde 2013. A defasagem foi suficiente para que a equipe de transição declarasse o reajuste das bolsas como uma das primeiras prioridades para o novo governo na área de ciência e tecnologia.
Tais agruras financeiras são apenas a ponta do iceberg das dificuldades de quem busca seguir a carreira acadêmica no Brasil. O gargalo maior não é a pós-graduação em si, mas o que vem depois, já que há um descompasso evidente entre o número de doutores formados e as vagas disponíveis nas universidades. Depois de duas décadas em que a ampliação radical da pós-graduação no país a partir dos anos 90 foi acompanhada pela expansão do ensino superior , a bonança chegou ao fim com a crise econômica da década passada. Enquanto a abertura de novas vagas docentes tornou-se basicamente restrita à reposição de quadros, o país segue formando mais de 20 mil doutores por ano – ainda que dados recentes indiquem uma queda nos últimos anos . Não surpreendentemente, o destino natural de muitos deles é deixar o país .
Engana-se, porém, quem acha que essa realidade é exclusiva do Brasil – ou foi criada pelo governo Bolsonaro. Pelo contrário, a absorção em massa de doutores ocorrida durante os anos do Reuni é a exceção e não a regra em países com sistemas universitários consolidados. As razões para isso são matemáticas: num mundo em que pesquisadores orientam inúmeros pós-graduandos ao mesmo tempo , e não raramente gerenciam grupos com dezenas de membros, a única forma de absorver o universo crescente de doutores é a expansão contínua do sistema acadêmico.
Essa expansão de fato aconteceu por algumas décadas do século 20 no mundo desenvolvido, levando à naturalização do sistema de “um orientador – inúmeros pós-graduandos”. Na maior parte do mundo , porém, a bolha já estourou. Ainda que mais de 70% dos doutorandos tenham a intenção de ficar na academia, segundo uma pesquisa de 2015 , apenas entre 10 e 30% conseguirão um cargo de professor ou pesquisador numa universidade, segundo estatísticas da Europa e América do Norte . Destes, a porcentagem que progredirá para uma posição estável é ainda menor, e só vem diminuindo com os anos , o que parece começar a acontecer também no Brasil . Isso faz com que alguns comparem a academia a um esquema de pirâmide financeira , em que os lucros (ou currículos) dos que estão no sistema dependem de amealhar um número cada vez maior de incautos para dentro dele, que por sua vez não terão como colher os mesmos benefícios.
Desfazer o esquema de pirâmide da pós-graduação requer formar doutores mais versáteis, o que por sua vez envolve quebrar a inércia cultural da academia – e seu engessamento burocrático
Muitos argumentariam que a desproporcionalidade entre doutores formados e vagas acadêmicas não é necessariamente ruim . Caso a academia absorvesse todos os seus egressos, isso geraria um sistema fechado com pouca comunicação com o universo extra-acadêmico. E é bem provável que a contribuição da pós-graduação cresça caso seus doutores se aventurem no mundo lá fora – seja na indústria, no setor público ou em inúmeras outras atividades em que as habilidades obtidas num doutorado possam ser úteis. Dado que o Brasil ainda tem uma taxa baixa de doutores per capita em relação a países desenvolvidos, a expansão da pós-graduação ainda é defendida por muitos como um bom negócio para o país.
O que é negócio para o país, porém, pode não sê-lo para os indivíduos que buscam o diploma – em larga medida pelo descompasso de expectativas. A maioria dos pós-graduandos, afinal, não só gostaria de seguir na carreira acadêmica como espera conseguir fazê-lo. Nem a irrealidade numérica dessa perspectiva nem as alternativas a ela, no entanto, costumam ser abordadas de forma explícita pelos programas de pós-graduação.
A resposta natural à situação seria assumir a inevitabilidade do gargalo, e reformular a pós-graduação para desenvolver habilidades que vão além da pesquisa em ambiente acadêmico. A recomendação, porém, costuma esbarrar nas limitações dos quadros de orientadores, que por conta do viés de sobrevivência de incluírem apenas doutores que ficaram na academia não são representativos da diversidade de profissionais que precisam formar. Com isso, a tendência natural é que eles direcionem seus alunos para o esquema de pirâmide que os trouxe até ali – no qual os recém-chegados terão cada vez menos chance de ser contemplados.
Como consertar a situação? Em primeiro lugar, discutindo o assunto de forma franca. Isso começa por colocar em questão o propósito de um doutorado, que ainda é visto por muitos como um curso voltado para a carreira acadêmica . A suposição – implícita na algo anacrônica figura da tese – é que um doutor seja alguém capaz de avançar o conhecimento em um campo acadêmico específico. Mas a superespecialização necessária para atingir este fim pode vir em detrimento de habilidades mais transferíveis , como a capacidade crítica para avaliar evidência e a facilidade para transitar entre disciplinas.
Afora isso, é preciso estimular que pós-graduandos se mantenham em contato com o mundo fora da academia. Estágios em instituições extra-acadêmicas são uma opção, ainda que a infraestrutura para isso no Brasil seja mínima. Mais interessante ainda, porém, seria ter gente com experiência extra-acadêmica orientando e dando aulas na pós-graduação.
Para possibilitar isso, porém, é necessário abordar um problema crônico do mundo acadêmico: sua inospitalidade a carreiras não-lineares. Contratações e concursos docentes em universidades com cursos de pós-graduação são tipicamente desenhados para medir realizações de seus candidatos dentro da própria academia: artigos e livros publicados, estágios de pós-doutorado, experiência docente e assim por diante. Com isso, é muito difícil sair da academia para explorar outras opções e retornar para ela depois, já que alguns anos fora do circuito da publicação científica acabam com a competitividade de seu currículo .
Afora isso, a existência de uma carreira única para todos os docentes de ensino superior em universidades federais no Brasil faz com que a entrada só seja possível no início da carreira (ou, em raras oportunidades, no final dela), independentemente do quanto alguém tenha feito fora da universidade. Isso contribui para excluir pessoas com trajetórias não usuais que teriam um potencial legítimo de transformar a pós-graduação – pra não falar daquelas que passam por períodos de baixa produtividade acadêmica por razões pessoais, como a maternidade .
Desfazer o esquema de pirâmide da pós-graduação requer formar doutores mais versáteis, o que por sua vez envolve quebrar a inércia cultural da academia – e seu engessamento burocrático. Um primeiro passo talvez seja repensar a ideia de que existe uma única carreira docente possível na universidade pública, o que a torna menos diversa, desperdiça gente com competências relevantes, e nos impede de moldar a pós-graduação para um mundo em que doutores cada vez mais tomarão outros rumos. E se eu puder colocar meus dois centavos para o governo que começa, talvez seja hora de discutir isso de forma madura, sem preconceitos e utopias de isonomia que facilitam a vida dos sindicatos , mas não a dos alunos.
Mas isso depois de reajustar as bolsas, porque senão logo não vai mais nem haver pós-graduação para consertar.
Olavo Amaralé médico, escritor e professor da UFRJ. Foi neurocientista por duas décadas e hoje se dedica à promoção de uma ciência mais aberta e reprodutível. Coordena a Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade, uma replicação multicêntrica de experimentos da ciência biomédica brasileira, e o No-Budget Science, um coletivo para catalisar projetos dedicados a construir uma ciência melhor. Como escritor, é autor de Dicionário de Línguas Imaginárias e Correnteza e Escombros
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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