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Filipe Campante

Precisamos falar sobre política industrial, mas como?

19 de abril de 2023

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Evidência recente sugere que políticas industriais bem-sucedidas vêm associadas a maior abertura ao mercado externo. Política industrial com protecionismo é uma receita para o fracasso

O tema da política industrial – isto é, a ideia de que determinados setores produtivos merecem atenção especial e recursos direcionados por políticas públicas – está de volta com força total, pelo mundo afora. Se essa ideia nunca se ausentou de todo na prática, é fato que agora ela é aventada de forma bem mais explícita e assumida, mesmo em contextos onde até há pouco tinha conotação retórica fortemente negativa. Nos EUA, por exemplo, – tradicionalmente menos afeitos à intervenção governamental nesse estilo, ao menos no plano da retórica – medidas recentes do governo Biden encamparam a política industrial sem disfarces, em setores como energia verde e produção de chips avançados.

Num contexto como o brasileiro, onde a prática de incentivos ao desenvolvimento de setores específicos tem tradição e longevidade, o solo sempre esteve mais fértil para essas ideias. Somando o pouco dinamismo da economia brasileira ao longo das últimas décadas ao processo de desindustrialização vivenciado pelo país nesse período, o diagnóstico de que política industrial é necessária adquiriu fôlego renovado no debate.

Ocorre que poucos temas em política econômica são tão polêmicos. De um lado, os que no Brasil se convencionou chamar de “desenvolvimentistas” apontam para exemplos internacionais (especialmente vindos do Leste Asiático), para validar a intuição de que o Estado deve escolher e investir em setores especialmente dinâmicos. De outro, o lado apelidado de “liberal” enfatiza os riscos de captura por grupos de interesse ávidos por benesses, e o fracasso de muitas tentativas anteriores no Brasil e alhures como evidência do perigo incontornável de incentivos direcionados.

A meu ver, se bem o foco nos riscos de captura e nos casos de fracasso é um ponto de partida salutar, no contexto atual aferrar-se apenas a isso periga ceder o terreno no debate. O fato é que os exemplos internacionais arregimentados pelos defensores da política industrial são por demais persuasivos para serem descartados, e por isso não serão.

Tome-se o exemplo da Coreia do Sul, um dos casos mais dramáticos de desenvolvimento econômico da história da humanidade – um país que passou da pobreza abjeta ao patamar de um dos países mais desenvolvidos do mundo, no espaço de um par de gerações. É por demais evidente que o modelo sul-coreano fez uso intensivo de intervenções de política industrial. Argumentar que na verdade essas intervenções não fizeram diferença, ou que o país poderia ter crescido ainda mais se não tivessem sido adotadas, é algo que não passa no teste mais básico de plausibilidade. É verdade que supor que o caso sul-coreano justifica qualquer tipo de política de incentivo setorial é um erro lógico – mas não é difícil ver que recorrer a esse exemplo é um instrumento retórico irresistível.

Filipe Campanteé Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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