Coluna
Marcelo Coelho
No filme ‘Pobres criaturas’, o bizarro não passa de um truque
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O trailer do filme já assusta, mas, em matéria de coisa estranha, você ainda não viu nada. “Pobres criaturas”, de Yorgos Lanthimos, apresenta ao espectador galinhas com cabeça de porco (ou vice-versa, já não lembro), aparelhos para a liberação de gases intestinais (que ficam flutuando como bolhas verdes sobre a mesa do jantar), cortadores de clitóris, cérebros e fígados arrancados em cirurgias de estilo vitoriano.
A ideia é ser tão bizarro que, ao espectador, só resta dar risada. O filme providencia, com efeito, algumas pequenas “pausas”, como as que se fazem depois de cada piada numa stand-up comedy, para que o público possa rir, isto é, se puder mesmo.
O problema é que, com toda a sua estranheza, a ideia por trás de “Pobres criaturas” acaba se revelando meio banal; uma vez que topamos com a “mensagem” do filme, tudo se resume a uma decoração barroca, uma cenografia meio steampunk, um despejo de detalhes repulsivos ou divertidos em cima de uma história sem novidade.
Não que “Pobres criaturas” seja ruim. É mais uma perda de tempo. Muita gente detestou as cenas de sexo. Mas nada é filmado muito de perto, e, se os homens que Bella Baxter (Emma Stone) encontra pelo caminho são nojentos ao extremo, isso faz parte do que o roteiro queria mesmo dizer.
O filme deve muito a Frankenstein, como se sabe. Um médico-cientista (William Dafoe), com um rosto remendado de monstro, dedica-se a transplantes de órgãos numa época que parece recriar o século 19 dos filmes de Boris Karloff. Sua criatura de estimação é Bella Baxter, a jovem interpretada pela sempre excepcional Emma Stone. Vivendo num corpo adulto, sua mente necessitará do mais paciente aprendizado. Terá de ser treinada para andar, falar, se vestir, fazer xixi, comer direito…
Marcelo Coelhoé jornalista, com mestrado em sociologia pela USP (Universidade de São Paulo). Escreveu três livros de ficção (“Noturno”, “Jantando com Melvin” e “Patópolis”), dois de literatura infantil (“A professora de desenho e outras histórias” e “Minhas férias”) e um juvenil (“Cine Bijou”). É também autor de “Crítica cultural: teoria e prática” e “Folha explica Montaigne”, além de três coletâneas com artigos originalmente publicados no jornal Folha de S.Paulo (“Gosto se discute”, “Trivial variado” e “Tempo medido”).
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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